A infância eterna do gosto

A infância eterna do gosto

A sociedade das crianças forjou um mundo das crianças, e o mundo das crianças, mais e mais autorreferencial, tende a se expandir e se tornar o mundo, porque sua própria existência barra o amadurecimento do gosto e o advento da vida adulta. Daí fenômenos como as plateias adultas lotando filmes infanto-juvenis e a cultura geek.

Estado da Arte

09 Junho 2018 | 18h23

por Rodrigo de Lemos

O filósofo Alain lembrava a frase de Napoleão sobre a necessidade de apenas duas matérias na escola, latim e geometria, para rejeitar a ideia de que os alunos deveriam escolher os seus temas de estudos. Bem entendido, para Alain, se deveria tomar o latim de que falava o Imperador em um sentido mais amplo, compreendendo também a poesia. Não por certo a: 

“poesia tola, rimada de propósito para as crianças; ao contrário, a mais alta poesia, a mais venerada. Quanto a isso, opõe-se frequentemente que a criança não compreenderá muita coisa. Sem dúvida alguma ele não compreenderá num primeiro momento. Mas o poder da poesia está no fato de que, a cada leitura, antes de nos instruir, ela nos dispõe pelos sons e o ritmo, segundo um modelo humano universal. E isso é bom também para a criança, sobretudo para a criança.”

Essa exigência de Alain faz eco à sua visão geral da educação, segundo a qual a seriedade da idade adulta faz o maior bem se impingida desde cedo à criança, que só aspiraria a ser homem e que nutriria um secreto desprezo por mestres ávidos em diluir no jogo pueril a gravidade dos jogos do espírito. 

Há algo no seu pensamento que reflete aspectos da época de Alain. Escrito em 1932, seu livro sobre a educação parece se situar na transição entre o velho mundo, centrado no adulto, e o mundo contemporâneo, em que a infância não é apenas um esboço da adultez, mas tende a constituir uma forma de vida fechada em si mesma – aquela sociedade das crianças criticada por Hannah Arendt. A linha de clivagem entre ontem e hoje passa necessariamente por esse movimento, e o que veio antes nos parece por vezes ininteligível. Não nos causa espanto, nos tomos iniciais de Em busca do tempo perdido, a fascinação do juveníssimo narrador pela atriz trágica Berma encenando Racine? Quantos jovens criados na sociedade das crianças se fizeram sensíveis tão cedo àquela impressão de grandeza deixada pelos alexandrinos de Fedra? Nos perguntamos em qual realidade perdida um pai podia interpelar o filho à leitura em voz alta da Ilíada. Isso acontecia e servia a formar leitores – dentre os quais o menor não é George Steiner, que relata precisamente esse episódio com seu pai como fundamental ao seu despertar intelectual. 

Chardin, “Retrato de Auguste Gabriel Godefroy”, (1741)

O gosto foi tremendamente influenciado pelo advento da nova criança. Bem quando da sua formação, naquele momento em que Alain lhe recomendava afeiçoar-se a uma grandeza incompreensível como primeiro passo na direção do amor às artes e ao intelecto, nossa sociedade criou formas de entretenimento infantil que só reforçam a necessidade de excitação permanente e de atividade que caracterizam essa fase da vida. São aparelhos ruidosos e brilhantes; são filmes e animações de cortes rápidos e enredos simples; são músicas estridentes e de melodia fácil – tudo em muito distante mesmo de La Fontaine ou de Perrault ou de Andersen, os quais ainda vestiam suas fantasias com formas maduras que não deixam de seduzir um adulto de gosto e que, quando não são elas mesmas grande poesia (o próprio La Fontaine!), servem a preparar a frequentação de autores clássicos. A sociedade das crianças forjou um mundo das crianças, e o mundo das crianças, mais e mais autorreferencial, tende a se expandir e se tornar o mundo, porque sua própria existência barra o amadurecimento do gosto e o advento da adultez quando estes deveriam ter lugar. Não deveriam causar surpresa, assim, filmes infanto-juvenis com plateias majoritariamente adultas, nem o florescimento de uma cultura geek, nem pais e mães que consomem pari passu com os filhos filmes e músicas infantis, sem forçá-los ao difícil que caracteriza o gosto do homem maduro. 

Essa constatação não deveria, por outro lado, abrir lugar ao lamento fácil quanto a uma suposta infantilização das massas. Muitos dos que lotam salas de cinema em busca de entretenimento infanto-juvenil são os capazes de erguer prédios, de intervir em corpos, de interpretar leis. O que se dá, na sociedade contemporânea, é uma passagem com poucas transições da constrição e da responsabilidade associadas ao trabalho às totais descontração e facilidade providas pelo mundo da criança. Minguou aquele espaço de sublime ludicidade com coisas sérias que é o da cultura, em que o prazer encontra a dificuldade, em que o homem distrai o olhar da sua realidade imediata não para evadir-se em imagens atraentes e fugidias que o cortejam, mas para reencontrar-se numa suprema ficção em que ele intui repousar uma verdade muito fundamental quanto à sua própria vida. Restaurar esse espaço é um vasto programa educativo, mais e mais restrito a um projeto de autoeducação.

Rodrigo de Lemos é professor na UFCSPA (RS) e doutor em Literatura pela UFRGS.