A idiotia como método – Entrevista com Luiz Felipe Pondé

A idiotia como método – Entrevista com Luiz Felipe Pondé

Estado da Arte

07 Abril 2017 | 12h41

Em Porto Alegre para a trigésima edição do Fórum da Liberdade dedicada ao “Futuro da Democracia”, o filósofo falou ao Estado da Arte, em parceria com o Instituto de Estudos Empresariais, sobre o movimento liberal brasileiro, o estado da democracia no Mundo e as perspectivas para a nossa cultura. 

Imbecil no trilho de trem

Um homem de visão! (Fonte: Visual Vocabulary)

– Por que, no Brasil, a direita não se interessa por cultura? É só uma questão de pouca familiaridade com o assunto?
– Não acho que seja só pouca familiaridade, é ignorância, estupidez mesmo. A direita brasileira consiste basicamente na elite financeira e nos filhos dessa elite, não acreditam em ideias. Acham que intelectual é animador de jantares. Eles creem no Mercado e na Economia, quando não em coisas piores (risos). Mantêm a mesma descrença que um dono de padaria teria se seu filho decidisse ser filósofo.

– Por vezes, o senhor mencionou que a dificuldade do liberalismo e da direita para ganhar espaço no Brasil se dá pela dificuldade dos liberais e conservadores de explorarem áreas das ciências humanas. O que falta para que esse campo deixe de ser exclusividade da esquerda? Há falhas de comunicação dos liberais?
– Sim, há. Primeiro, como disse, os empresários não acreditam em ideias e por isso não investem em jovens liberais pesquisadores em humanas. Depois, os jovens liberais, em geral, pensam que a racionalidade econômica tudo resolve, o que é falta de repertório e preguiça intelectual associada à arrogância de quem é jovem e ganha bem. Há poucas mulheres entre os liberais, o que deixa o ambiente chato e com cara de conversa de bancário na hora do almoço. O mercado não resolve tudo, o agente da escolha racional econômica existe, mas não é tudo no ser humano.

– Depois de muitas décadas de trabalho intelectual de esquerda na cultura, na academia e no jornalismo, liberais e conservadores parecem querer virar o jogo apostando em “textão do Face” e “memes de internet”. Qual a chance de isso dar certo?
– Isso dará certo apenas com liberais “nutella”. Tem lá seu valor, sim, como estratégia de massa, mas não se forma um corpo de pessoas engajadas com algo através dessas ferramentas de diversão ou difamação da rede. Não acho que tenha fôlego. O mundo contemporâneo descobriu que os idiotas são maioria e, portanto, quando se quer “dizer” alguma coisa, sempre se cai na tentação da idiotia como método.

– Os liberais seriam os novos trotskystas? Quer dizer, radicais, cindidos em inúmeras facções e mergulhados em eternas e abstrusas disputas internas sobre quem é verdadeiramente liberal?
– Sem dúvida. Risco eterno de mentes pequenas, obcecadas pela busca da identidade pura. Liberdade não é um indivisível abstrato que define quem mais a defende. Com essa balcanização entre os liberais, quem vence é a esquerda no plano político. E Agostinho no plano filosófico: a vaidade é o maior de todos os pecados. Acho um tanto ridículo esse bate-boca pra ver quem é mais liberal. Trotskystas com Facebook. Não chega nem mesmo a ser um tópico político filosófico fundante de uma visão de mundo. É apenas uma querela entre neuróticos ou lobos magros em busca da pouca carne, digo, público, que têm.

Luiz_Felipe_Pondé

Luiz Felipe Pondé

– Em 2016 as eleições democráticas trouxeram resultados surpreendentes, como o Brexit, a eleição de Trump e a derrota do “Sí” no acordo de Paz da Colômbia. Seria essa uma demonstração do declínio da democracia como poder decisório?
– Não acredito, só a folk theory pensa que a democracia seja um regime racional fundado no acúmulo de racionalidade por parte das pessoas. A democracia é em grande parte randômica. Sem dúvida é indício do fim da Era Fukuyama, que acreditava que o futuro seria um shopping feliz de pessoas saudáveis, racionais e tolerantes.

– Vemos uma onda crescente de nacionalismo mundo afora, com o crescimento da candidata de direita, Marine Le Pen, na França; a eleição de Trump com seu slogan “Make America great again”; o resultado a favor da saída do Reino Unido da União Europeia. Existe um ressurgimento do sentimento nacionalista? Há espaço no Brasil para um movimento semelhante?
– Creio que não. Acho que falta ao Brasil a tara da Europa. Para ser um fascista há que ser maníaco e somos pouco maníacos nesse sentido. O holocausto jamais aconteceria aqui, teríamos preguiça. Podemos eleger alguém com marketing de ser “diferente”, mas não um nerd nacionalista.

– O Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, tem uma cultura de vitimização e dependência do Estado. Quais são os fatores fundamentais que diferenciam os dois países e suas culturas?
– Os EUA são (ou “eram”) uma nação corajosa na qual a autonomia no trabalho é vista como virtude. Nós, infelizmente, somos uma nação que cultiva a dependência. Preferimos perder com alguma segurança do que correr o risco de ganhar mais. A mentalidade liberal protestante aqui não deitou raízes. Ao contrário, deitou raízes a mente cartorial católica.