A historiografia na era da informação

A historiografia na era da informação

Como a ciência dos dados está transformando a historiografia?

Estado da Arte

12 Julho 2018 | 16h52

Figura de distâncias a partir de Roma durante o verão usando o site, citado no texto, ORBIS: The Stanford Geospatial Network Model of the Roman World.

por Felipe Pait

No artigo “Regressão, classificação, e aprendizado por máquina”, falamos de algumas técnicas fundamentais para a interpretação de dados através da estatística. Hoje, com bilhões de dados obtidos por computadores entramos no mundo do “big data”, que exige técnicas semelhantes, porém mais poderosas. Mas, antes de discutir o chamado aprendizado por máquina, vamos lembrar que em muitos áreas de estudo a dificuldade é justamente na obtenção de dados para correlacionar, classificar, e interpretar. Vamos considerar 3 exemplos: a Grécia antiga, o Império Romano, e o Brasil colonial.

A historiografia tradicional sobre a Grécia antiga se baseia nas narrativas da época, especialmente atenienses, ou lança mão de classificações esquemáticas sobre modos de produção. Segundo ela, as massas de escravos e camponeses pobres sustentavam filósofos, oradores, e generais, cujas repetidas guerras terminam por destruir a liberdade das cidades-estado. Não é completamente falsa, mas a Grécia com seus governos descentralizados tinha sociedades urbanas e economia comercial, de um tipo que reaparece na Itália renascentista e na Holanda no século XVII. O livro The Rise and Fall of Classical Greece, do professor Josiah Ober, da Universidade Stanford, observa que foi uma sociedade próspera para os padrões pré-industriais, mesmo tendo regimes escravistas com participação popular limitada: a própria Grécia só alcança o pico clássico de população e renda no século XX. Uma análise difícil de fazer estudando apenas os textos, possibilitada pela agregação de informações e dados.

Os textos clássicos narram a guerra do Peloponeso e o fim da hegemonia ateniense, sugerindo a decadência de uma civilização que na verdade continua após o século de Péricles e se expande durante o período helenístico. O recente levantamento “An Inventory of Archaic and Classical Poleis”, de Mogens Hansen e Thomas Nielsen, da Universidade de Copenhagen, no qual o livro de Ober se baseia, agrupa informações sobre mais de mil cidades. A agregação da informação mostra que a peculiar mistura de competição e cooperação entre cada polis grega cria inovações técnicas, comerciais, militares, e de governança, conduzindo a uma prosperidade duradoura para os padrões da época, que não fica limitada às cidades melhor documentadas. O estudo da história antiga pode ser feito com relativa abundância de dados, acessíveis até para o historiador que não domina as línguas clássicas.

Já a história do Império Romano era contada como uma série de guerras de expansão, seguidas do declínio e queda. A população desempregada da cidade seria sustentada pela distribuição de trigo produzido nas províncias conquistadas pelas legiões imperiais. Mas o destacado economista Peter Temin, do MIT, sustenta em The Roman Market Economy que o mundo romano utilizava sofisticadas práticas econômicas que não podem ser rotuladas como um modo de produção arcaico. O livro usa as ferramentas da economia e estatística para mostrar que comércio e mercados foram cruciais para a prosperidade da Roma antiga. Sim, era um império escravagista. Mas seu padrão de renda foi semelhante ao da Europa antes da revolução industrial. A metodologia, com tratamento estatístico de preços, tanto de mercadorias como do trabalho, consegue superar as limitações da escassez de dados, mostrando que as trocas não se faziam em termos fixados pelo dirigismo imperial.

O argumento de Temin pode ser entendido considerando as técnicas de regressão do nosso artigo anterior. Simplificando bastante: os preços do trigo e outras mercadorias no Mediterrâneo estavam correlacionados entre si, variando conjuntamente em tempos de abundância e escassez, e entre si de acordo com o custo de transporte para o maior mercado consumidor, a própria Roma. A hipótese de que os preços eram fixos ou então determinados pelo dirigismo imperial é estatisticamente inverossímil, sobrando como explicação mais razoável a que descreve o império como uma economia de mercado.

O livro de Temin, talvez um pouco controverso entre historiadores, também faz comparações entre a escravidão antiga romana e a moderna nos Estados Unidos e no Brasil. Essa instituição, sempre opressiva, se apresenta com diferentes graus de coação e de violência nas diversas sociedades que a adotam. Mesmo escravizado o ser humano possui autonomia, e pode ser persuadido a trabalhar, seja por ameaças de castigos, seja pela recompensa da liberdade, que era comum em Roma, ocasional no Brasil urbano, e raríssima na América do Norte.

Outros aspectos quantitativos do comércio imperial podem ser visualizados no “ORBIS: The Stanford Geospatial Network Model of the Roman World” através do site http://orbis.stanford.edu. Lá aprendemos, por exemplo, que no auge do império uma viagem entre Alexandria e Roma no outono durava 2 semanas, ficando o custo do transporte de 1 kg de trigo em 2 denários (o denário era uma moeda de prata de aproximadamente 4g, mais ou menos o peso de meia pataca ou 160 réis do nosso período imperial). Para comparação, um artesão em Roma recebia 12 sestércios, no total equivalentes a 3 denários, por dia de trabalho. No Mediterrâneo o comércio era mais rápido do que o correio e a alfândega brasileira nos permitem hoje! Já o comércio pesado atlântico ou transalpino era proibitivo – e no inverno uma legião romana poderia demorar mais de um mês para chegar em Londinium ou na Colônia Agripina, nos limites do Império, o que ajuda a entender o contexto das invasões bárbaras.

E no Brasil? Qual a realidade que se oculta ao som do mar e à luz do céu profundo?

Os portugueses apenas se interessaram pelas regiões costeiras. Somente com a descoberta do ouro os olhares inquisitivos da Coroa se voltam ao interior, e mesmo assim não enxergam muito mais do que os minerais preciosos. Informações escritas sobre o Brasil colonial estão espalhadas nos documentos das câmaras de vereadores das vilas do interior, que mantiveram eleições e sistemas de governo com uma boa dose de legitimidade durante todo o período. Especificamente sobre São Paulo, confira A Capital da Solidão, do jornalista Roberto Pompeu de Toledo. Até recentemente, essas informações não eram de fácil consulta. Por causa da proibição da imprensa e da escassez de documentação escrita durante o período colonial, por muito tempo consideramos que o interior do Brasil tinha uma “economia de subsistência” primitiva, que sustentava os poucos habitantes no nível da fome.

Conforme lemos na História da Riqueza no Brasil de Jorge Caldeira, entrevistado aqui no Estado da Arte em 6 de abril, a agregação de dados obtidos em pesquisas multidisciplinares mostra que não é bem assim. Já a partir dos primórdios da época colonial o Brasil formava uma unidade, construída a partir de uma aliança entre leis portuguesas e práticas indígenas, especialmente dos povos tupis, e também com a forte influência africana. A economia brasileira, que não se resume ao comércio colonial, supera a da metrópole, e talvez até se compare à economia dos Estados Unidos na época de sua independência – com as ressalvas de que a colônia portuguesa já era uma nação de dimensões continentais, e que sua acumulação de capital humano e intelectual era restrita pelas deficiências de educação e pela censura à imprensa.

Os historiadores hoje conseguem combinar informações de vários tipos e tratar a largura que a terra do Brasil tem para o sertão, sem contentar-se em andar arranhando ao longo do mar como caranguejos. Ainda há muitas questões a perguntar e a responder sobre nossa história, usando a estatística clássica e as ferramentas não-lineares, às quais voltaremos mais tarde. Talvez seja apropriado concluir com a frase de Colin McEvedy na introdução de uma das primeiras edições de The Penguin Atlas of Ancient History: “A história sendo um ramo das ciências biológicas, sua expressão última será matemática”. 

Felipe Pait é professor no Laboratório de Automação & Controle da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Estudou engenharia elétrica na USP e na Universidade Yale.