A expansão do centro entre os estabelecidos e os outsiders

A expansão do centro entre os estabelecidos e os outsiders

Quando os antigos centros urbanos e sócio-culturais não mais se sobrepõem às periferias, a solução não está no seu inverso, as periferias se sobrepondo aos centros, mas sim na interpenetração mútua.

Estado da Arte

30 Julho 2018 | 19h00

por Vinícius Müller

Em seu primeiro e pouco conhecido livro, Os Estabelecidos e os Outsiders (Jorge Zahar Editor, 2000), o sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) nos revela, a partir da trajetória da pequena cidade britânica de Winston Parva (nome fictício dado pelos autores), os modos exemplares como variadas camadas históricas podem se encaixar e, ao mesmo tempo, se misturar. Elias e seu colega de trabalho, John Scotson, descrevem ao menos três diferentes ocupações que se sucederam ao longo da história local, de modo que teríamos, quase de forma concêntrica, uma cidade com três regiões determinadas: a mais antiga e central, ocupada por famílias tradicionais que representavam a elite local; uma segunda, intermediária, oriunda da ocupação por migrantes que se instalaram como mão de obra das indústrias que por lá se desenvolveram, e; uma terceira, mais periférica e recente, também resultado da chegada de mão de obra voltada à segunda fase de industrialização ocorrida na cidade.

Conforme sugere o título do livro, os moradores da região central de Winston Parva, membros de famílias que por lá se instalaram em tempos mais distantes, são os “estabelecidos”. Ou seja, aqueles que se percebiam e se comportavam como os representantes dos valores e dos costumes que definiriam o que seria o certo, o justo e o desejável na comunidade. Já os “outsiders”, distribuídos entre os moradores das outras duas regiões, representariam, aos olhos dos estabelecidos, as ameaças aos valores que sustentavam aquela sociedade. Mais significativo, contudo, é o modo como os grupos, mesmo envolvidos pela tática defensiva de caracterizar pejorativamente os outros, assumiam muitas vezes como autoimagem aquilo que outro grupo lhes atribuía. Por exemplo, os habitantes da região mais periférica, os trabalhadores da indústria, muitas vezes se enxergavam com características que, na verdade, lhes foram atribuídas pelos moradores da área central, a saber, como preguiçosos e pouco higiênicos. Ou seja, os grupos de moradores, definidos por critérios objetivos como sua localização, tipo de trabalho e tempo em que estavam na cidade, também eram definidos não só pelos seus próprios valores, costumes e tradições, mas principalmente por aqueles que lhes eram atribuídos pelos outros grupos.

A partir da identificação do problema, o mesmo Elias se debruçou sobre como ele se desenvolveu ao longo do tempo. O que talvez não se tenha levado em conta foi a diluição de certas hierarquias – e a criação de outras – que de algum modo equilibrou esta disputa. Ou seja, a combinação entre desenvolvimento econômico, tecnologia e avanço dos direitos fez com que a ‘vantagem’ que os habitantes das áreas centrais gozavam em relação aos moradores periféricos diminuísse. Se antes era mais fácil para o grupo mais antigo determinar que os seus valores e tradições eram aqueles que davam coesão à sociedade e, por oposição, atribuir aos membros dos outros grupos características contrárias, a História nos mostra que tamanha facilidade não existe mais. Ao contrário, há um maior equilíbrio entre a capacidade que os grupos centrais têm em atribuir aos outros características falsas e pejorativas, e a capacidade que os grupos periféricos têm em fazer o mesmo – aquilo que Moses Naim chama de o ‘Fim do Poder’ –, e, além disso, de fazer com que aquilo que dizem sobre o outros, mesmo que falso, seja incorporado pela ‘vítima’.

Se por um lado esse maior equilíbrio dissolveu certa hierarquia social e ampliou o poder dos grupos periféricos, por outro não arrefeceu as disputas. Apenas as tornou mais equilibradas. E, se as disputas envolviam o uso de ‘fake news’ voltadas à desmoralização do outro grupo, elas tampouco diminuíram ao longo da História. Ao contrário, ficaram cada vez mais agressivas. Em outras palavras, se a cidade cresceu de modo a aproximar geograficamente os grupos centrais e os periféricos, a melhoria da convivência entre eles não está no simples reconhecimento de que, ao contrário do que acontecia antes, não só um dos grupos e sim todos têm o direito de atribuir ao outro características falsas, mas na capacidade de criar cooperação entre eles. Isso significa, ainda na metáfora urbanística, expandir o centro. A cidade pode facilitar os encontros entre o centro e a periferia por meio de vias que os aproximem; pode fazer com que tais vias sejam entrecortadas por praças que estimulem a convivência entre eles no meio do caminho. Mas, fundamentalmente, deve proteger certos mínimos morais que serão construídos no encontro entre os grupos cujos poderes se equilibram. Pode-se fazer isso a partir de uma referência histórica, a partir de um valor minimamente consensual, ou, na pior das hipóteses, pela Lei.

A expansão do centro, portanto, não se dá pelo equilíbrio entre forças voltadas à disputa, e sim pelo reconhecimento de que quando o antigo centro não mais se sobrepõe à periferia (e isso é desejável), a solução não está no seu inverso: a periferia se sobrepondo ao centro. Está, sim, no alargamento do centro até o ponto em que as diferenças anteriores não sejam mais relevantes. Nesse caso, não sabemos ao certo se o centro é que se expandiu em direção à periferia – ou se, ao contrário, a periferia penetrou o centro. Em outras palavras: quem é o estabelecido e quem é o outsider? Quando não sabemos mais a resposta, significa que funcionou. A isto podemos chamar de processo civilizador.

Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.