A educação pelo assombro: uma conversa com Catherine L’Ecuyer

A educação pelo assombro: uma conversa com Catherine L’Ecuyer

Em entrevista exclusiva, a educadora canadense afirma: "Quando educamos, transmitimos quem somos. Não são os métodos e os dispositivos que educam, mas as pessoas que estão com a criança no dia a dia".

Estado da Arte

11 Dezembro 2017 | 19h19

Por Hugo Langone, especial para o Estado da Arte

 

Os méritos de Catherine L’Ecuyer não se conquistam facilmente nos tempos que correm: além de fazer um livro sobre educação chegar à 21ª edição, fê-lo não somente sem prometer fórmulas fantásticas e de resultados imediatos, mas sobretudo associando o rigor da literatura neuropediátrica atual a expressões centenárias e consolidadas do pensamento filosófico, literário e pedagógico. Desse modo, em seu Educar en el asombro (no Brasil, Educar na curiosidade, pela editora Fons Sapientiae), Catherine contrapõe os superestímulos aos quais são submetidas as crianças de hoje a conceitos como o de beleza, mistério e liberdade interior.  Trata-se, no final das contas, de um necessário retorno ao bom senso, à postura de respeito pela natureza e ritmos dos filhos – e, precisamente por isso, um retorno acessível a qualquer pai, mãe ou professor.

Por ocasião de sua vinda a São Paulo, onde em 13 de dezembro falará no 3º Seminário Internacional de Educação Integral , Catherine L’Ecuyer pôde conversar com o poeta e editor Hugo Langone, que mais uma vez colabora com o Estado da Arte.

 Até cerca de setenta anos atrás, educavam-se muito bem os filhos sem a televisão. Hoje, quando as telas são onipresentes, qualquer referência a uma educação sem TV, celulares e tablets suscita reações que parecem, antes, esconder certo comodismo dos pais sob o rótulo da temperança e da moderação: “Ah, mas só um pouco não faz mal!”, “Minha mãe me deixava diante da TV e hoje estou bem!”, “Sabendo usar, não há problema!”. O quão válido é esse discurso? E mais: haveria um só fator a explicar essa aversão ao sacrifício que faz com que a televisão seja mais um recurso para os pais do que para os filhos?

Todos temos direito a nossas opiniões, mas não a nossos fatos. Meu livro não faz juízo nenhum, nem define normas a serem seguidas pelos pais. Tudo o que faço é detalhar o que diz a literatura neuropediátrica acerca do efeito das telas sobre a infância. Também ofereço chaves de leitura para compreendê-la. Desse modo, os pais devem tomar decisões livres e assumi-las, pois são os primeiros educadores de seus filhos. É preciso saber que, hoje, as principais associações pediátricas do mundo insistem em que as crianças com menos de dois anos não devem ser expostas a tela nenhuma e que aquelas entre dois e cinco não devem ser expostas por mais de uma hora ao dia. Não se trata de uma questão educativa, mas de uma questão de saúde pública, que diz respeito à saúde neurológica de nossos filhos, dado que a exposição às telas nessa faixa etária está associada, segundo estudos, à falta de atenção, à impulsividade, ao déficit de aprendizagem, à diminuição do vocabulário etc. O que ocorre é que há muitos mitos tecnológicos por aí, crenças em que as telas favorecem o aprendizado. A Associação Canadense de Pediatria declarou formalmente em 2017: “Não há estudo que respalde a introdução da tecnologia na infância.” Creio que não se possa ser mais claro.

O espanto como motor do conhecimento é a ideia fundamental de seu primeiro livro. De certa forma, porém, trata-se de uma ideia um tanto quanto antiga. Encontramo-la em Platão, em Tomás de Aquino, bem como em outros. No plano da educação dos filhos, é fácil ver como esse elemento propulsor funciona quando eles são verdadeiramente pequenos, de dois, três, quatro anos: tudo o que é, tudo o que existe, os desconcerta simplesmente porque existe e poderia não existir. Tudo é mágico. E, como essa capacidade de assombrar-se é inata, não precisamos criar estímulos excepcionais para que os filhos se desenvolvam, bastando somente os elementos que um ambiente familiar normal já possui. Essa capacidade de assombrar-se permanece igual ao longo dos anos? Nos adultos, não parece adormecer-se naturalmente, perdurando apenas, talvez, nos poetas e artistas, por alguma inclinação especial? 

Sim, minha teoria se apoia em ideias centenárias. Gaudí dizia que ser original é voltar às origens. A capacidade de assombro é inata, mas corremos o risco de perdê-la quando não respeitamos o que pede nossa natureza, quando vivemos segundo ritmos que não se adequam a nossos ritmos internos, quando não há espaços, tempos e silêncios que permitam saborear a lentidão da beleza da realidade. Creio que a perda do assombro pode ocorrer tanto nas crianças quanto nos adultos, e também que há adultos tão assombrados quanto as crianças pequenas, uma vez que souberam conservar essa abertura para a realidade, essa atitude de descobrimento sem filtro, sem preconceito. Ou, ainda, porque conseguiram recuperá-la, o que costuma acontecer quando reduzimos o ritmo vital, em geral na velhice. Depois das crianças, os mais assombrados são os mais velhos.

 

O fato de o assombro ser uma capacidade inata coloca as crianças no centro do processo de aprendizado. Elas ditam o ritmo, e o estabelecimento de marcos externos se tornaria, segundo seu livro, algo não tão decisivo como pensamos. Em alguns casos, chegaria a ser irrelevante ou prejudicial ao desenvolvimento infantil. Ao mesmo tempo, a aquisição de certas virtudes exige a moderação das inclinações naturais. Para uma criança ser generosa, deve aprender a deixar de lado seu egoísmo e emprestar um objeto; para ter temperança, deve aprender a não comer mais do que o conveniente – e assim por diante. Esses não seriam marcos externos?

Os últimos estudos na área da neurociência confirmam que os pequenos não dependem exclusivamente dos estímulos externos para aprender. De fato, o “mito do enriquecimento”, interpretação equivocada da literatura neurocientífica, baseia-se na falsa crença de que há períodos críticos durante os quais temos de superestimular as crianças, e não expô-las a uma grande quantidade de estímulos durante esse período resultaria em “oportunidades perdidas para sempre”. As coisas simplesmente não são assim. A criança pode aprender em um ambiente normal. Não precisamos ficar obcecados por enriquecer o ambiente, convertendo-nos em recreadores atarefados ou animadores de festa infantil.

Dito isso, os limites são importantes, e procurar que a criança descubra as coisas por si só, sem bombardeá-la com estímulos contínuos, não significa que se está deixando de “educá-la”. Creio que Maria Montessori acertou em cheio ao dizer que “nossos filhos não fazem tudo o que querem, mas querem fazer tudo o que fazem”. Tratar o hábito ou a virtude como resultado de um estímulo externo é equivocado. Bombardear as crianças repetidamente com palavras de ordem e proibições não fará com que fiquem mais dispostas à virtude. A virtude é um hábito livre em direção ao verdadeiro, ao bom e ao belo. Temos de nos afastar das motivações externas que adestram e ajudar as crianças a agirem segundo uma motivação interior. Se a criança sabe reconhecer o bom, o verdadeiro e o belo, educar sempre será mais fácil. Por isso Platão dizia que “educar é ajudar a querer o belo”.

Onde está o equilíbrio entre a liberdade da criança e a imposição dos limites que lhe serão positivos? 

Os limites fazem parte do “ambiente preparado”, para usarmos a expressão de Montessori. De certo modo, são “as regras do jogo”. Não constituem motivação externa quando são conhecidas a priori, quando se compreende seu sentido e quando se convive bem com elas. O silêncio ao ouvir música clássica, por exemplo. Suponhamos que uma criança viva o ritual, na companhia de um adulto que lhe é querido, de desfrutar de música clássica em silêncio. Nesse caso, o silêncio não é visto como imposição, mas como algo necessário para que se possa apreciar a música.

As crianças precisam de limites para poderem se adaptar ao mundo em que lhes caberá viver. O mundo está cheio de limites: uma gravidez dura nove meses, as alfaces crescem lentamente… Temos de prepará-las para a vida ajudando-as a aceitar as limitações com paciência e temperança, e temos de ajudá-las também a ganhar resistência à frustração. Uma criança que não ganha tudo o que pede é alguém que valoriza as coisas, é alguém assombrado, agradecido. Hoje as crianças estão cada vez menos adaptadas à realidade, pois vivem num mundo cada vez mais virtual – rápido, acelerado – e acham que as coisas devem se comportar como elas querem. Quando, então, voltam à realidade, tudo as aborrece…

O excesso de estímulos a que as crianças são hoje submetidas é, nas suas palavras, o principal inimigo do desenvolvimento dos pequenos, uma vez que retira deles a capacidade de assombrar-se. As crianças ficam anestesiadas e necessitam de estímulos cada vez maiores. Por isso a impressão de que há mais e mais meninos que não conseguem se concentrar, ou que não sabem lidar com o ócio, ou que procuram sensações as mais intensas… Mas esse é apenas um dos fatores o mais comentado, é verdade a inibirem o assombro. O pouco acesso à beleza não é tão mencionado por aí, mas em seu livro, sim. O belo convida ao conhecimento, ele atrai, ele espanta. Ao mesmo tempo, as cidades grandes são cada vez mais feias, os apartamentos não possibilitam o contato com as belezas da natureza, os filmes e músicas são barulhentos, a arquitetura não é harmônica… Há alguma palavra de alento?

Tomás de Aquino dizia que “há beleza em todas as coisas”. Desse modo, há beleza na cidade também. Não devemos cair na tentação de reduzir o conceito de beleza a tudo aquilo que se encontra em seu “estado primitivo”, como faria, por exemplo, Rousseau. Há filmes belos, há arquiteturas belas. A beleza não se encontra somente nos museus, nos teatros ou nas óperas, pois não se trata apenas de um tema artístico. Diziam os gregos que a beleza é “a expressão visível da verdade e da bondade”. Vemos, assim, que a beleza é um conceito muito amplo.  Diante disso, o que seria belo para uma criança? Tudo, pois, o que respeita a verdade e a bondade do que sua natureza exige. O que respeita seus ritmos, as etapas de sua infância, sua sede de mistério, sua necessidade de silêncio… O que ocorre é que a quantidade de beleza nas coisas não é igual. Elas possuem mais ou menos beleza, a depender do quanto respeitam o que pede a natureza da criança. Assim, o medidor da beleza por excelência é o cuidador sensível. A sensibilidade é essa pele fina que nos permite intuir o que a criança necessita e preparar o ambiente para que ele se adeque a essas necessidades.

Diz seu Educar en el asombro, logo no princípio, que na primeira infância é mais importante o ambiente de segurança criado pelos pais ou cuidadores do que a preocupação com a quantidade e qualidade de estímulos exteriores. É possível cultivar um ambiente adequado nas escolas de hoje, quando a indústria da educação infantil está sempre pronta a propagandear o uso de novidades tecnológicas e de métodos “inovadores”, que prometem mundos e fundos para inculcar não sei quantas habilidades?

A educação não é verdadeira por ser inovadora. É inovadora porque é verdadeira. E é verdadeira porque responde ao que as crianças necessitam. Uma vez que elas não precisam de tecnologia na fase infantil (a tecnologia chega a prejudicá-las), seria um erro falar em inovação. Dizem os estudos que, na primeira infância, os pequenos necessitam de um vínculo de apego seguro com seu principal cuidador, e não de um bombardeio contínuo de estímulos sensoriais.

Em vista disso, mais conveniente não seria o retorno ao modelo tradicional da dona de casa que tem os filhos sob seu olhar? No Brasil, algumas famílias têm optado pela educação domiciliar precisamente por essa razão…

Não me cabe promover de modo específico nenhum modelo tradicional, pois os estudos dizem que o principal cuidador pode ser tanto o pai quanto a mãe. Com efeito, pode tratar-se mesmo de uma avó ou de uma outra cuidadora sensível. O importante é que a criança possua uma referência estável, um olhar atento a suas necessidades, durante seus dois primeiros anos de vida.

A senhora, partindo de observações muito empíricas e imediatas, recorda ao leitor que os ritmos da criança são muito diferentes dos nossos. Elas, de certa forma, só possuem o presente: não lhes preocupa o futuro, não remoem o passado, não vivem num mundo do “oxalá”. Nesse caso, parece que somos nós que devemos aprender com os pequeninos: esse viver o presente, os deveres do momento, possui repercussões físicas, psicológicas, sociais e espirituais muito positivas… e cada vez mais raras. Não chegaríamos, com isso, à raiz desta “incapacidade educativa” dos pais de hoje?

Quando educamos, transmitimos quem somos. Não são os métodos e os dispositivos que educam, mas as pessoas que estão com a criança no dia a dia – e elas o fazem quando menos se espera. Dizia Rachel Carson: “As crianças se assombram na companhia de um adulto que se assombra com elas.” Pai assombrado, filho assombrado. Pai cínico, filho cínico. Por isso, educar é uma tarefa árdua. No final das contas, acabamos nos encontrando com nós mesmos, com nossos próprios fantasmas.

Com a difusão de sua teoria e seu livro, que já teve numerosas edições na Espanha, é de se esperar que sejam submetidos ao rigor dos pesquisadores acadêmicos e aos métodos científicos. Passados alguns anos, a senhora teria hoje algo a acrescentar, modificar ou suprimir da obra?

O que gostaria de revisar no livro é a noção de fantasia. Desde sua publicação, li muitas coisas de Maria Montessori e começo a questionar minha postura sobre o papel da fantasia na infância. Montessori insistia na importância de rodear as crianças da realidade e dos mistérios verdadeiros (não aqueles inventados pelos adultos), deixando a fantasia para a etapa posterior aos seis anos, quando os pequenos já são capazes de distinguir o real do fantasioso. Sinto-me cada vez mais atraída pela proposta de Montessori, e é possível que haja algumas mudanças nesse sentido. No que diz respeito aos outros temas, o livro já chegou à 21ª edição e não recebi, até aqui, qualquer crítica por parte de acadêmicos, já que minhas ideias se fundamentam na literatura acadêmica das áreas de psicologia, neuropediatria, educação e filosofia. É difícil discordar nesse âmbito científico. Para completar, em 2014, a Frontiers in Human Neuroscience, revista suíça indexada, publicou um artigo sobre a educação no assombro em que a reconhecia como hipótese/teoria educativa.

Os três temas finais de Educar en el asombro – a beleza, o culto à feiura e a cultura – parecem ser o ponto alto de uma subida lenta. É como se toda a obra se encaminhasse até ali. Ao mesmo tempo, esses capítulos assumem um pouco o caráter de uma crítica cultural. Nesse caso, o problema da educação dos filhos nos dias de hoje parece pedir a atuação não apenas de pais e pedagogos, mas também artistas e sociólogos, publicitários, políticos, profissionais de mídia… A lista seria enorme. Ao mesmo tempo, é com os pais (e cuidadores) que as crianças têm contato direto e de qualidade no dia a dia. Como não resvalar no exagero ao tratar da influência, sobre a criança, da cultura e do ambiente exterior ao lar e à escola?

“Educa toda a tribo”, diz o provérbio. Frases como “Só um pouco não faz mal”, “É tudo questão de equilíbrio” ou “Não há problema, o que importa é a intenção” não são muito educativas, pois na educação não há nada que seja neutro. De fato, se algo não convém à criança, é melhor que ela não o tenha, ainda que se trate de pequena quantidade e se possua a melhor intenção do mundo. O fato de os outros fazerem ou terem não é critério algum, pois as coisas não são boas, verdadeiras e belas porque um número grande de pessoas as julga assim. É importante questionarmos o que as crianças necessitam em cada momento, e isso nos é revelado pelos estudos em neurociência. Hoje, por exemplo, sabemos que o cérebro da criança foi feito para aprender segundo a chave da realidade. As crianças pequenas aprendem mais a partir do que lhes chega pelos cinco sentidos do que por meio de discursos, uma vez que ainda não desenvolveram a capacidade de abstração. Assim, o que chega aos pequenos mediante os sentidos deixa em suas almas uma marca que afeta seu senso de identidade por meio da memória biográfica. Como dizia o slogan da Dove: “Fale com sua filha sobre a beleza antes que a indústria da beleza fale com ela.”

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