“A banda está passando” – Entrevista com Ronaldo Bianchi

“A banda está passando” – Entrevista com Ronaldo Bianchi

Estado da Arte

02 de fevereiro de 2017 | 08h00

Consenso entre gestores e agentes culturais no Estado de São Paulo, a situação da música clássica mudou nos últimos dois anos. A sensação de retrocesso é para muitos sintoma de um desmonte deliberado: a Cultura, não sendo prioridade, parece ter saído do planejamento de médio e longo prazo das ações de governo. Na tentativa de compreensão do atual cenário, o Estado da Arte entrevistou o professor Ronaldo Bianchi.

Formado em Administração Pública pela FGV, com MBA Executivo Internacional pela FIA-USP, Bianchi é Mestre em Administração pela PUC-SP e atualmente é Diretor da Bianchi & Associados. Foi membro do Conselho Estadual da Cultura e Presidente da Comissão de acompanhamento dos contratos das Organizações Sociais (OS’s) entre 2002 e 2006, além de Secretário Estadual Adjunto de Cultura entre 2007 e 2010, nas gestões Sayad e Matarazzo.

Após promoverem uma rebelião contra o Maestro, os músicos do filme

Após promoverem uma rebelião contra o Maestro, os músicos do filme Ensaio de Orquestra de Federico Fellini terminam tocando em ruínas.

Estamos aparentemente em um momento de voo cego. O público, os artistas e diversos gestores da área se veem punidos a despeito dos resultados aparentemente satisfatórios da produção cultural dos últimos anos. O que você acha que o Governo está fazendo?

Em situação de crise, os governos e em particular o do Estado de São Paulo precisa definir: (1) O que quer manter como equipamentos públicos e atividades de sua inteira responsabilidade? (2) Onde atuará como incentivador? (3) Quanto está disposto a investir na área e em quais expressões? (4) Se o modelo de OS atende ou não as suas expectativas, e se não, como será reformulado? e (5) Quais a metas que pretende alcançar e em quanto tempo?

Sem estas definições básicas, não atenderá o seu propósito e nem fará com que seja compreendido. Ao contrário, acaba por estabelecer este equivocado cabo de guerra onde de um lado estão as forças corporativas e do outro os defensores do caixa. O que fica de fora são os interesses ou as necessidades da população.

Você pode dar exemplos concretos?

Todas as expressões culturais são atingidas. Na formação, acompanhamos a redução da oferta de vagas de ensino dos projetos Guri da capital e do interior. É o mais extenso e importante programa de ensino musical de massa do Brasil e a única oportunidade para população pobre de entrar em contato com a formação musical clássica. É isto que se quer? Pobre sem oportunidade? Não creio. Outro ponto: os conservatórios e o ensino universitário de música do Estado deveriam focar na qualidade e não na quantidade. É o que ocorre? As entidades que administram os conservatórios e o ensino universitário deveriam comunicar a qualidade de sua função. Cabe ao governo estabelecer estes parâmetros de qualidade e os indicadores de desempenho.

A Banda está passando. Mas reduzir a discussão à importância ou não da Banda Sinfônica, por exemplo, é caminhar no plano corporativo. Isso reduz a discussão real e foge daquilo que é necessário. O que o Estado deve fazer? Onde e quando deve se fazer presente para o desenvolvimento das expressões culturais? O fato é que, da leitura à música, é necessário facilitar o acesso à vivência das expressões diversas para os que não têm acesso ou conhecimento. A formação de plateia, a capacitação de amadores e profissionais é o que educa os sentidos.

Ronaldo Bianchi

Ronaldo Bianchi: “O que não se pode fazer é sair amputando orçamentos sem critério, demolindo programas singulares, relevantes e eficientes.”

Certamente não é um problema apenas da música clássica.

Absolutamente não. Veja o segmento da Memória. O Museu Paulista está fechado desde 2012, com reabertura prevista para 2022. É o único museu em todo Estado que conta a história do Brasil. Suas coleções formaram milhões de estudantes e agora estão encarceradas nas reservas técnicas da entidade ou espalhadas pela USP. Ou se promove a rápida reforma ou estaremos descumprindo uma importante função pública.

Outro assunto é a drástica redução de recursos para os museus do Estado. Em três anos a redução pode chegar a 30% nominais. Não há alternativa? Algumas Organizações Sociais se acomodaram, outras não. Os bons exemplos de direção são o Catavento, o Museu da Imagem e do Som e a Pinacoteca do Estado.

Quanto ao Patrimônio Histórico dá-se a mesma coisa. O Conselho do Patrimônio precisa de diversidade de partidos técnicos, não de políticos. O atual sistema realiza a função? Não conheço suas metas, seu desempenho e nem se cumpre seus propósitos. Não há comunicação do que se faz e como se faz. O que sabemos é que dois prédios históricos e tombados foram incendiados, o Auditório Simón Bolívar do Memorial da América Latina e o Museu da Língua Portuguesa na Estação da Luz. Ninguém foi responsabilizado. Mais de R$100 milhões serão despendidos por negligência.

Após os recentes escândalos do Theatro Municipal, mais uma vez coloca-se em xeque a pertinência ou não das Organizações Sociais e as parcerias público-privadas.

Quando falamos de instituições que preveem corpos estáveis, necessariamente a melhor forma de administração é a do sistema OS. Não há a menor dúvida. Mas é preciso que ele seja monitorado. Fui presidente da Comissão de acompanhamento dos contratos das OS’s de 2003 a 2006, período de implantação do Sistema. Depois acompanhei de perto o desempenho das OS’s como secretário adjunto. Nesta época trocamos duas OS’s, e cinco diretores executivos. Porque seu desempenho era ruim.  Quantas foram trocadas nestes últimos 8 anos? Quantos diretores foram trocados a pedido da Secretaria por mau desempenho? As metas foram cumpridas? Depois atuei como Vice-Presidente da Fundação Padre Anchieta de 2010 a 2012 e como diretor executivo de uma OS, o Instituto Pensarte, de agosto de 2012 a abril de 2013. Em ambas a intervenção foi profunda. Alteramos os fundamentos da gestão operacional e adotamos novas práticas de governança. Desde então, ao que parece, o sistema se burocratizou, empregou normas mais rígidas que não se transformaram em melhores resultados.

Outra distorção e creio que importante foi nomear antigos dirigentes de OS’s imediatamente como secretários de Cultura sem um imprescindível período de quarentena ou distanciamento dos seus interesses imediatos e redes de relacionamentos.

De modo sintético, a seu ver, qual seria o melhor caminho?

A pergunta que devemos ter, todos entre nós preocupados com a economia da Cultura e o fortalecimento do papel da Secretaria, é: as Organizações Sociais, como operadoras contratadas para a gestão dos equipamentos e atividades do Estado, estão alcançando seus propósitos? Se a resposta for negativa, que se altere o que for preciso. Nessa hora, reduzir orçamentos pode ser uma necessidade. Mas o que não se pode fazer é sair amputando orçamentos sem critério, demolindo programas singulares, relevantes e eficientes. Os governos devem tratar a Cultura como investimento e não como uma unidade de despesa. Mas agem como se a Cultura não oferecesse retorno. Na formação artística é fundamental buscar a ampliação de plateia. Tratar a Cultura como sub-assunto é encaminhar o orçamento público para investir cada vez mais em presídios e tornozeleiras eletrônicas. É uma escolha entre a civilização e a barbárie.

Por Leandro Oliveira.

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