A América em cima do muro

A América em cima do muro

Estado da Arte

16 de novembro de 2016 | 11h30

por Gustavo Nogy

Um dos aspectos mais controversos da candidatura Trump (e agora, depois de vencer, de seu mandato) diz respeito à política de imigração. Tenham sido ou não descontextualizadas, suas falas provocaram a polêmica de costume, e polêmica é o nome que se dá a toda declaração que não agrada a nossa sensibilidade.

Seja o leitor mais afeito ao livre trânsito entre países, seja o leitor mais amigo de fronteiras fechadas, o fato é que no mundo em que nós vivemos e que poucas vezes se confunde com o mundo em que vivem os jornalistas, todos os países têm algum tipo de política de estrangeiros, de cuidado com suas fronteiras.

O muro de Donal Trump na fronteira com o México. Na verdade, é uma cerca. E foi erguida por Bill Clinton.

O muro de Donal Trump na fronteira com o México. Na verdade, é uma cerca. E foi erguida por Bill Clinton.

Eu gostaria de viver num mundo mais livre, certamente, mas infelizmente vivo no único que existe. E, verdade bastante desagradável, as nações cuidam dos seus interesses. Não se entra facilmente no Japão ou na Noruega. Não se aporta sem maiores explicações na China ou na Suécia. Em alguns países, o perigo é nem mesmo sair. Mais do que as barreiras para entrar, o que talvez indique a verdadeira natureza de um governo são os obstáculos para fugir.

Lembro-me de uma passagem de Hitch-22, autobiografia do incendiário Christopher Hitchens, em que ele conta de sua chegada a Cuba. Então esquerdista empedernido, desceu no aeroporto onde era esperado pela comitiva do governo de Castro. Os oficiais pediram seu passaporte. Ele entregou seu passaporte. Eles conferiram o passaporte. Fim. Não lhe devolveram o documento e lhe disseram, sem mais cerimônias, que ficaria apreendido até o término da estadia. Ali, naquele momento, percebeu que havia alguma coisa errada no sonho socialista.

Não bastasse essa singela evidência, há outra ainda mais importante: europeus e latino-americanos, africanos e asiáticos, todos têm uma séria relação de amor e ódio com os americanos do Norte. Uma espécie de bondage geopolítico que consiste em apanhar e gostar de apanhar, e reclamar se não apanha, e reclamar de mentirinha quando apanha. Noutras palavras: o resto do mundo odeia tudo o que se refere aos Estados Unidos – sua cultura, sua política, sua economia, sua massificação – mas quer desesperadamente que suas fronteiras estejam abertas como coração de mãe italiana.

Talvez o melhor exemplo disso tenha sido o finado embargo americano a Cuba. Se Cuba era então (e ainda é, sem a mesma força) o regime comunista que afrontava o capitalismo ianque, seus ditadores não deveriam se incomodar com a suspensão das relações comerciais com os EUA. Deveriam, ao contrário, comemorar o desacordo; deveriam, ao contrário, mostrar a força do seu regime.

Mas não. Enquanto o embargo representava a maldade americana, o poderio econômico e sua a influência, também. Se os americanos interferem, estão errados; se deixam de interferir, pior ainda. “Preso por ter cão e preso por não ter”.

Donald Trump, a seu modo nada razoável, atualizou o debate, e parece ter colocado na mesa todas as cartas de que dispunha, como se dissesse: “Vocês não gostam de nós? Então protegeremos nossos mercados e fecharemos nossas fronteiras.” Como não poderia deixar de ser, a imprensa internacional sentiu o golpe e o processo de racionalização começou.

Goste-se ou não do novo presidente dos Estados unidos (eu não gosto), a verdade é que o impasse existe, não pode ser ignorado e talvez seja este o momento certo para que todos apresentem suas armas, digo, seus argumentos. Se o imigrante não quer ficar em seu próprio país, se quer mesmo arriscar tudo para uma vida melhor na América, terá de admitir que, enfim, na América a vida é melhor que em seu próprio país – e entrar legalmente no país que o acolhe, aceitando suas regras já desde a chegada. Os intelectuais, por sua vez, não podem continuar a ignorar isso. Não podem continuar a ignorar o fato de que ignoram coisa demais para quem pretende formar opinião – e os resultados eleitorais não me deixam mentir.

Afinal de contas, o mundo real tem fronteiras, limites, pobreza, Miley Cyrus, embargos, terroristas e cultura de massa, e não é uma soporífera canção de John Lennon.

Gustavo Nogy é escritor.