Falando de Música – a pujança da música clássica

Falando de Música – a pujança da música clássica

Estado da Arte

26 Janeiro 2017 | 08h00

Por Leandro Oliveira

E o mundo musical não acabou em 2016. Era o que muitos de nós esperávamos, recebidos por um ano que deu palco, ainda no seus primeiros dias de boas-vindas, a morte de Pierre Boulez, Gilberto Mendes, David Bowie, e seguiu de coveiro eclético para Nikolaus Harnoncourt, Prince, Leonard Cohen, George Michael… mas paremos por aqui: o mundo não acabou.

O que não quer dizer que o ano que se lhe segue é de céu claro e natureza hospitaleira. Para além do silêncio horripilante do Theatro São Pedro, cujo concerto de ontem fez apenas tornar mais inquietante a falta de temporada oficial para o presente ano, e a aparentemente pouco auspiciosa assertiva do secretário de cultura do município sobre o que enxerga ser o papel do Theatro Municipal, o início de 2017 mostra que muitos dos agentes musicais foram colhidos em cheio pelo vendaval da crise econômica, e é claro que os parâmetros para o ano que se inicia são outros. São cortes e cortes, cortes e mais cortes e instituições tradicionais como o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a Orquestra Sinfônica Brasileira pedindo penico para pagar itens básicos como salários ou contas de manutenção.

A sala Pierre Boulez.

A sala Pierre Boulez.

O Brasil, neste sentido, voltou para a década de 1990. E, mais uma vez, a solução para além da passagem de chapéu interminável a qual todos nos acostumamos é – pasmem! – a criatividade. Fazer mais com menos, fazer melhor e de outro modo: o desafio que se impõe aos produtores e gestores de cultura neste ano é o de manter a qualidade, a força e a capacidade inventiva para seguir relevante e, eventualmente, com algum poder de encantar o público. Pois se algo eu aprendi nestes tantos anos de profissão é que, se realizando um trabalho maravilhoso é difícil sobreviver da arte, pior ainda será, então, se nos acostumarmos ao trabalho medíocre. E não há ilusão a respeito: o ambiente de penúria e reclamação é porta evidente para a mediocrização. O dever dos artistas guardados pelas grandes instituições é resistir antes de tudo a isso.

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Mas nem tudo é penúria. Fora do Brasil, o mundo clássico segue vendo e vendendo a si mesmo a partir de toda a pujança da economia que gera e, pois não, o poder simbólico que segue aglutinando. Neste sentido, vale chamar atenção para quatro projetos de novas salas de concerto. Dois deles já uma realidade nas cidades alemães de Berlim e Hamburgo; outros, iniciativas em estado adiantado de viabilização, em Londres e Varsóvia.

A Pierre Boulez Saal é, por assim dizer, a face pública da Academia Barenboim-Said – aninhada num prédio com cerca de vinte salas de ensaio, um auditório, uma biblioteca e escritórios que ocupam uma área de 6.500 metros quadrados de um prédio no centro cultural e histórico de Berlim. A cidade de Berlim mesma concedeu a Barenboim-Said Akademie um contrato de arrendamento de 99 anos para o edifício e o Governo Federal da Alemanha apoiou o empreendimento através da subscrição de custos de construção no valor de 20 milhões de euros e através da concessão de subsídios a seu orçamento operacional. O projeto acústico foi realizado por Yasuhisa Toyota e o projeto arquitetônico de Frank Gehry.

Prédio da Elb Philarmonie.

Prédio da Elb Philarmonie.

A Academia leva o nome de Daniel Barenboim e Edward Said. Enquanto o primeiro é um dos artistas clássicos mais importantes do século XX, que notoriamente já se posicionou com sofisticada sensibilidade sobre as qualidades humanísticas da música, Said notabilizou-se por conta de seu livro “Orientalismo”, uma peça acusatória a condenar praticamente toda a coleção de tentativas ocidentais de entender “o Oriente” – para ele, pouco mais que uma outra forma de imperialismo político. Com aparentemente pouco em comum, a relação de Barenboim e Said foi das mais férteis da música recente, e a Academia é certamente o fruto mais suculento desta árvore.

A Pierre Boulez Saal já anunciou sua temporada, a começar no dia 04 de março próximo – à ocasião com Schubert, Mozart, Alban Berg e os contemporâneos Jörg Widmann e Pierre Boulez. Ao longo do semestre, há concertos e recitais de nível insuspeito como aqueles de Radu Lupu, Christian Gerhaher, John MacLaughin, Andras Schiff, Martha Argerich, Pinchas Zukerman, e a liederabend da mezzo-soprano Magdalena Kozena acompanhada do maestro Sir Simon Rattle ao piano.

Em Londres, após anos de discussões, finalmente foi anunciado, no dia 12 de janeiro, a verba de dois milhões e meio de libras esterlinas para a conclusão do estudo de viabilidade financeira da novo complexo musical que deve ser construída no 140-150 London Wall – local onde atualmente é sediado o Museu de Londres. Os três parceiros do projeto são o Barbican Centre, a London Symphony Orchestra e a Guildhall School of Music. O projeto, ambicioso, pretende ser um “centro internacional para o século XXI que provenha o acesso à grande música para o mais amplo público possível”.

Em Hamburgo, a ElbPhiharmonie foi aberta com superfaturamento impressionante, mesmo para níveis brasileiros: orçada inicialmente em 77 milhões de Euros, a conta final chegou a impressionantes 860 milhões Euros. A sala de concertos é projeto do escritório suíço Herzog & de Meuron – de Jacques Herzog e Pierre de Meuron, ganhadores do prêmio Pritzker de 2001, e é belíssimo – comentam alguns que a ideia original teria sido aventada ainda na década de dez do século passado.

Sem qualquer demérito à qualidade artística dos espetáculos da ElbPhilarmonie, o fato é que o lançamento do novo conjunto acabou por tornar-se uma jogada de marketing sensacional para Hamburgo. Lançando holofotes a uma cidade que não figura entre as mais concorridas quando o assunto é música clássica, no dia 11 de janeiro, a comunidade internacional da música clássica virou seus olhos e ouvidos para a inauguração da casa – auspiciada pelo Google – realizado em transmissão direta  e com a marca impressionante de quase um milhão de visitantes.

Por último, mas não menos importante: Varsóvia. A cidade garantiu, a partir de um board de organizadores, a construção da Sinfonia Varsovia Centrum, cujo objetivo é criar um espaço de música para os residentes na região e seus visitantes. Inauguração para 2022. Crises econômicas à parte, o cenário musical global é promissor.

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, e anfitrião do projeto “Falando de Música” da Osesp. É doutorando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie.

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