Um estranho na tribo do festival

Estadão

09 de outubro de 2010 | 20h38

Por Pedro Antunes

Num festival de música, topar com todas as tribos é comum. São punks, metaleiros, alternativos e indies. Mas quando a palavra tribo é seguida de maneira literal, aí sim, a surpresa acontece.

Dentro da improvisada praça de alimentação do camping comum na Fazenda Maeda, onde acontece o festival, Ava Peteindju, de 33 anos, membro, segundo ele, da tribo Tupi Guarani chama mais a atenção do que qualquer cabelo de tingido de verde, em moicano, ou roupas de couro pretas.

De cocar, camisa azul e descalço, ele expõe seu artesanato. “As pessoas ficam olhando para mim. Não entendem o que um índio está fazendo aqui”, diz. “É engraçado, né?”

Seus colares de sementes, pulseiras, arcos e flechas ficam expostos num balcão improvisado com três mesas de plástico, ao lado do bar onde são vendidas as cervejas. “Não estou acostumado com esse público. Normalmente, nos finais de semana e feriados, só aparecem famílias”, explica.

O índio pouco conhece o set-list do festival. Bandas como Infectious Grove e Rage Against Machine, maior destaque da primeira noite de shows, são total desconhecidas. “De nome, conheço o Jota Quest e o Capital Inicial”, explica.

Há 10 anos, ele deixou sua tribo – de índios, não de roqueiros -, na Reserva Indígena de Araribá, a 42 km de Bauru. Zanzou por São Paulo e foi até o Mato Grosso do Sul, vendendo seu artesanato e divulgando a cultura indígena. Em 2008, veio trabalhar na Fazenda Maeda.

Hoje ele mora em Itu, com a mulher e três filhos. Durante o dia, ele expõe seu trabalho e, depois das 17h, vai ajudar no monitoramento do pesqueiro. À noite, ele é guia de passeios pelas matas nos arredores da fazenda.

Peteindju conta que chegou neste sábado às 9h. Até às 17h, ele vendeu dez colares, a R$ 30 reais cada. Já o kit com arco e flecha, de 1,75 m, não teve procura. “Ainda é o primeiro dia. Deve melhorar”, diz o talvez único membro legítimo de uma tribo que não quer saber de música em pleno SWU, ao se despedir.

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