Portadores de necessidades especiais falam da experiência no SWU

Estadão

13 de outubro de 2010 | 21h41

A Fazenda Maeda foi aprovada pelo organizador Eduardo Fischer e está cotada para ser o local do SWU do ano que vem. Só um porém…

Todo deslocamento nesse lugar exige uma boa caminhada por vias de terra ou brita (aquela pedrinha minúscula em lugar de asfalto). Se já é difícil para quem se locomove normalmente, imagine para quem possui necessidades especiais.

O Estadão coletou a opinião destes que sofrem com o local e mostra como eles fizeram para resolver os problemas. Um deles inclusive – o cadeirante Ricardo Maia – relatou trecho a trecho dos sacrifícios pelos quais passou. Veja só:

Ajuda de irmão
Irmão é aquele que te carrega até nas costas. Foi o que fez o advogado mineiro Tharcis Azevedo, de 26 anos, com sua irmã Vanessa nas costas, que está com a perna imobilizada há três meses, porque sofreu uma fratura e rompeu os ligamentos. “O problema é que as distâncias aqui são muito grandes. Não esperava por isso”, dizia ele

Ajuda do amigo
Mesmo sem carregar nas costas, é sempre possível ser ajudado por um amigo. O estudante de Administração Ricardo Maia, por exemplo, pode contar com o publicitário Fabiano Procópio, que o ajudou na locomoção até a área exclusiva de acessibilidade. Portador de paralisia desde o nascimento, Ricardo abandonou a muleta há cerca de um ano para ir a shows e outros eventos. “O problema é que tem muito bêbado que esbarra ou chuta a muleta. Aí pede desculpa e vai embora”, explicou. Para seu amigo Fabiano, os maiores problemas na hora de ajudar eram os lugares com pedrinha ou mesmo lama, que exigiam uma força extra. Por sorte, não choveu.

Na base da carona
Já o torneiro mecânico Luiz Gustavo Thomas, de 23 anos, valeu-se da boa vontade dos motoristas para conseguir carona. Ele disse que caiu de moto três vezes. Na terceira, ainda estava com a perna quebrada. “Não queria ir de ônibus para a fisioterapia, coloquei a muleta na garupa e fui de moto. Caí numa ladeira, véio.”

Sorte inesperada
O professor de educação Física, Vinicius Wilson, de 35 anos, foi ao SWU com um problema temporário. Ele tinha acabado de passar por uma cirurgia no ligamento cruzado anterior. Ficar de cama? Nem pensar.  Ele saiu de Belo Horizonte com seis amigos para ver o show do Rage Against the Machine. Na hora, disse que se separou deles para achar um lugar mais calmo. Aí viu uma galera entrando numa pequena plataforma mais alta.  “Quando o segurança veio expulsar as pessoas alegando que o local era para portadores de necessidades especiais, pensei: ‘Perfeito'”, conta o professor, que mostrou a faixa na perna e pode ver o show com mais tranquilidade, num lugar de boa visão do palco.

Área destinada a portadores de necessidades especiais foi invadida

Os sacrifícios por um show
(relato do cadeirante Ricardo Maia, 23 anos)

Rage Against the Machine. Comprei o ingresso de última hora. Na sexta, pela internet. Pensei que a sorte estava a meu lado. Não foi assim. Moro em Piracicaba e combinei com um amigo, Fabiano, e uma amiga, Denisse (sim, o nome dela é com dois ‘esses’), de ir ao show. Deixamos o carro em Itu e fomos de ônibus especial de lá. Pelo preço, deixar o carro no estacionamento do evento não valia a pena.

Como ia ficar longe, fui com uns 3 litros d´água, bolacha, chocolate, enfim, pronto para um dia inteiro fora. Chegamos às 14h. E na porta, o primeiro problema: os seguranças da entrada mandaram jogar toda comida e bebida fora. Um absurdo. No festival que diz reciclar o lixo, água e comida sendo jogados, literalmente, no lixo. O jeito era comer por lá. E aí, outra dificuldade. R$ 4 por uma água. R$ 6 por um refrigerante. R$ 10 por um cheeseburguer. R$ 20 por um almoço. Passar fome depois de ter jogado comida fora foi o primeiro sacrifício.

O segundo. Ficar numa área isolada, a mais de 200 metros de distância do palco. A visão era boa, mas por ser num palco superior, o vento começou a bater e o frio chegou logo. Eu tinha vindo de camiseta e bermuda, pelo calor durante a tarde. Onde estava o agasalho? Ficou no carro, lá em Itu.Você não faz idéia do frio que eu passei. Estava gelado, mas resisti finalmente até o show do RATM. Pela aglomeração no lado de fora da área para portadores de necessidade, eu jamais conseguiria ficar no lado de baixo. Não veria show nenhum. E ali estaria a vantagem: ver de longe, mas ver.

Aí acontece o terceiro problema: na hora do show, o pessoal invade a área. Muita gente querendo ver dali, da área exclusiva. Nas três primeiras músicas, tinha uma galera gigantesca lá em cima. Só depois que os seguranças tiraram todo mundo e entraram só alguns jornalistas.

Agora, sim. Tudo bem? Engano seu. O show para por conta da grade lá na frente. Só faltava essa. Depois do organizador pedir e ninguém dar bola, é a vez do Zack de La Rocha pedir em Inglês. E finalmente segue o show. E para 5 minutos depois. Lá atrás, não saia som nenhum nas caixas. Eu não ouvia absolutamente nada. Aconteceu isso por duas vezes. Assim que acabou o show, meu amigo e eu saímos o quanto antes.

Não adiantou. Uma bagunça pra voltar. Por causa do trânsito, o ônibus demorou 1h30 só pra sair da estrada de terra para pegar a de asfalto. Não bastasse isso, uma menina passou mal e não conseguiram abrir os vidros de emergência. Acabaram quebrando os vidros do ônibus, o que fez demorar ainda mais.

Eu e meu amigo chegamos em Itu, mas tivemos que esperar a Denisse, que se perdeu da gente e veio num outro ônibus, que quebrou no meio do caminho. Só nos encontramos às 4h na rodoviária de Itu. Ou seja, só fui dormir mesmo depois de quatro horas do show ter acabado. Não imaginava que seria tanto sacrifício. E olha que paguei caro por isso.

Com informações de Paulo Sampaio

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