Apples in Stereo – e só

Estadão

11 de outubro de 2010 | 02h47

Por Alexandre Matias @trabalhosujo

Foi com dor no coração que eu disse não ao Rage Against the Machine.
Não tanta dor assim, metade é floreio textual. Mas quando vi as
condições a que o SWU submeteu seu público, assim que cheguei na
Fazenda Maeda para assistir apenas aos Apples in Stereo, fiquei feliz
em ter escolhido não ficar até o fim do primeiro dia do festival. E
nem precisei ficar sabendo dos relatos deprimentes de horas de tortura
em trânsito para sair do festival (#radioheadfeelings) como sentir o
frio na pele para identificar o tamanho da roubada. Apenas vi a
minúscula estradinha de terra que o evento colocou para escoar todos
os sabe-se lá quantos mil carros que os diferentes estacionamentos
iriam escoar. Não havia anoitecido ainda, mas já dava para antever o
mar de luzes traseiras vermelhas à frente do pobre motorista, cercado
por outros em idêntica situação – vendo o êxtase de ver sua banda
favorita ao vivo transformar-se numa raiva incontrolável contra o
amadorismo semiprofissional da indústria de entretenimento brasileira.

Por isso, disse não ao Rage. Led Zeppelin de minha adolescência, havia
jurado para mim que ainda os veria em vida, dane-se se voltassem só
pela grana (e como se tocar música não fosse o trabalho dos caras).
Mas como promessas para si mesmo são as mais tranquilas de serem
abortadas, deixei para lá. Mas o fator determinante que me fez ir ao
SWU em seu primeiro dia foi uma bandinha minúscula dos Estados Unidos,
que, com quase vinte anos de carreira, é uma pequena nota de rodapé na
história da música pop, mas que também é quase um capítulo inteiro em
uma das minhas partes favoritas da história do rock: a psicodelia. O
Apples in Stereo faz parte do mesmo coletivo Elephant 6 que deu ao
mundo o Olivia Tremor Control, o Neutral Milk Hotel e o Elf Power,
bandas que, do fim dos anos 90 até hoje, ajudam a manter acesa a chama
da lisergia entre os nomes no rock independente do século 21. E era a
principal atração – a única internacional – de um dos palcos do
festival.

Liderada por Robert Schneider (que foi entrevistado pelo Fred Leal no
C2 Música deste sábado – e no Link desta segunda -), a
banda vem abandonando o lado barroco lo-fi de seus primeiros discos
nos últimos anos, dando mais ênfase à faceta pop e objetiva de hits
fáceis de ser lembrados. Seu disco mais recente, Travellers in Space
and Time, é um dos melhores álbuns de 2010, mesmo que esteja longe de
ser lembrado pelas listas de melhores do ano, tanto do público quanto
da crítica. Por serem comercialmente minúsculos, quase sempre não são
lembrados nesta hora.

Mais um motivo para assistir aos Apples – eles disputariam público com
uma das raras apresentações dos Los Hermanos e tocariam quando a dupla
canadense MSTRKRFT tocasse na tenda de dance music. Dois concorrentes
de peso, para tirar público da banda. O espaço dedicado aos Apples
estaria, portanto, mais transitável, menos abarrotado, mais
civilizado. Em condições normais, os Apples in Stereo teriam tocado em
São Paulo num palco do Sesc, talvez no Espaço +Soma ou no Studio SP, o
que inevitavelmente tornaria sua apresentação disputadíssima. Mas no
ambiente do festival, ela tornou-se praticamente um luau para os fãs
da banda.

Um show redondíssimo, de pouco mais de meia hora, em que a banda
esmerilhou todo seu pop psicodélico futurista e radiante para um
público pequeno, mas completamente em sintonia com a banda. Em pouco
mais de uma hora, se divertindo tanto quanto o público, a banda criou
uma bolha de boas vibrações que praticamente os isolou do clima de
vinho barato do SWU (mesmo que a única bebida alcóolica à venda fosse
cerveja). Alternando principalmente músicas dos dois últimos discos
(Travelling e New Magnetic Wonder, de 2007), o show também funcionou
por ter evitado o complexo de épico que reinava sobre o festival.

Terminado o Apples in Stereo, logo logo ouviria o Mars Volta
funcionando como trilha sonora perfeita para ir embora. O som de
pesadelo – não estou ficando velho, Mars Volta é bem ruim mesmo –
funcionava como um presságio para o tumulto e o pânico que reinaram
sobre a madrugada. Estava de volta à estrada antes das 22h e li, pela
internet, a confusão que aconteceu durante o show do Rage Against the
Machine
.

A dúvida agora é saber se vale à pena chegar na fazenda de novo nesta
segunda-feira a tempo de ver o Yo La Tengo e encarar Josh Rouse e Cansei de
Ser Sexy antes dos Pixies (Queens of the Stone Age eu passo, muito
obrigado). Mas a certeza é única – mesmo que tenha Linkin Park e
Tiesto depois dos Pixies, acho válido sacrificar o bis da banda
americana para não pegar o perrengue da saída. Pois, não duvide, muita
gente vai ficar só até os Pixies – o suficiente para tumultuar aquela
minúscula estrada de terra.

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