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Você já escutou sua casa hoje?

Redação Divirta-se

14 de abril de 2020 | 19h56

Crônicas de SP

Gilberto Amendola (@gibaamendola)

Não sei vocês, mas durante a quarentena tenho ouvido bastante aquilo o que a minha casa diz. Tenho escutado todos os barulhos que o meu apartamento, e as coisas que estão dentro dele, fazem ao longo do dia.

Fico fascinado com os estalos que os tacos soltos da sala produzem. Eles são como alarmes gentis, avisos sussurrados de qualquer passo em falso. Vez ou outra, combinam-se com um “slap, slap” dos meus chinelos e criam uma sinfonia delicada (estou há duas semanas usando chinelos).

Tem muito som ao meu redor. Quando me sento no sofá, ouço um “puff” amistoso. Ao contrário das cadeiras, que rangem como que cerrando os dentes de raiva – com um barulho áspero cheio de “erres” (acho que não devem curtir o meu home office).

Vejo que a geladeira, um clássico, merece mais do que a nossa atenção noturna. Ela engasga, tosse e me instiga durante toda a vigília. Penso que, talvez, esteja declamando poemas em uma língua morta. Ou apenas me ofendendo. Provavelmente, está me xingando.

A máquina de lavar, como não lembrar dela, tem a voz do pai quando vai repreender o filho desobediente. Ou a voz da professora que reclama do aluno que não trouxe a lição de casa.

Já o fogão tem a voz da avó escondendo uma nota de dez reais no bolso do neto. Ou a voz da mãe quando sacode o filho, um homem adulto, pelo ombro e repete “não desanima”.

As janelas e portas batem (e falam) como se estivessem datilografando cartas de amor escritas por um gago. Daquelas cartas que são metidas pelo vão de sisudas barreiras e raramente chegam às mãos de suas destinatárias – sendo interceptadas por madrastas sem coração.

Já o pinga-pinga do chuveiro e das torneiras são como ordens: “Faça, lave, tome, viva ou morra”. Sempre tive medo de quem fala “pausadamente”. Medo mesmo.

Aqui em casa só quem não fala é o telefone fixo. Esse está mudo faz muito tempo. Não me toca e nem se toca. Um estranho.

As paredes também não são de falar. Parede é mais de ouvir. Portanto, quem fala com elas sou eu. Peço para que elas (as paredes) façam o mundo voltar ao normal. Peço o fim da pandemia e rezo por aqueles que partiram.

Apesar do silêncio, as paredes me dão ouvidos. E sem dar um pio, me abraçam e não me deixam sair desse colo quente e seguro. Vamos nos fazendo companhia. Sem cabeçadas. Vamos levando como dá…

E vai ser assim até o dia em que eu puder sair de casa para buscar outros sons e vozes.

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