Vida a dois: como manter a harmonia do lar durante a quarentena
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Vida a dois: como manter a harmonia do lar durante a quarentena

Júlia Corrêa

26 de março de 2020 | 02h00

O excesso de convivência em razão da quarentena pode causar conflitos para o casal. O que é possível fazer para deixar esse período mais harmonioso?

Arthur Lauxen e Cesar Sandri tiveram de ajustar a rotina. Foto: Arthur Lauxen

Desde que o avanço do coronavírus impôs o isolamento em casa, foi preciso alterar as rotinas. Ficar longe de familiares e amigos nem sempre é uma missão fácil. Mas, quando o isolamento envolve a divisão do espaço doméstico com marido, mulher, companheiro ou cônjuge, durante 24 horas por dia, a situação pode ser ainda mais desafiadora.

Se a desordem das tarefas cotidianas já é motivo para deixar qualquer um com os nervos à flor da pele, a convivência com um companheiro passando pela mesma situação pode ser a receita para o desentendimento.

Não é por menos que, com o fim do confinamento imposto à população da China, o país viu o número de pedidos de divórcios aumentar consideravelmente. Desde 1º de março, a cidade de Xi’am, capital da província de Shaanxi, contou com um “número sem precedentes” de solicitações dessa ordem, segundo uma matéria do tabloide chinês em língua inglesa The Global Times. Tudo bem, os cartórios da cidade ficaram fechados por um mês, o que pode ter atrasado os planos de alguns casais que já pensavam em se separar antes das restrições. Mas é inegável que a reclusão a dois, ao longo de um período estressante, pode ser um verdadeiro teste de resistência.

No Brasil, os dias de quarentena ainda são recentes, mas alguns casais já preveem o impacto em seus cotidianos. A psicanalista, psicóloga e terapeuta de casal Mena Mota diz não ter ouvido ainda nenhum caso de conflito entre seus pacientes, mas, desde a última semana, em atendimentos online, tem passado a orientá-los de forma preventiva.

“Entre as maiores preocupações, está a falta de privacidade”, revela a profissional. “As pessoas normalmente se ausentam para trabalhar, têm momentos a sós; de repente, tem alguém junto o tempo inteiro, o que pode ser desesperador”, complementa.

Quando passaram a viver juntos, há cerca de dois meses, os bancários Bárbara Melo, de 30 anos, e João Ottoni, de 43, não contavam que passariam por uma situação inusitada assim tão cedo. Os dois se mudaram do Rio de Janeiro para Brasília, onde, até então, mantinham uma rotina na qual se separavam na hora de ir trabalhar e voltavam juntos para casa depois do expediente.

De acordo com Bárbara, eles “prezam bastante” momentos de lazer nos quais independem um do outro. “Normalmente jantamos juntos, mas, às segundas-feiras, ele costuma jogar futebol com os amigos”, exemplifica. Pensando em preservar essa harmonia, não hesitaram em conversar sobre o assunto quando veio à tona a recomendação de isolamento.

“A parte boa é que a gente conversa muito; já imaginávamos, assim, o que poderia ser mais difícil nesta convivência. Ele tem um perfil mais quieto, organizado. Eu fico bem ansiosa nessas situações, preciso me proporcionar escapes”, explica Bárbara.

Bárbara Melo e João Ottoni vivem juntos há apenas dois meses. Foto: Bárbara Melo

Durante a semana, o home office faz com que cada um se isole, concentrados em suas tarefas. No tempo livre, Bárbara conta com a ioga, que passou a praticar com a ajuda de um aplicativo, e acompanha um curso de espanhol online. Enquanto isso, João dedica-se também a leituras e estudos. “Mesmo confinados, tentamos estabelecer pequenas rotinas separadas”, conta a bancária.

A preocupação de como lidar com esse cenário também atinge os gaúchos Arthur Lauxen, de 28 anos, e Cesar Sandri, de 26, que dividem um apartamento em Porto Alegre há três anos. Antes mesmo do isolamento, Cesar já estava bastante ansioso com a situação, pois trabalha em uma empresa multinacional de intercâmbios. Nos últimos tempos, tem tido de lidar com dezenas de estudantes e pais afetados pela expansão do coronavírus pelo mundo.

“No primeiro dia de reclusão em casa, discutimos muito. Estávamos irritados por nos vermos em uma situação diferente da que estávamos acostumados. Mas, no fim, buscamos uma abordagem conciliatória. Dissemos um para o outro: ‘será um período longo, é melhor ficarmos bem’”, relata Arthur.

Novos hábitos. Assim como Bárbara e João, eles têm a vantagem de viver em um ambiente relativamente espaçoso. Num primeiro momento, estão dividindo uma mesma bancada, mas já notaram que, como precisam falar com sócios e clientes pelo telefone o tempo todo, será melhor um ficar no escritório e o outro, na sala. A ideia é que alternem a cada semana.

Os dois têm perfis bem diferentes. Enquanto Arthur se define como uma pessoa “extremamente hiperativa”, Cesar é mais tranquilo e gosta de estar em casa. “Quando chego do trabalho, costumo sair para correr na rua. Pensei em continuar a fazer isso com cuidado, mas, como o Cesar tem medo de que eu contamine a casa depois, acabei cedendo, para deixá-lo confortável.”

É nesse sentido que a terapeuta Mena Mota reforça que, mais do que nunca, este é um momento para os casais não deixarem mal-entendidos no ar. “Se eles já aparecem normalmente, com uma rotina inédita como esta, vão continuar a aparecer, mas alguém tem de dar o primeiro passo para desfazê-los. Eu sempre tento mostrar que cada um tem a sua verdade, e nem sempre elas coincidem”, pondera. Para ela, o mesmo vale em relação a cobranças ligadas à organização do lar. Fazê-las de forma mais serena e tolerante, sem tomar a falha do outro como uma irritação, pode ser um bom caminho.

Mena ainda lembra que, quando a relação envolve a presença de filhos, além de se tomar cuidado para que cada um tenha um tempo reservado para si, é importante separar o que são os pais e o que é o casal. Isto é, estabelecer um tempo para interagir com toda a família e também um tempo voltado à privacidade e ao lazer do casal. “Inclusive, pode ser um momento de renovação da relação”, comenta a profissional.

COMO NÃO MISTURAR CASA E TRABALHO

Casados há 40 anos, os consultores automotivos Rosana e Paulo Garbossa, que vivem em São Paulo, são um exemplo de que manter uma rotina muito próxima à do outro pode dar certo. Paulo optou por fazer home office em 1995, caminho seguido por sua mulher dois anos depois.

No início, eles tiveram algumas dificuldades. “Muitas vezes, levávamos assuntos de trabalho para a sala de jantar, junto das crianças”, relembra Paulo. Foi assim que, depois de um mês e meio de adaptação, passaram a se “policiar” para não misturar a vida profissional à doméstica.

Paulo conta que os próprios filhos aprenderam muito com essa lógica. Recentemente, um deles, hoje casado, foi transferido para a Suécia. Com o coronavírus, adaptou-se à quarentena sem nenhuma dificuldade.

Quanto à organização, o casal busca fazer as refeições no mesmo horário e, sempre que possível, respeitar o tempo de cada atividade. Claro que imprevistos ocorrem, como quando algo da casa quebra, mas, como explica Paulo, “não é porque você está em casa que está disponível para tudo”. Se não for algo urgente, ele deixa para consertar no fim de semana.

No dia a dia, cada um tem seu espaço no escritório. “Quando ela está trabalhando, a respeito como qualquer outro colega”, afirma Paulo, que diz, por exemplo, não se preocupar com a aparência nesses momentos. “O mais importante é estarmos confortáveis; deixo para notar a roupa dela quando saímos para jantar, fugindo da rotina.”

Buscando essa individualidade, há cerca de dez anos, optaram por separar quarto e banheiro. “Quando eu sugeri, ela chegou a me perguntar se eu estava com outra”, brinca Paulo, “mas foi um jeito de preservamos nossa independência”. É assim que, para o casal, não existe uma “fórmula mágica”. O sucesso do trabalho compartilhado em casa está ligado ao respeito pelo espaço do outro e a uma adaptação constante.

SEM CONFLITOS
Confira dicas para o período de isolamento a dois

Horários de trabalho bem definidos
A psicoterapeuta Mena Mota sugere que os casais delimitem os horários dedicados à atividade profissional. Embora algumas ocupações demandem atenção em tempo integral, é importante criar espaços no lar para a pessoa perceber que o parceiro não pode ser interrompido a qualquer momento. “É como se o outro estivesse ausente.”

Momentos de privacidade
Nem sempre o companheiro está disposto a interagir. Nestas horas, é fundamental respeitar a individualidade do outro, que pode estar simplesmente querendo ter um momento de introspecção em um cômodo reservado da casa. É bom lembrar que muitas pessoas estão ansiosas diante das incertezas deste momento.

Mais tolerância com os erros alheios
Em situações de estresse, qualquer pequena falha do parceiro pode ganhar dimensões desproporcionais. Por isso mesmo, é bom ter em mente que, com a indefinição do prazo de isolamento, uma reação exagerada pode deixar esses dias ainda mais difíceis. O diálogo é fundamental.

Divisão de tarefas
Para Mena, a quarentena pode ser uma oportunidade para a renovação da relação. Ao preparem a refeição juntos, por exemplo, os parceiros podem não apenas reforçar os laços afetivos, como perceber que a divisão de tarefas não vinha sendo justa.

Lazer é fundamental
Danças, filmes, leituras… A diversão é a melhor aliada para aliviar a tensão. Se há filhos na jogada, o casal deve também reservar momentos para ficarem a sós.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: