Teatros de grupo: os bastidores de sete companhias paulistanas
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Teatros de grupo: os bastidores de sete companhias paulistanas

Júlia Corrêa

23 de maio de 2019 | 19h03

Um passeio pelo universo de grupos teatrais que mantêm sedes próprias – e merecem sua visita

Foto: JF Diorio

Eles são muitos, e estão por toda a cidade – alguns ainda mantêm uma sede própria, onde apresentam ao público criações suas e de parceiros. A relação com o público, nesses pequenos espaços, tende a ser bem mais íntima. E até a rotina administrativa é dividida entre todos. Ali, tudo é coletivo – e não apenas no nome.

Segundo a Cooperativa Paulista de Teatro, há pelo menos mil grupos teatrais em atividade no Estado. Para conhecer melhor esse universo, visitamos as ‘casas’ de alguns coletivos da capital, e também relembramos a trajetória de pioneiros como o Oficina e o Parlapatões.

Essas e outras histórias ainda geraram uma série de vídeos produzida com a TV Estadão. Confira abaixo o primeiro episódio:

Confira os outros episódios: Rotina | Dificuldades | Experiência do público

NÚCLEO EXPERIMENTAL

Foto: Nilton Fukuda/Estadão

“Ver a gota de suor no rosto do ator, capturar detalhes e minúcias da expressão dele – são experiências que nenhum teatro grande consegue oferecer”, avalia o diretor Zé Henrique de Paula (foto acima). A parceria de mais de 20 anos entre ele, Fernanda Maia e Inês Aranha resultou, em 2005, na fundação do Núcleo Experimental.

Desde 2012, o espaço de uma antiga gráfica na Barra Funda, com capacidade para 65 pessoas, serve de sede ao grupo, com atividades de formação, ensaios e, claro, apresentações. Diante dos perrengues financeiros, os integrantes desdobram-se em múltiplas funções: “Já precisei cuidar da bilheteria ou recolher ingressos na porta, mas isso também gera uma energia muito mais íntima com o espectador”, diz.

No dia 1º/6, o grupo reestreia, em sua sede, a peça ‘1984’, montagem da obra de George Orwell (sáb. e 2ª, 21h; dom., 18h; R$ 40; até 24/6).

R. Barra Funda, 637, Barra Funda, 3259-0898. Inf.: nucleoexperimental.com.br

GRUPO XIX DE TEATRO

Foto: Hélvio Romero/Estadão

A exploração de espaços históricos marca a trajetória do grupo desde sua fundação, há 19 anos. “Nosso primeiro trabalho, ‘Hysteria’, já foi feito num ‘site specific’ (quando a obra é criada em função de um determinado ambiente). Essa experiência deu outra compreensão do que poderia ser nossa relação com o público”, relata o diretor Luiz Fernando Marques, o Lubi – parceiro de Janaína Leite, Juliana Sanches, Paulo Celestino, Rodolfo Amorim e Ronaldo Serruya. Desde 2004, o Grupo XIX está instalado na Vila Maria Zélia, num prédio centenário que se encontrava em estado avançado de abandono.

Estar ali, segundo Lubi, é uma maneira de devolver a função pública ao espaço – e acaba impactando tanto a estética quanto a rotina do trabalho. Se, muitas vezes, o grupo usa o entorno como cenário, também precisa se adaptar aos horários e às demandas da vizinhança, que inclui moradores nos andares de cima e uma igreja logo ao lado.

Além disso, o dia a dia é marcado pela divisão de tarefas administrativas entre todos os integrantes. Cada um deles também coordena um dos núcleos que, ao longo do ano, desenvolvem pesquisas com artistas profissionais ou em formação. Nos dias 29 e 30/6, às 15h, e 6 e 7/7, às 20h, será possível ver ‘A Corda, Alice’ (grátis), fruto do trabalho organizado por Juliana Sanches.

A sede também costuma receber parceiros, atraídos pelo potencial do local. Essa possibilidade de troca já fez o grupo convidar outras companhias até para tomar café da manhã ali. “Isso tem tudo a ver com o clima da vila; quando se entra aqui, parece que já vem um cheiro de bolo”, brinca o diretor. “Dizem que aqui parece ter outro tempo – um tempo de contemplação, de convívio.”

R. Mário Costa, 13, Belém, 2081-4647. Inf.: www.grupoxix.com.br

CIA. MUNGUNZÁ DE TEATRO

Foto: JF Diorio/Estadão

Recém-saídos do Teatro Escola Macunaíma, em 2006, Sandra Modesto e Marcos Felipe decidiram formar uma companhia. Admiradores de Nelson Baskerville, entraram em contato “via Orkut” para convidá-lo a dirigir ‘Por que a Criança Cozinha na Polenta’, peça que marcou o nascimento da Cia. Mungunzá. Aos poucos, entraram também Virginia Iglesias, Lucas Bêda, Verônica Gentilin, Pedro Augusto, Leonardo Akio e Gustavo Sarzi, compondo a formação atual.

Em 2017, com uma já premiada trajetória (com espetáculos como ‘Luis Antonio – Gabriela’), o grupo instalou-se em uma antiga praça na Luz, inaugurando ali o Teatro de Contêiner Mungunzá, formado por 11 caixas marítimas. A construção do espaço foi fruto de longa organização do grupo, que percebeu a necessidade de profissionalizar, de algum modo, a sua gestão.

Eles optaram, por exemplo, por um modelo em que, em vez de dividirem o cachê de cada peça, formam um caixa que lhes permite ter salários mensais. Além disso, cada integrante tem uma função específica, que vai desde a parte técnica até pagamentos e inscrições em projetos.

Essa estrutura, no entanto, não dispensa o grupo de exercer trabalhos como de faxina, atendimento na bilheteria e na lanchonete do espaço – algo que, segundo Sandra, proporciona ao público uma experiência mais “familiar”. No dia 8/6, às 11h, a companhia encena, na sede, ‘Epidemia Prata’, peça dirigida por Georgette Fadel (grátis).

R. dos Gusmões, 43, metrô luz, 97632-7852. Inf.: www.ciamungunza.com.br

CIA. PESSOAL DO FAROESTE

Foto: JF Diorio

“A gente trabalha dentro de uma cidade que a cidade não quer ver”, sentencia o diretor Paulo Faria, referindo-se à atuação de seu grupo na região da antiga Boca do Lixo de São Paulo, onde hoje se encontra a Cracolândia. Desde o fim dos anos 1990, quando surgiu com um trabalho em homenagem a Renato Russo, a companhia definiu o desejo de trabalhar em torno de temas sociais e políticos.

Nesses 21 anos de trajetória, Faria conta que o grupo foi além do fazer teatral. Hoje, funciona também como um instituto que recebe trabalhos de diversos coletivos e estrutura toda uma rede de direitos humanos ligada às redondezas.

E mesmo a dramaturgia das peças se relaciona com o local. Em cartaz até 5/8 (dom., 16h; 2ª, 19h e 21h30; grátis), o musical ‘Brancos e Malvados ou Ensaio Sobre os 3 Porquinhos’, por exemplo, aborda aspectos como os reflexos da ditadura militar na região. “Esse sentimento de pertencimento é o que nos faz estar aqui. Não queremos ir para outro lugar; queremos que o público venha para cá. O medo é vencido pela informação”, diz o diretor.

R. do Triunfo, 305, metrô Luz, 3362-8883. Inf.: www.pessoaldofaroeste.com.br

FOLIAS

Foto: JF Diorio/Estadão

O espaço de uma igreja abandonada em Santa Cecília foi ocupado, no fim dos anos 1990, por atores que, vindos de Santos, buscavam um lugar para ensaiar o espetáculo ‘Folias Fellinianas’. Inspirados nesse título, eles formaram, então, o grupo Folias, que estabeleceu, desde aquele momento, forte relação com o entorno da sede – o Galpão do Folias, aberto oficialmente em 2000.

Com quase 2 mil associados, o Projeto Morador, por exemplo, inclui descontos em ingressos para a vizinhança. Ainda nos 1990, o grupo marcou a cena paulistana ao liderar campanhas que buscavam estabilidade para as companhias e que resultaram, em 2002, na Lei Municipal de Fomento ao Teatro.

Da formação original – que tinha nomes como Marco Antonio Rodrigues, Reinaldo Maia e Dagoberto Feliz –, só ficou Nani de Oliveira, que tem, hoje, a companhia de Alex Rocha, Clarissa Moser, Giovanna Kelly, Lui Seixas, Marcella Vicentini, Marcellus Beghelle e Suzana Aragão. O foco, porém, continua o mesmo: trabalhos feitos com aprofundamento de pesquisa.

Atuando também como coordenadora técnica, Giovanna Kelly relata que as limitações financeiras exigem que os integrantes também desempenhem funções administrativas – algo que, em sua visão, interfere no próprio fazer artístico. Em 2017, a falta de verba quase os fez fechar as portas, desfecho evitado graças a uma programação montada com o apoio de grupos parceiros, com os quais há um diálogo constante. O Coletivo Legítima Defesa, por exemplo, apresenta ali, até 9/6, ‘Black Brecht – E Se Brecht Fosse Negro?’ (5ª a sáb., 21h; dom., 19h; R$ 20).

R. Ana Cintra, 213, S. Cecília, 3361-2223. Inf.: www.galpaodofolias.com

CEMITÉRIO DE AUTOMÓVEIS

Foto: Alex Silva/Estadão

“Para os vizinhos, seria melhor se aqui fosse um supermercado ou uma farmácia”, diz Mário Bortolotto (foto), diretor do grupo, cuja sede, aberta há cinco anos, também conta com um bar. “Trabalhamos nele todo dia até as sete da manhã pra conseguir sustentar o teatro”, revela ele, que define o trabalho feito ali como “anti-mainstream”.

Em 1982, no Paraná, sem ter como comprar direitos autorais, Bortolotto e seus parceiros apostaram na criação de seus próprios textos – proposta que mantêm até hoje, quando completam 23 anos em São Paulo. Para ele, a experiência intimista em um teatro como o seu não permite “enganar” o público, que está “na cara do ator”.

Nesta 3ª (28) e 4ª (29), às 21h, é possível conferir ‘Tudo que Dói’ (90 min.; 14 anos), sobre um escritor de passado misterioso (R$ 20).

R. Frei Caneca, 384, Consolação, 2371-5743. Inf.: www.fb.com/cemiteriodeautomoveis1

OS SATYROS

Foto: Gabriela Biló/Estadão

“A gente queria fazer um teatro que dialogasse com a sociedade e provocasse reflexões”, conta Rodolfo García Vázquez (foto), que, com Ivam Cabral, fundou o grupo há 30 anos. Se a proposta já marcava o repertório, ela ganhou muito mais peso quando a companhia inaugurou, em 2000, a atual sede na Praça Roosevelt – e mudou a realidade do local, dominado, na época, pela criminalidade.

“Fomos nos aproximando do mundo das travestis e dos traficantes; muitos passaram por processos de ressocialização aqui conosco.” Com diferentes núcleos, o grupo ocupa, hoje, mais espaços no entorno da praça. Além da sala original, conta ainda com a Estação Satyros e, no início de julho, reabrirá o Cine Bijou. É também um dos fundadores da SP Escola de Teatro, que forma ali mais de 2 mil alunos por ano. “É incrível assistir à revolução que aconteceu a partir de uma salinha, ver que tudo saiu dessas quatro paredes”, reflete o diretor.

De hoje (24) até 14/6, ‘O Rei de Sodoma’, dirigida por ele e Dan Nakagawa, ocupa a Estação (6ª, 21h; R$ 40).

Pça. Franklin Roosevelt, 214, Consolação, 3258-6345. Inf.: satyros.com.br

PARA RELEMBRAR: OUTROS PIONEIROS

TEATRO OFICINA

É impossível falar da cena paulistana sem mencionar o icônico grupo liderado por Zé Celso Martinez Corrêa. Em seus mais de 60 anos de história, a companhia apresentou espetáculos que revolucionaram a linguagem teatral brasileira – caso de ‘O Rei da Vela’, de Oswald Andrade, e ‘Roda Viva’, de Chico Buarque, cuja nova montagem cumpre temporada até 2/6 (6ª e sáb., 20h; dom., 19h; R$ 60). Com projeto de Lina Bo Bardi e Edson Elito, sua sede foi inaugurada em 1993. R. Jaceguai, 520, Bexiga, 3104-0678. Inf.: teatroficina.com.br

PARLAPATÕES

+ Nascido em 1991 e instalado na Praça Roosevelt desde 2006, o Parlapatões também teve importante papel na revitalização da região. Além de comédia e circo, desenvolve técnicas do teatro de rua desde seu primeiro espetáculo – ‘Parlapatões, Patifes e Paspalhões’, cujo título inspirou o nome do grupo. Sua sede recebe vários artistas parceiros. Hoje (24), às 21h, o Grupo Careta encena ‘Hamelete – O Cordel’, releitura bem-humorada da obra de Shakespeare (R$ 40). Pça. Franklin Roosevelt, 158, Consolação, 3258-4449. Inf.: parlapatoes.com.br

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