Solidariedade digital: campanhas de doações aumentam durante a quarentena; conheça algumas delas
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Solidariedade digital: campanhas de doações aumentam durante a quarentena; conheça algumas delas

Redação Divirta-se

03 de junho de 2020 | 12h00

Levy Teles

Especial para o Estado

Solidariedade e fraternidade são alguns valores que são resgatados em situações de calamidade – como assim acontece durante a crise causada pelo novo coronavírus. Em quarentena, os recursos para fazer a diferença são mais escassos. Mas a criatividade aparece. E o ambiente digital se tornou a plataforma também para divulgar iniciativas de apoio.

Plataformas de arrecadação online de recursos, como o Vakinha, notaram um aumento significativo no número de doações a ações de solidariedade em ambientes digitais durante a quarentena. O aumento no volume médio de doações subiu mais de 100%: de uma média de 120 mil doações por mês para 300 mil. Foram R$ 13,5 mi arrecadados durante um mês e meio apenas com as campanhas para a covid-19, com uma média de duas mil vaquinhas criadas por dia.

Fábio e Tassia, do Nós por Elas: aulas de defesa pessoal online

“O pessoal viu que era um momento difícil”, afirma Luiz Felipe Gheller, fundador e CEO do Vakinha. “O coronavírus veio e aflorou um aspecto de solidariedade entre as pessoas”, adiciona.

E em campanhas de solidariedade, organizações sociais, influenciadores e cidadãos comuns fazem uso de plataformas como o Instagram para mobilizar redes de apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade ao vírus e expostas a outras consequências da quarentena. Ações que nasceram para fazer o bem para o outro.

O que pode ser um auxílio para a saúde mental durante o isolamento. De acordo com Marcelo Nonohay, referência na área de voluntariado e diretor da MGN Consultoria, empresa especializada em gestão de projetos para transformação social, o trabalho voluntário pode fazer tão bem ao voluntário quanto ao público beneficiado.

E esse trabalho não se restringe à arrecadação. É o caso do grupo Nós Por Elas, voltado para ensinar defesa pessoal para mulheres, comandado por Tassia Lindgraf e Fábio Sá. Antes da quarentena, as ações do grupo eram mais focadas em palestras e oficinas presenciais para mulheres. Durante o período de isolamento, o casal viu a possibilidade de poder divulgar o conteúdo por vídeo nas redes sociais.

Uma das motivações do casal para a mudança é a preocupação com o aumento do número de episódios de violência doméstica  durante o confinamento. No Brasil, em abril, quando o isolamento social imposto pela pandemia já durava mais de um mês, a quantidade de denúncias de violência contra a mulher recebidas no canal 180 deu um salto: cresceu quase 40% em relação ao mesmo mês de 2019, segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH). O fenômeno, aliás, não ocorre apenas por aqui. De acordo com as Organizações das Nações Unidas (ONU), durante a pandemia, o número de telefonemas a centrais de suporte em casos de violência doméstica dobraram no Líbano e na Malásia em comparação com o mesmo mês do ano anterior; na China, o número foi triplicado.

A mudança aumentou o alcance do Nós Por Elas e trouxe um retorno positivo. “Num seminário a gente atendia 30, 40 pessoas. Agora, pelos vídeos, tem 300, 400 pessoas assistindo”, diz Fábio.

Fábio pratica jiu jitsu há mais de 20 anos. Tassia, por outro lado, nunca havia entrado no tatame antes de fazer parte do Nós Por Elas. “A mensagem que ela passa é que você não precisa ser uma lutadora para aprender a técnica”, salienta Fábio. O casal separou o conteúdo em três módulos, que avançam de acordo com a situação de risco que a mulher pode estar exposta – seja numa agressão inicial ou em situação de risco de morte.

Apoio virtual

Se o trabalho voluntário ajuda a melhorar a saúde mental, a psicóloga Adriana Ronchetti, especializada  no atendimento de saúde mental para crianças e adolescentes, resolveu iniciar uma página no Instagram (@adriana_ronchetti) para compartilhar dicas para colaborar neste momento.

Adriana Rochetti começou a oferecer ajuda psicológica durante a quarentena

A vontade de começar o trabalho, segundo a psicóloga, veio da constatação do quão difícil é viver em isolamento. “Estudos mostram que em três dias de total isolamento, pessoas desenvolvem sintomas de estresse, ansiedade e depressão. Esses sintomas perpetuam”, conta.  No perfil, conta pessoal, há dicas para diversos públicos e diversas faixas etárias: jovens, idosos, homens, mulheres, home office e rotina familiar.

A iniciativa era pensada apenas para o tempo de quarentena, mas o impacto foi positivo. São quase 4 mil seguidores e muitas mensagens de agradecimento. A psicóloga pretende manter a iniciativa após o isolamento. “A quarentena nos ensina que a gente precisa pensar no outro. A gente pode fazer mais pelo outro do que a gente podia fazer antes”, conta.

Do digital para o real

Dois anos atrás, a Uneafro – movimento negro que atua em 31 periferias brasileiras oferecendo gratuitamente formação educacional para milhares de jovens – fez campanha para comprar material didático para os alunos. Foram 50 mil reais para a nossa campanha.

Durante a pandemia, as aulas tiveram que parar, mas a necessidade de ajudar a população vulnerável  continuou. Assim começou a iniciativa do grupo nas redes sociais  para comprar alimentos alimentos. Na campanha, foram arrecadados R$  500 mil e mais de 45 toneladas de alimentos para ajudar mais de 4 mil famílias em um mês de campanha.

Uneafro fez campanha para arrecadação de alimentos. Foto Uneafro

A iniciativa nasceu de uma “vaquinha” online e da percepção do educador e líder da organização, Douglas Belchior. “As pessoas, além de enfrentar a doença, precisam enfrentar a fome, com um vírus que contamina com muita facilidade”,  conta. A visibilidade levou a uma campanha de grandes incentivos durante a quarentena e parcerias com outros grupos e empresas.

Uma delas foi com a Alma Preta, agência de jornalismo especializado na temática racial, fundado por Pedro Borges e Vinícius de Araujo. O grupo se juntou à Uneafro e comunidades locais para uma campanha digital com o fim de arrecadar alimentos na região de Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo. A região tem o maior número de infectados pela covid-19 e lugar de nascimento de Pedro Borges. Já foram arrecadadas 170 cestas básicas.

“Nunca duvidei dessa solidariedade. É um momento difícil, que as pessoas buscam se apoiar”, conta Pedro. “Estamos aprendendo como fazer essas campanhas e o volume de doações impressiona”.

Acolhimento

Mobilizada pela ONG Nosso Olhar e pelo Instituto Empathiae, a campanha Minha Despensa, Sua Despensa começou no campo digital com a meta de alcançar R$ 10 mil. O objetivo era oferecer alimentos e produtos de higiene para populações vulneráveis – e foi alcançado. Entre os beneficiados pela campanha estão a Missão Cena, que acolhe pessoas em situação de rua, usuários de drogas, crianças em situação de risco, travestis e prostitutas na Cracolândia.

Essa foi a primeira das ações mobilizadas, que deve continuar. “Já conversamos com outras ONGs para fazer parte de uma outra campanha”, conta Thaissa Alvarenga, fundadora da ONG Nosso Olhar. “O importante é saber que não é só com o dinheiro que se pode ajudar. O conhecimento também é muito importante nesse período”, salienta Thaissa.

Visibilidade

Há 55 anos, o Hospital Martagão Gesteira, em Salvador, é referência no tratamento gratuito a crianças e adolescentes da cidade baiana.  São aproximadamente 500 mil atendimentos gratuitos por ano. Durante a crise causa pelo novo coronavírus, o número de usos de equipamentos de proteção individual (EPI) aumentou significativamente.

O hospital, que é mantido por verba do SUS e doações voluntárias, levantou uma campanha online para arrecadar fundos para manter o funcionamento da instalação frente a um momento crítico. A campanha “Quando falta você, falta tudo” é feita na plataforma Kickante e busca arrecadar R$ 100 mil para cobrir os custos elevados no momento.

A principal ferramenta de visibilidade para o Martagão está sendo o apoio de influenciadores digitais. O Martagão criou um filtro na rede social com a marca do Hospital e a frase “Doe Agora” para que os influenciadores publicassem stories no Instagram com o link da campanha. Entre as mensagens, relatos pessoais que falam do trabalho do hospital. Como foi com Edgard Abbehusen, escritor com quase um milhão de seguidores em sua página no Instagram.

Ele conta que o hospital salvou a vida de sua irmã. Quando criança, ela teve um choque anafilático em um hospital de Salvador, e foi diagnosticada erroneamente com meningite. Identificado o erro, ela foi transferida para o Martagão, mas já com lesão motora e com graves consequências neurológicas, sem chances de sobreviver. Lá, foi reabilitada. “Hoje ela está viva e com 30 anos. Não fala, não anda, mas se não fosse o Martagão, ela não estaria viva”, conta Edgard.

Para ele, a crise causada pela covid-19 exige o posicionamento de influenciadores digitais. “Acredito que não custa nada a gente entrar nesse movimento. Se eu conseguir mobilizar cinco, seis doações, já é alguma coisa”, pontua. A campanha já arrecadou 21% da meta total.  Você pode ajudar o hospital neste link. As doações podem ir de R$ 25 a R$ 1 mil.

COMO AUMENTAR AS ARRECADAÇÕES DA SUA CAMPANHA

No momento de dificuldade, qualquer pessoa pode tentar iniciar uma campanha de ajuda a alguém que precisa, algo que pode esbarrar num obstáculo. Como fazer com que as pessoas ajudem? Dilema comum, foi algo que o Alma Preta e a Uneafro precisaram aprender ao longo da primeira arrecadação que fizeram.

A primeira barreira a ser vencida é como fazer a campanha viralizar. “As primeiras doações sempre são do círculo próximo. Se ela não consegue começar o círculo do bem, a campanha não funciona”, diz Luiz Felipe Gheller, fundador do Vakinha.

Lucia Barros, doutora em administração, na linha de estudos comportamentais, especialista no tema de doações e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas  (FGV), separou 10 tópicos para fazer com que sua campanha online possa levantar mais recursos:

1. As pessoas doam mais com informações tangíveis. Por exemplo, o dinheiro arrecadado será usado para comprar alimentos (em vez de apenas “para a ajudar”).

2. As pessoas precisam entender a necessidade da doação. Por que a doação dela fará a diferença?

3. Em plataformas de crowdfunding, campanhas tudo-ou-nada tendem a ser mais bem sucedidas do que as flexíveis.

4. Campanhas mais curtas tendem a ser mais bem-sucedidas.

5. O planejamento da campanha deve ser feito antes de lançar a campanha, nunca durante

6. O primeiro dia da campanha é o mais importante. Quando ele é fraco, a campanha como um todo tende a fracassar.

7. Campanhas de doações são um esforço de marketing + vendas: quem foca apenas em comunicação arrecada menos do que o esperado (tem que ficar ligando para as pessoas e cobrando as contribuições).

8. Por conta do novo coronavírus, as pessoas estão ajudando mais. Se por um lado, estão mais propensas a ajudar, por outro lado, a concorrência é maior. As pessoas tendem a escolher um ou poucos beneficiários. Por isso, mostrar a necessidade é ainda mais importante.

9. A meta de uma campanha não deve ser arbitrária, mas sim um cálculo de preço x quantidade. Ou seja quantas pessoas vão doar x tíquete médio da doação. Igual a qualquer projeção de vendas de uma empresa

10. A conversão em crowdfunding é super baixa. Não adianta entrar no site e deixar para doar depois. O texto e o vídeo da campanha devem ter um forte call to action.

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