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Sempre rir: Danilo Gentili

Redação Divirta-se

08 Novembro 2012 | 20h38

Sempre Rir é a matéria de capa do Divirta-se (edição do dia 9/11/2012), que mapeou o cenário do humor em São Paulo. Foram tantas entrevistas que não couberam nas páginas impressas. Mas, aqui no site, você encontra todas elas.

 

Entrevista na íntegra com o comediante Danilo Gentili.

 Foto: Ivan Dias/Estadão
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Como soube que queria ser comediante?


Na escola, alguns colegas mostravam aptidão pra química, outros pra matemática, outros história. Minha aptidão era ficar falando besteira e atrapalhando a aula o tempo inteiro. Então eu acho que ali já decidi que queria ser isso.

Como foi a sua entrada no Clube da Comédia? 

Eu conheci o Clube da Comédia através do Orkut. Inclusive o Orkut, tão zoado por nós comediantes, teve um papel gigante para reunir as pessoas que amavam esse gênero de comédia e não se conheciam. Foi ali, numa comunidade chamada ‘Comédia Stand-up’ que encontrei Henrique Pantarroto, Marcela Leal… e descobri que estava se iniciando um grupo chamado Clube da Comédia. Eu fui assistir a uma de suas primeiras apresentações, no bar Beverly Hills, em Moema. Conheci o pessoal, mandei um texto que a Marcela Leal leu, e ela me convidou para fazer. E então depois de um tempo eu entrei no Clube, que foi idealizado e liderado pelo Marcelo Mansfield. Depois, eu formei meu próprio grupo que até hoje está em cartaz em São Paulo, o chamado Comédia ao Vivo, onde a Dani Calabresa, inclusive, iniciou o stand-up. Foi em uma época da minha vida que eu tinha perdido tudo que você possa imaginar, família, emprego, dinheiro, namorada… E com esse gênero eu encontrei novos amigos, e muitos deles são mais chegados que irmão. Encontrei uma carreira e realizei o sonho de qualquer ser humano, que é ganhar a vida fazendo o que gosta. Tenho muito carinho por esse momento da minha vida e pelas pessoas que ali estavam e foram receptivas comigo.
 
Como você decidiu abrir o Comedians? De onde veio a ideia?

Desde as primeiras vezes que dividimos camarins nos primeiros shows de stand-up, a criação de um comedy club era uma conversa recorrente. Tinha o Beverly Hills, que foi o primeiro estabelecimento assim aqui no Brasil. Mas a maioria dos lugares que garimpávamos uma noite de stand-up eram restaurantes ou botecos adaptados, e não um local com a estrutura pensada pra esse tipo de show. Depois de alguns anos, surgiu um comedy club em Curitiba – que eu admiro muito, pois dá espaço pra muita gente nova e boa apresentar seu trabalho. Mas eu achava que faltava um Comedy Club construído do zero e 100% pensado nessa modalidade. Hoje, o Comedians é uma casa que apresenta lugares confortáveis, visibilidade do palco… você pode sentar em qualquer canto do bar, e você vai ter uma boa visão. É uma casa pensada para o garçom não atrapalhar, com cardápio diferenciado… tem até mesmo uma loja especializada no gênero no local; o principal material de stand-up produzido aqui no Brasil está ali na nossa vitrine. Enfim, um comedy club erguido para ser o melhor possível para esse tipo de entretenimento.
 
O grande trunfo do Comedians  é ter sempre bons humoristas na programação, independente de quem se apresente.

Eu posso dizer que conheço o nome de todos os que fazem esse tipo de humor no Brasil. Eu estou sempre perguntando para os colegas quem tem surgido, quem é bom, quem não é. Confiro vídeos deles. Sei quando alguém cria o próprio material ou quando rouba o texto, e também quando está apenas enrolando. Se você me perguntar agora: “Preciso de um comediante com perfil X ou com material que fale sobre Y”, eu vou saber indicar de bate-pronto ótimos nomes para você escolher. Eu procuro estar completamente inteirado no meio. E tenho muito cuidado com quem está começando, pois eu fui um cara que estava começando um dia e tive gente tentando impedir meu crescimento. Sei como isso é ruim. Então, sempre que eu posso e vejo que a pessoa tem potencial, procuro conhecer o material dele, indico pra Fernanda, que é nossa produtora artística, para que essa pessoa seja convidada para ir no bar e mostrar seu trabalho. E se essa pessoa mandar bem, entra na nossa lista de ‘casting’ que chamamos com frequência para as noites do bar. O Italo Gusso, meu sócio no empreendimento, também acompanha esses nomes.

 

Vejo um pessoal que se apresenta no Comedians no seu programa, o  ‘Agora É Tarde’.

Sim. Com frequência, você encontra rostos desconhecidos fazendo ótimas piadas em meu ‘Late Night’ (o ‘Agora É Tarde’, na Band), principalmente na Mesa Vermelha, que é um quadro do programa. São oriundos desse meio, que eu considero o mais justo da comédia.

 

Não deve ser fácil subir no palco sozinho, sem cenário, sem figurino…

Pois é. Você pode ser a pessoa mais amada do Brasil, tipo a Ivete Sangalo, mas se você subir no palco e o que escreveu e disse não for engraçado, não vão rir por caridade ou carinho. E você pode ser um completo desconhecido com qualquer característica física, religiosa, ou o que possa imaginar, e se você for engraçado, a risada te responde na hora que eles querem ouvir mais de você. Não tem peruca, não tem piada dos outros… é só você… nu e cru. Por isso, eu acho que um lugar como o Comedians é um celeiro de comediantes, um local onde, inclusive, produtores de TV e criadores de shows podem frequentar quando estiverem atrás de talentos para atuar, escrever ou mexer com comédia em qualquer nível. Ele sempre vai encontrar alguém com potencial ali. Costumo dizer que quem manda bem de cara limpa, em um bar cheio de bêbados, está apto para crescer em qualquer outra modalidade de comédia, pois o stand-up é a prova de fogo. E eu procuro conhecer quem está começando, sempre. É o tipo de cuidado que eu tenho pelo gênero, pelo Comedians e também por um egoísmo meu… me sinto bem sabendo que posso acrescentar algo na vida de quem tem esse objetivo e está procurando uma brecha pra começar. Já fui recebido com hostilidade por alguém no início, e sei como isso é ruim.
 
Você deixou um pouco o palco de lado para se dedicar ao ‘CQC’ e depois ao ‘Agora É Tarde’ na televisão. Você teve dificuldade em adaptar seu humor para a TV? Aplicá-lo a entrevistas, por exemplo?

Não. Acho que o segredo de tudo é a sinceridade no que faz. Eu só fiz stand-up até hoje porque, do fundo do coração, era o que eu mais gostava na vida. A história é sempre um pouco mais longa e complexa do que quando contada em entrevistas que devem ser breves, mas, ao longo do tempo, em todo lugar que passei ouvi que eu não servia pra coisa. Ao sair de Santo André e tentar um gênero que não existia em São Paulo, ouvia isso de amigos. No próprio Clube da Comédia, cheguei a ouvir isso de alguém lá de dentro. Depois, quando fui cogitado pra fazer uma ponta no ‘CQC’, como repórter inexperiente, ouvi isso de alguém também. Depois, quando o Repórter Inexperiente estourou no inicio do ‘CQC’ e fui chamado para integrar o programa e cobrir Brasília, também ouvi de alguém que não daria certo porque já era marcado como inexperiente e não funcionaria. Ouvi isso também quando fui fazer outro quadro dentro do programa. E ouvi quando levei o projeto de late night para a Band em 2009. Quando pensei em abrir o Comedians, ouvi também que não daria certo. Depois que o ‘Agora é Tarde’ foi ao ar, com ótimas críticas e audiência e ganhamos mais um dia, ouvi de alguém que não daria certo se fosse diário. E hoje mesmo, se quer saber, ouvi alguém dizer que não sou a cara dos projetos que estou tocando no cinema. Acredito que quem lê isso agora também sempre ouve alguém dizendo que algo é muito legal, mas não pra você… então, o segredo de tudo é sinceridade. Faça, sinceramente, o que gosta, e, enquanto você cresce, aquele alguém estará no mesmo lugar dizendo que o próximo que está chegando não pode também.
 
Você pensa em estrear novas temporadas no teatro? Algo para o ano que vem?

Não sei ano que vem. Sinto falta de sentar e escrever um repertório mais pessoal para um novo show de stand-up, mas o que eu pretendo fazer é a segunda edição do show que fiz dois anos atrás, quando apresentei um show inédito, 100% voltado para política na véspera da eleição presidencial (chamado ‘Politicamente Incorreto’) com transmissão ao vivo e gratuita pra todo mundo. Lembro que a transmissão do show foi recorde de audiência no UOL. Durante dois dias, mesmo com eleição presidencial rolando, estava no topo dos TTs (os ‘trending topics’, assuntos mais comentados no Twitter) com muita gente comentando e replicando as piadas. Eu cobri as eleições aquele ano em Brasília e em São Paulo no mesmo dia, e as pessoas me paravam na rua pra falar do show. Foi uma das coisas que mais gostei de fazer até hoje. O show virou livro, DVD e até hoje é bem acessado na internet. Pretendo repetir a dose em 2014. Fazer o ‘Politicamente Incorreto 2’. Aliás, agradeço aos políticos e juízes do STF, que têm me dado material para isso desde já.

 

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