Conheça a história de quatro artistas que mantêm ateliês em SP – e saiba onde ver suas obras
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Conheça a história de quatro artistas que mantêm ateliês em SP – e saiba onde ver suas obras

Júlia Corrêa

07 de novembro de 2019 | 15h35

A ideia de que artistas têm ímpetos criativos e criam tudo de modo quase instantâneo sempre rondou o imaginário dessa carreira. A rotina deles, no entanto, costuma ser bem mais trabalhosa, com muita reflexão e disciplina na escolha de temas e materiais. Para desvendar parte desse universo, o Divirta-se visitou o ateliê de quatro artistas que pertencem a uma geração nascida entre as décadas de 1970 e 1980. Felipe Cohen, Janaina Mello Landini, Marina Weffort e Felipe Góes abriram as portas de seus estúdios e revelaram curiosidades de suas trajetórias e seus processos criativos.

Foto: Leandro Souza

Alguns deles têm exposições em cartaz ou trabalhos em acervos de museus. Em outros casos, é possível ver suas obras nas reservas técnicas dos locais que os representam comercialmente. Este, aliás, é um bom pretexto para visitar as sempre tranquilas galerias de arte – basta chegar e pedir para ver as obras do artista, e, com sorte, você pode até ganhar explicações especializadas do atendente. Os relatos dos artistas ainda geraram um vídeo feito em parceria com a TV Estadão.

FELIPE COHEN

Foto: Leandro Souza/Estadão

“A formação em arte se dá muito com o tempo, no ateliê, em um caminho muito individualizado; você desenvolve sua poética no dia a dia mesmo”, avalia Felipe Cohen, que, antes de se firmar como artista, atuou como ilustrador e professor. Atualmente, ele produz obras como esculturas e colagens em um estúdio na Vila Romana.

Nessa rotina, relata que seu processo criativo tem como ponto de partida o desenho – ele, então, procura materiais que deem conta das ideias surgidas com tais traços, em diálogo com diferentes áreas. Em sua última exposição, ‘Tardinha’, por exemplo, seus relevos e esculturas representavam paisagens que incorporavam referências ligadas à Bossa Nova – desde a música de João Gilberto até a geometria da arquitetura do período.

A mostra ocupou a Galeria Millan (R. Fradique Coutinho, 1.360, Pinheiros, 3031-6007; 2ª a 6ª, 10h/19h; sáb., 11h/18h; grátis), à qual ele é ligado desde 2012. Atualmente, o local guarda várias obras de Cohen em seu acervo, que podem ser mostradas aos visitantes interessados. Também vale acompanhar a programação da Pinacoteca (Pça. da Luz, 2, Luz, 3324-1000; 4ª a 2ª, 10h/18h; R$ 10) e do MAM (Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 3, V. Mariana, 5085-1300; 3ª a dom., 10h/18h; R$ 7), que têm obras do artista em sua coleção e as exibem esporadicamente.

MARINA WEFFORT

Foto: Leandro Souza/Estadão

A produção mais recente de Marina Weffort consiste em formar imagens geométricas retirando fios de panos pré-fabricados. Na medida em que explora as possibilidades dos tecidos, passando horas em seu ateliê para encontrar pontos precisos de cortes do material, a quietude e a introspecção acabam por marcar sua rotina. No dia em que recebeu o Divirta-se, a artista finalizava os trabalhos que são exibidos, até 14/12, em uma exposição individual que ocupa a Sim Galeria (R. Sarandi, 113, Cerqueira César, 3062-8980; 2ª a 6ª, 10h/19h; sáb., 10h/15h; grátis).

Quando se formou em artes plásticas, na Faap, Marina já tinha convicção de que queria ser artista. No entanto, preferiu trabalhar com outras atividades relacionadas ao meio, enquanto amadurecia suas ideias na busca por uma trajetória “genuína”. Assim, atuou como assistente de artista, de produção e também cuidou de uma coleção. “Eu encaro tudo isso como um processo até eu decidir que eu ia mesmo viver de arte”, revela a artista, que mantém sua rotina de trabalho em um ateliê instalado no fundo de sua casa, na Vila Madalena, em um local silencioso e arborizado.

Lidar com a obra de outros artistas acabou lhe dando segurança para lidar com seu principal material de trabalho. “A delicadeza do tecido me assustava um pouco, mas eu fui vendo que era possível. O material que você escolhe te exige e você rebate – tem sempre um certo diálogo ali.”

Como ela recorda, até chegar no estágio atual de sua carreira, precisou criar diferentes maneiras de dar visibilidade ao seu trabalho, recorrendo, sobretudo, a espaços mais abertos a jovens artistas. Em 2009, Marina foi selecionada e premiada por um edital do CCSP, oportunidade que lhe rendeu um convite para integrar o time da Galeria Marilia Razuk – com a qual trabalhou até 2018, quando passou a ser representada pela Sim. Nem sempre foi um caminho estável, mas, como explica, a estabilidade, para ela, está muito mais ligada à fluidez de seu processo criativo.

JANAINA MELLO LANDINI

Foto: Leandro Souza

+ Após se formar em arquitetura, Janaina Mello Landini ingressou no curso de belas artes, mas não foi até o fim. Foi convidada, na época, para coordenar as montagens do instituto de arte contemporânea Inhotim, em Brumadinho (MG). “O meu trabalho próprio era um sonho; a ideia de artista ser uma profissão era muito distante da cabeça de quem me criou.”

Hoje, ela é ligada à Zipper Galeria (R. Estados Unidos, 1.494, Jd. America, 4306-4306; 2ª a 6ª, 10h/19h; sáb., 11h/17h; grátis), que abre o acervo da artista aos visitantes interessados em ver sua obra. O trabalho da mineira, cujo início foi incentivado por Cildo Meireles, seu “mestre”, é marcado pelo diálogo entre disciplinas como a matemática, a arquitetura e a física – remontando, segundo ela, a uma tradição mais antiga, pautada pela observação dos ciclos da natureza, feita por nomes como Leonardo da Vinci.

Ao entrar em seu ateliê, nos Campos Elísios, que ela trocará em breve por um mais espaçoso, é possível conferir a intensa produção do que é o principal desdobramento de suas observações – a série ‘Ciclotramas’, feita com cordas que se desmembram, remetendo, por exemplo, ao fluxo de veias, raízes e até mesmo das redes da internet. Usando o neologismo que inventou para nomear a série, ela brinca que seu próprio processo é “ciclotrâmico”: “Se tiver algum tipo de bloqueio, basta pensar noutra coisa, e as respostas vêm”.

Conquistando projeção internacional, Janaina já integrou uma mostra no Museé du Textile et la Mode de Cholet, na França, e suas famosas tramas feitas com cordas podem ser vistas na sede do Facebook, em Menlo Park (EUA).

FELIPE GÓES

Foto: Leandro Souza

Ser artista não estava nos planos iniciais de Felipe Góes, que recebeu o Divirta-se em pleno processo de mudança para seu novo ateliê, em Santa Cecília. Lá, ele tem espaço de sobra para dispor suas grandes telas e seu arsenal de tintas, pincéis e cavaletes, com os quais pinta coloridas paisagens. Quando estudava arquitetura, ele sempre teve interesse por história da arte, mas não vislumbrava uma carreira na área. Dois anos depois de formado, viajou para conhecer museus europeus e teve uma experiência que, segundo ele, foi “transformadora”. Ao entrar na sala dedicada a Mark Rothko, na Tate Modern, em Londres, sentiu-se muito impactado pelas pinturas do artista, decidindo, então, começar a criar as suas próprias. De volta ao Brasil, buscou uma série de cursos, tendo como mestres nomes como o crítico Rodrigo Naves e o pintor Paulo Pasta.

Com carreira estabelecida há cerca de 12 anos, Felipe relata que começou produzindo pinturas abstratas, a partir das quais foi absorvendo noções importantes sobre as relações entre as cores. Mas, aos poucos, foi flertando também com a figuração. “Um dia, fiz um barquinho rosa num mar verde, enquanto ouvia Dorival Caymmi no meu ateliê; fiz a pintura e vi que se abriu uma porta de possibilidades.” Hoje, ele é mais conhecido por suas paisagens e, seguindo esse gênero tão tradicional na história da arte, tem Guignard como uma de suas principais referências.

O artista descreve seu processo criativo como um constante jogo de erros e acertos. “No fim, é uma sucessão de tentativas que vão deixando rastros na pintura.” No início, ele nem achava possível fazer parte de uma galeria, mas começou a expor em salões de arte e mostras coletivas. Passou pela Central Galeria, pela Virgilio e, agora, é representado pela Galeria Kogan Amaro (Al. Franca, 1.054, Jd. Paulista, 3045-0755; 2ª a 6ª, 11h/19h; sáb., 11h/15h; grátis), que abre sua reserva técnica para quem quiser ver as obras do artista. Em Itu (SP), um de seus trabalhos também está sempre exposto na Fundação Marcos Amaro (R. Pe. Bartolomeu Tadei, 9, V. S. Francisco, 3064-3556; 4ª a dom., 10h/17h; grátis).

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