O show tem que continuar: a música se organiza para pagar a cadeia produtiva durante a pandemia
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O show tem que continuar: a música se organiza para pagar a cadeia produtiva durante a pandemia

Redação Divirta-se

20 de maio de 2020 | 05h00

Danilo Casaletti, especial para o Estado

A cantora Elza Soares é uma das atrações do Nômade Festival, que vai antecipar o pagamento de seus colaboradores. Foto: Marcos Hermes

No samba-canção Antonico, da década de 1950, o personagem criado por Ismael Silva pede ajuda ao Nestor, que, de acordo com a letra, diz “estar vivendo em grande dificuldade”. “Ele é aquele que na escola de samba toca cuíca, toca surdo e tamborim”, completa o compositor. A paralisação das atividades culturais em virtude do novo coronavírus expôs a vulnerabilidade de muitos Antonicos. Não só músicos, mas de toda uma cadeia de profissionais – em geral, terceirizados ou freelancers – que faz shows e eventos acontecerem: roadies, técnicos de som, iluminadores, camareiros, seguranças, carregadores, equipes de limpeza, entre outros. Com o avanço das medidas de isolamento, empresas e músicos têm se organizado para que os trabalhadores da área possam ser socorridos – e para que o setor tenha fôlego para retomar suas atividades no pós-pandemia.

Uma das iniciativas terá início nesta semana. O Nômade Festival vai colocar à venda os ingressos para sua terceira edição, prevista para acontecer no dia 3 outubro. A renda será destinada para o adiantamento do pagamento de profissionais que trabalham nos bastidores – o festival afirma gerar mais de 900 empregos diretos. Com a programação ainda em aberto, o Nômade anuncia Caetano Veloso e Elza Soares como suas primeiras atrações. Os dois artistas concordaram em assinar um contrato que prevê uma possível transferência da data, algo possível de acontecer. A edição de 2019 teve atrações como Arnaldo Antunes e Anavitória, com um público de 12 mil pessoas.

“Em um primeiro momento, fizemos doação de alimentos. Porém, esses trabalhadores têm contas de água, luz, entre outras, para pagar. É uma questão humana ajudar quem sempre esteve conosco”, diz Juliano Libman, da Agência InHaus, que, junto com Luiz Restiffe, comanda o Nômade. De acordo com as projeções da empresa, a venda de 350 ingressos, por exemplo, pagaria equipe de limpeza, que tem cerca de 50 pessoas. Para pagar os 140 seguranças, seria necessário vender 459 ingressos. Outros 400 garantiram 50% dos cachês de toda a equipe técnica.

Os ingressos custam R$ 40 em meia-entrada – a modalidade representa 70% ou mais das vendas, segundo Restiffe, que afirma que haverá uma fiscalização por parte da agência para que o dinheiro seja distribuído pelas empresas parceiras para o pagamento dos trabalhadores. “Será feito um contrato para que haja transparência”, diz. Ele também garante que a empresa é saudável o suficiente para fazer o festival acontecer lá na frente.

Juliano Libman e Luiz Restiffe, do Nômade. Desafio é manter o mercado vivo após a pandemia

Outra preocupação da produtora é que o mercado continue vivo para quando tudo voltar à normalidade (ou ao chamado novo normal). “As pessoas vão querer ir a eventos, shows, teatro e cinema depois de tanto tempo em casa”, acredita Libman, que também está à frente dos festivais Farraial (de música sertaneja) e Sons da Rua, ambos marcados para novembro. Apesar do otimismo, a agência aguarda as orientações das autoridades para confirmar a realização dos eventos nas datas previstas e a capacidade de pessoas que serão permitidas.

Eles usam como base uma minuta da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo elaborada depois de uma roda de conversa com profissionais do mercado. O documento cita quatro fases para a retomada das atividades culturais. A primeira aconteceria 45 dias após o dia considerado como pico da epidemia no Estado (data ainda indefinida), e permitiria eventos com 35% do total do público, para cidades com menos de 50 mil habitantes. Já a cidade de São Paulo  poderia retomar os eventos 90 dias após o pico, também com 35% da capacidade – e seguindo protocolos de controle e higiene. A liberação do público total só aconteceria 165 dias após o pico da doença.

Apesar da existência desse documento, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa informou ao Estado que o planejamento para a retomada progressiva e segura das atividades ainda está em processo de elaboração pelo governo de São Paulo. “Os requisitos da flexibilização vão se basear em critérios técnicos que incluem, como fatores principais, a redução sustentada dos números de novos casos de covid-19 por 14 dias e a manutenção da ocupação dos leitos de UTI em patamar inferior a 60%. As medidas são semelhantes às adotadas por países como Estados Unidos, Alemanha, Áustria e China. A quarentena está mantida até 31 de maio”, diz a nota.

Ajuda aos independentes

Entre 30 de abril e 3 de maio, o evento online Devassa Tropical Ao Vivo – O Festival dos Festivais reuniu, em quatro dias, 34 atrações de diferentes regiões do País que representaram oito festivais – Bananada (GO), Carambola (AL), DoSol (RN), GTR (PE), Radioca (BA), Sarará (MG), Se Rasgum (PA) e Wehoo (PE). Artistas como Mallu Magallhães, Francisco El Hombre, Chico César, Jards Macalé e Tulipa Ruiz se apresentaram virtualmente para angariar fundos que serão divididos entre os produtores de cada festival. Ao todo, foram arrecadados R$ 70 mil.

“A iniciativa surgiu para minimizar o impacto que profissionais que atuam no backstage da cena musical brasileira estão sofrendo com o cancelamento de shows e eventos. Assim, a marca, que já era parceira dos festivais, manteve o patrocínio e encabeçou a realização de um evento online”, diz Gabriel D’Angelo Braz, diretor de marketing da Devassa. A verba, segundo os organizadores, será revertida para roadies, operadores, técnicos e demais colaboradores.

Músicos unidos

O pianista Benjamim Taubkin criou plataforma para doações. Foto: Antonio Brasiliano

Um post do pianista e compositor Benjamim Taubkin gerou a ideia do Conexão Música, uma espécie de fundo emergencial. Ele, depois de um tempo mais recolhido nesta quarentena, alertava para a questão de que muitos colegas de profissão, além de produtores, agentes, roadies e técnicos, estavam passando por dificuldades nesse momento de atividades suspensas. Taubkin se juntou a outros nomes da música, como o guitarrista Nelson Faria e a cantora Socorro Lira e pretende, por meio de doações, distribuir três parcelas de R$ 150 mensais e sequencias para os profissionais do setor.

As contribuições poderão ser feitas por meio do site conexaomusica.com.br. Nesse mesmo endereço será possível, a partir de 25 de maio, fazer um cadastro para se candidatar ao auxílio – o profissional deve ter documentos que comprovem que exerce alguma função ligada à música. Lançado no dia 12 de maio, o projeto recebeu, nos dois primeiros dias, 100 doações. “Esse movimento é um alerta aos músicos e produtores, para que eles se unam, que olhem mais para o seu quintal”, diz Taubkin. O projeto não tem uma meta de arrecadação, só o desejo de que haja o suficiente para ajudar o maior número de profissionais possíveis.

“Manter essa campanha viva, ao logo do tempo, é o nosso maior desafio”, completa. A expectativa é que o pagamento do auxílio comece até o fim de maio. Taubkin pede ainda que o governo federal olhe para a questão do direito autoral, o que evitaria que muitos músicos, que recebem direitos autorais e conexos, tivessem uma renda para momentos de emergência como o atual. “A música migrou para as plataformas digitais e redes sociais. Agora, é preciso ter um milhão de players para ganhar o que se ganhava vendendo mil discos. Isso sem falar nas rádios, que só tocam as mesmas 30 músicas”, diz.

Os músicos do Samba do Trabalhador, cujas apresentações são lideradas pelo compositor Moacyr Luz , estão igualmente mobilizados para ajudar todos aqueles que fazem o espetáculo acontecer. Sem as apresentações presenciais – – realizadas há 15 anos, toda segunda-feira, no Clube Renascença, na zona norte do Rio de Janeiro –, o dinheiro da entrada, que pagava a turma toda, parou de entrar. A solução encontrada foi uma vaquinha virtual, que pretender arrecadar fundos para pagar músicos, produtores, seguranças, bilheteiros, entre outros profissionais.

Enquanto as apresentações presenciais do Samba do Trabalhador não voltam, os fãs podem curtir as lives realizadas no dia já consagrado pelo grupo: às segundas-feiras, a partir das 17h, com um elenco formado por Luz, Alexandre Marmita, Negro Álvaro, entre outros. As lives são divulgadas no perfil de Moacyr Luz no Instagram: @moaluz.

Vida noturna

A Tokyo continuar a existir, mesmo que virtualmente, por ora. Foto: Marcos Bacon

A Tokyo, badalada casa da noite paulistana, localizada na região central da cidade, também se mobiliza para não deixar cerca de 100 pessoas, entre funcionários e parceiros, sem renda durante o período que o isolamento social durar – ainda não há estimativa de data para reabertura. A ajuda veio em parceria com a marca de bebida Jägermeister, dentro da iniciativa global #SaveTheNight. Durante todas as sextas-feiras do mês de maio, a partir das 19 horas, a marca vai financiar apresentações de DJ’s – cada um em sua casa –, que servirão de incentivo para o público adquirir vouchers que poderão ser trocados por bebidas ou brindes na casa noturna quando ela voltar a funcionar. Haverá ainda a possibilidade de doação em dinheiro, destinada para coletivos como Backstage Invisível, Ajude1Freela e Coquetelaria em Vertigem.

A transmissão será no canal do YouTube da Tokyo. “Agora que a vida noturna e todos os envolvidos nela estão ameaçados, achamos que é nossa obrigação contribuir de alguma forma. Por isso, desenvolvemos um fundo global e uma série de projetos de apoio a esses profissionais que trabalham na noite”, diz Luisa Benvenuto, responsável pelo marketing da marca. Para a Tokyo, a ajuda é muito bem-vinda. “Esse tipo de ação é bastante significativa para seguirmos produzindo e vendendo nosso produto e serviço e, assim, continuarmos existindo, mesmo que virtualmente, para nossos clientes”, diz Junior Passini, sócio da Tokyo.

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