O que podemos aprender com os brasileiros recém-saídos da quarentena na China
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O que podemos aprender com os brasileiros recém-saídos da quarentena na China

Redação Divirta-se

08 de abril de 2020 | 05h00

CONTEÚDO ABERTO A NÃO-ASSINANTES

Danilo Casaletti
ESPECIAL PARA O ESTADO

Na segunda-feira, o governador João Doria anunciou que a quarentena no Estado de São Paulo seria estendida até 22 de abril. Por aqui, o processo, cujo objetivo é diminuir a contaminação pelo novo coronavírus, está apenas começando. Brasileiros que vivem na China, contudo, já passaram por essa experiência. Agora, tentam retomar a rotina de antes do surto de covid-19. Mas até que ponto isso é possível?

Quando desembarcou na cidade chinesa de Dalian, a cerca de 800 km de Pequim, em 20 de dezembro, o paulistano Anderson Arcanjo, de 29 anos, dava início a um sonho. Atleta e professor de muay thai, ele deixou para trás cinco anos de trabalho na Team Nogueira, respeitada academia de luta fundada por Rodrigo Minotouro, para ter uma experiência internacional e tentar alcançar certa independência financeira. Onze dias depois, autoridades chinesas revelaram ao mundo que um tipo grave de pneumonia havia sido detectado em 41 pessoas.

O lutador Anderson Arcanjo em foto tirada na China. Foto: Arquivo Pessoal

Com a primeira morte no país anunciada em 11 de janeiro, foi questão de tempo para que os casos da doença aumentassem na China e as autoridades locais decretassem uma severa quarentena em diversas cidades, inclusive em Dalian. O início do isolamento coincidiu com as férias do Ano Novo Chinês, em 25 de janeiro. Depois dos festejos, a ordem era clara: ficar em casa, evitando ao máximo o contato social.

A professora de inglês Claudia Castro, que, há cinco anos, mora em Ningbo, a mais de mil quilômetros de Pequim, estava em Bali, curtindo as férias com a família, quando começou o isolamento social. Ao perceber a gravidade da situação e com a escola em que dava aulas fechada, ela veio para o Brasil, ficar com parentes. Deu aulas online para seus alunos chineses – até que a escola avisou que as tratativas para a volta às aulas estavam adiantadas. Ela, então, retornou, há quatro semanas, para a China – ao chegar, ficou de quarentena por 14 dias.
Ambos vivenciaram esse período de maneiras bem distintas. E, mesmo com os momentos de tensão, mantêm um olhar otimista, ainda que a vida não tenha voltado 100% ao normal.

Durante os 50 dias que ficou dentro do apartamento que divide com outro brasileiro, Arcanjo, que só podia sair de casa de dois em dois dias para fazer compras ou colocar o lixo na rua, viu sintomas de sua ansiedade se agravarem. Pensou em voltar para o Brasil. Derrotou esses sentimentos fazendo uma lista com afazeres básicos diários. Tinha hora para tudo.

Novo ‘normal’. Arcanjo já voltou para a academia em que dá aulas, mas só para treinar. Até os sacos de treinamento foram trocados. Os alunos ainda demorarão mais um tempo para retornar, até que tudo esteja mais seguro – o país teme uma segunda onda do coronavírus, sobretudo por conta de “casos importados”, trazidos por moradores que agora retornam do exterior.

Ele conta a felicidade que sentiu com o fim das restrições de isolamento social: “Tive vontade de sair correndo e dar umas 30 voltas na praça que tem aqui perto de casa”, diz. O professor, que pretende ficar na China por mais três anos, afirma se sentir seguro ao andar pela cidade, ir à academia ou a uma lanchonete. “A vida está 90% normal, eu diria. Podemos sair às ruas, as lojas estão abertas”, conta. “A sensação é de liberdade.”

Claudia também começa a retomar a rotina. Quando retornou do Brasil para Ningbo com o marido e as duas filhas, de 10 e 14 anos, a família enfrentou uma quarentena rigorosa. Na porta de seu apartamento, havia um sensor que avisava as autoridades se ela saísse de casa. No celular, precisou baixar um QR Code que emitiria um alerta vermelho caso ela tentasse entrar em algum estabelecimento. Uma pessoa designada pelas autoridades locais fazia as compras da casa. Médicos e policiais ligavam para saber como estava a saúde da família. Eles não ficaram doentes.

Claudia e família na China. Foto: Arquivo Pessoal

Na escola onde leciona, foi chamada para participar de um treinamento a fim de preparar a volta às aulas, em 13 de abril. “Treinamos sobre como receber os alunos, medir a temperatura deles e mantê-los a uma distância segura uns dos outros.”

Enquanto as aulas presenciais não começam, Claudia e a família já passeiam pela cidade. Mas algumas coisas mudaram: o uso de máscara nas ruas, por exemplo, ainda é obrigatório. O passeio em um shopping agora tem como adicional um funcionário designado para medir a temperatura de quem entra. E mesmo comer no McDonald’s ganhou uma nova conotação: com o lanche, vem um cartão informando que a temperatura dos atendentes que prepararam a refeição estava abaixo de 37,5ºC.

Diferentes reações. Anderson e Claudia encararam o fim do isolamento social de forma positiva, com ânimo para voltar às atividades cotidianas e planos para o futuro. Mas nem todos podem reagir assim, diz a psicóloga e terapeuta familiar Helena Maria Santos Parolari. “Eles fazem parte das pessoas que têm um perfil mais alegre, resiliente”, analisa. Segundo ela, pessoas mais angustiadas ou dramáticas tendem a perceber apenas o tema principal do momento, que é a doença e as incertezas. Para a psicóloga, essas pessoas vão reagir de uma forma mais pessimista quando o período de isolamento acabar.

Helena Maria acredita que medidas governamentais socioeducativas, que incluam cuidados com a saúde em geral, serão importantes quando a quarentena terminar. E não só do ponto de vista sanitário, mas também psicológico: isso faria, segundo ela, as pessoas se sentirem mais seguras. Para ela, não se deve ignorar os próprios sentimentos: buscar ajuda profissional é importante, e há vários grupos que oferecem suporte online e gratuito.

Mudanças. Claudia acredita que, no Brasil, as coisas também retomarão seu curso em breve. “Vejo meus amigos aflitos no Brasil e o que posso dizer é: vai passar, a vida vai voltar ao normal.” Algumas atitudes, no entanto, permanecem. “Não tem como não conservar alguns hábitos, porque o susto foi muito grande”, diz Claudia.

Segundo ela, a família sai menos de casa e, quando sai, o álcool em gel está sempre a postos. “A mão a gente lava toda hora. Legume a gente tira das embalagens, joga fora, lava tudo. É uma lição que veio para ficar.”
Anderson sente o mesmo. “Com certeza, vou conservar os hábitos da quarentena”, diz. “Vou continuar tirando os sapatos, lavando as frutas, lavando as mãos.” O conceito de normalidade, de fato, mudou.

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