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'O Mercado de Notícias', novo filme de Jorge Furtado, estreia hoje no É Tudo Verdade

Redação Divirta-se

09 Abril 2014 | 13h00

Embora já fosse próximo ao tema há bastante tempo, Jorge Furtado só teve a ideia de filmar Mercado de Notícias – que estreia hoje, às 21h, e tem outra sessão amanhã, às 15h, no Cine Livraria Cultura – em 2006. O diretor gaúcho cursou jornalismo e tem o hábito de ler mais de um jornal diariamente há muito tempo, mas foi preciso um escândalo envolvendo PT e PSDB para que começasse a matutar o argumento de um documentário sobre jornalismo. Com o estouro do chamado “Escândalo dos Aloprados”, em que petistas foram presos por tentar comprar com fundos de origem incerta um dossiê falso que ligaria José Serra, o candidato ao governo de São Paulo na época, à chamada máfia dos sanguessugas, Furtado percebeu que alguma coisa estranha acontecia. Era uma das versões mais politizadas que vira da mídia: “Eu vi que aquilo estava virando uma campanha, com a imprensa assumindo uma posição política muito clara. Foi uma coisa que foi até expressa pela Judith Brito [presidente da Associação Nacional de Jornais, à época da declaração, em 2010]: a imprensa se assume oposicionista por causa de uma oposição muito fragilizada”.

Naquele momento, decidiu que faria um documentário em defesa do bom jornalismo. “Sem o qual não existiria democracia. Eu vivi metade da ditadura e prefiro a democracia”, completa. Para além das questões políticas que queria levantar, o documentarista tinha vontade de abordar uma revolução que compara à invenção da imprensa. “Gutemberg mudou tudo. Quando os livros deixaram de ser ojetos de arte e passaram a ser objetos de consumo popular, o mundo virou outro. E nós estamos vivendo uma revolução equivalente a essa, que é a transformação da internet, do jornalismo digital, que potencializou geometricamente uma coisa que já acontecia”, conta.

A pesquisa sobre o assunto acabou dando forma ao documentário. Enquanto lia “Uma História Social da Mídia”, de Peter Burke e Asa Briggs, descobriu a peça “The Staple of the News”,  de Ben Jonson, dramaturgo inglês contemporâneo de Shakespeare. Encantado pela peça e pelos temas que ela levantava sobre a imprensa, Furtado decidiu incorporá-lo a seu filme. “A peça foi escrita em 1625 e o nascimento do primeiro semanário em inglês é de 1622, 3 anos antes. Com três anos de existência, Jonson escreveu uma sátira do jornalismo de maneira que até hoje ela é muito válida”, comenta. Furtado sabia que encenaria  a peça, mas havia um problema: “O Mercado de Notícias” não tinha tradução para português. A solução, então, foi traduzi-la com Liziane Kugland, um trabalho que durou cerca de três anos, por causa da linguagem arcaica e das piadas internas do texto.

O resultado do trabalho de quase sete anos é um documentário que mescla realidade e ficção, além de duas paixões de Furtado: o teatro elisabetano e o jornalismo. No filme, a encenação da peça com jovens atores é montada paralelamente à uma série de entrevistas com 13 jornalistas e o que furtado chama de “minidocumentários” sobre momentos específicos da cobertura da mídia política.

Um dos acontecimentos que acabou filmando, durante a produção do filme, foram as chamadas Jornadas de Junho, uma série de protestos desencadeados no ano passado após o aumento da passagem do transporte público. Ao longo dos vários desdobramentos políticos das manifestações, a cobertura midiática não deixou de ser criticada – para Furtado, no entanto, a imprensa fez o que pôde, com algumas ressalvas. “Eu achei a cobertura adequada, mas em grande parte confusa, porque ninguém entendeu o que estava acontecendo. Houve alguns micos. Essa mobilização e essa revolta intensas confundiram muita gente”, avalia. A política de um peso e duas medidas ainda prevalece em alguns momentos, de acordo com o cineasta.  “No caso do Amarildo [desaparecido em julho do ano passado, sendo a própria polícia a principal suspeita de tê-lo matado] e de outro rapaz baleado numa manifestação no rio, ninguém quis saber, averiguar. Por outro lado, se morre um policial, imediatamente o caso é investigado”, explica.

Se os meios se “contaminam” no filme, que é parte teatro, parte jornalismo e parte documentário, o processo de produção também foi permeável. O diretor mostrou a cada um dos 14 atores que encenam  “O Mercado de Notícias” as entrevistas que fez com os jornalistas, de Bob Fernandes a Luís Nassif. “Eu queria principalmente discutir com os atores o sentido do texto do Jonson. Os assuntos da peça são os assuntos que a gente discute até hoje, como o financiamento da imprensa”, explica. O projeto atravessa, ainda, os meios de exibição. No site de “O Mercado de Notícias” (http://www.omercadodenoticias.com.br/), será possível ver as entrevistas sem cortes com os jornalistas, a encenação praticamente inteira da peça, além de informações sobre ela e todas as matérias citadas no filme. Rafael Abreu