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Marco Nanini estreia 'Beije Minha Lápide', peça inédita de Jô Bilac sobre universo de Oscar Wilde

Redação Divirta-se

15 de janeiro de 2015 | 21h17

Há anos, Marco Nanini alimentava o sonho de entrar no universo artístico do escritor irlandês Oscar Wilde. Mas se impunha duas restrições: não gostaria de interpretá-lo nem tampouco montar um de seus textos. A partir de um fato real e atual, nasceu Beije Minha Lápide, peça escrita por Jô Bilac, com direção de Bel Garcia, que estreia hoje (16), no Sesc Consolação.

“Queria algo mais contemporâneo, com analogias à trajetória de Wilde. E o Jô (Bilac) me surpreendeu com este texto”, disse Nanini em entrevista ao Divirta-se. Ao compor o texto, Bilac achou importante traçar um paralelo entre o irlandês e o Brasil. “Há humor e doçura em suas observações. Ele era um romântico. Existe um certo romantismo também na nossa natureza”, considera o dramaturgo.

O enredo parte de um ritual praticado pelos fãs de Oscar Wilde: beijar sua lápide. Diariamente, diversos visitantes se dirigiam ao cemitério Père-Lachaise, em Paris, para se aproximar do túmulo e, com um beijo, registravam seu afeto pelo escritor. Para evitar seu desgaste e degradação, a família pediu que o local fosse protegido por paredes de vidro, causando a indignação dos visitantes.

Na peça, Nanini vive Bala, fã obsessivo de Wilde. Irritado por não poder se aproximar do túmulo, ele quebra a redoma e acaba detido. “Pensei as relações entre os personagens a partir do único elemento estético da proposta inicial, que era a caixa de vidro, ideia da Daniela Thomas (cenógrafa)”, justificou Bilac. “É um símbolo muito forte, faz referência ao túmulo de Wilde.” Em cena, as paredes de vidro ambientam a cela em que o protagonista está preso.

PERSONAGENS SECUNDÁRIOS

Roberta
Interpretada pela atriz Carolina Pismel, a advogada surge na prisão com o objetivo de tirar Bala de trás das grades. Ao mesmo tempo ingênua e esperta, Roberta tenta superar a teimosia de seu cliente para ganhar sua confiança. Para isso, chega a se mostrar corruptível.

Tommy
Paulo Verlings dá vida ao carcereiro de Bala, com quem desenvolve uma relação amistosa que, por vezes, ganha tons eróticos. Sua personalidade segue uma trajetória que se altera nas últimas cenas.

Ingrid
Filha de Bala, a personagem de Júlia Marini atua como guia no cemitério Pére-Lachaise. Indignada com a prisão do pai, ela tenta visitá-lo na cadeia, mas ele raramente a recebe, o que a deixa irritada.

 

ENTREVISTA: Marco Nanini

‘Beije Minha Lápide’ é a realização de muitos desejos de Marco Nanini: envolver-se artisticamente com Oscar Wilde, trabalhar com Jô Bilac e dividir a cena com representantes da nova geração. O ator conversou com o Divirta-se e contou detalhes de seu processo criativo.

Por que este título?
Partimos de um acontecimento real, o cerco da sepultura de Wilde por uma barreira de vidro.

E quem é Bala?
É um famoso escritor contemporâneo e fã ardoroso de Wilde. Indignado com a impossibilidade de se aproximar do túmulo, ele quebra essa barreira de vidro e acaba preso.

Seu personagem passa quase todo o tempo da peça cercado por uma parede de vidro. Ao ver Bala em cena também estamos vendo Wilde?
O cubo de vidro foi uma ideia cênica para a construção de uma prisão moderna, uma analogia à proteção do túmulo de Oscar Wilde.

Por citar diversos elementos da vida de Oscar Wilde, o enredo se desenvolve a partir desta prisão ou o que vemos é uma biografia do escritor irlandês?
A obsessão de Bala por seu ídolo faz a peça ter várias analogias. Por exemplo, dentro da cela ele começa a escrever uma carta para Oscar Wilde, com frases que são de autoria do escritor. Ou seja, seus sentimentos convivem com os mesmos sentimentos dele.

Wilde passou alguns anos de sua vida encarcerado e foi quando escreveu ‘De Profundis’. A carta de Bala tem algo a ver com a obra?
Você pode achar que sim ou não. A intenção da peça não é fazer seu próprio ‘De Profundis’, mas trata-se, ao mesmo tempo, de uma conexão simbólica com Wilde. O texto evita o didatismo, pois se alguém não tiver nenhum conhecimento sobre a vida desse autor, entenderá a trama. Há outras pontuações, um pouco mais oblíquas, como o posicionamento de Bala a respeito do preconceito contra negros e gays.

Como essa questão é abordada?
Vou dar um exemplo: em determinado momento, sua advogada diz que ele infringiu o código penal e praticou coisas proibidas. E Bala responde que ‘proibido’ é negar afeto. Aí, ele mostra sua visão humanista, de que todos podem ter afetos por outras pessoas. É uma referência indireta ao preconceito e à postura, dita excêntrica, de Wilde.

Assim como Bala, você também é fascinado por Oscar Wilde?
Há tempos eu queria fazer algo sobre o universo dele, mas não queria interpretá-lo e também não queria fazer alguma peça escrita por ele. Foi quando o Jô Bilac (autor) pegou o mote da barreira de vidro e desenvolveu essa trama.

É sua primeira peça com Jô Bilac?
Sim. Assisti a algumas peças dele e gostei muito, como ‘Rebu’ (2009), ‘Cucaracha’ (2012) e ‘Conselho de Classe’ (2013). A princípio, ‘Beije Minha Lápide’ seria um monólogo, mas eu não quis, pois minha obra anterior (‘A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe para Pedir um Aumento’) era nesse formato. Queria contracenar com outros atores.

E o elenco?
Vou confessar uma coisa: já fui diretor de teatro e sou péssimo em escalação, nunca me meto nisso (risos). O Jô, que trabalha ao lado da Cia. de Teatro Independente, chegou com os atores, e me surpreendi. Essa nova geração é muito boa, disciplinada e séria. Fiquei encantado com eles.

Pensa em voltar a dirigir algum espetáculo?
De forma alguma. Tive minha experiência, foi boa, mas é muito chato (risos). Prefiro atuar.

 

TRÊS MOTIVOS PARA VER A PEÇA
1. As duas últimas peças de Marco Nanini, ‘Pterodátilos’ (2011) e ‘A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe…’ (2013), tiveram salas cheias e boa recepção do público.
2. O autor Jô Bilac e a diretora Bel Garcia repetem a parceria após o sucesso de ‘Conselho de Classe’, eleito melhor espetáculo de 2014 pelo ‘Divirta-se’.
3. Apesar do fundo histórico, a peça toca em temas atuais, provocando uma reflexão sobre preconceitos de raça e de orientação sexual.

ONDE: Sesc Consolação. R. Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000.
QUANDO: Estreia hoje (16). 6ª e sáb., 21h; dom., 18h. Até 1º/3.
QUANTO: R$ 15/R$ 50 (Ingressos esgostados para hoje, 16). Cc. e Cd.: D, M e V.

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