Isolados e inspirados: músicos fazem música sobre o confinamento
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Isolados e inspirados: músicos fazem música sobre o confinamento

Redação Divirta-se

23 de abril de 2020 | 05h00

Por Ana Lourenço e Danilo Casaletti

CONTEÚDO ABERTO PARA NÃO-ASSINANTES: Chico César, Di Ferrero e Baco Exu do Blues criam canções em tempos de isolamento social

A letra de Canções e Momentos, de Milton Nascimento e Fernando Brant, diz que “há momento / que se casa com canção”.  E, se o tempo é de distanciamento e de preocupação com a pandemia do novo coronavírus – o que suscita sentimentos como medo, saudade e apreensão com o futuro –, nada mais normal que ele inspire músicos e compositores a abordá-lo em suas canções.

As músicas podem aparecer em formato de funk, como fez o MC Tchelinho em Corona Funk; de rap, como Quarentena, de MV Bill; em uma balada que fala da falta de abraços, composta por Di Ferrero; ou na poesia criada por Chico César. Há também quem tenha produzido um álbum inteiro para afastar o tédio que insiste em chegar ao isolamento, caso do rapper Baco Exu do Blues. Ou na coletividade virtual, retrato dessa época, do grupo espanhol Stay Homas.

Todas elas tentam, de alguma forma, entreter a população: seja para traduzir em versos os sentimentos angustiantes que estamos vivendo ou para disseminar mensagens positivas. Além de criar algo mais perene na questão artística do que as lives, formato que conquistou o público, mas que tem duração, por vezes, bem efêmera.

Positividade e improviso. Guillem Bultó, Rai Benet e Klaus Stroink, que formam o grupo espanhol Stay Homas (uma referência à expressão “fique em casa”), eram colegas de quarto antes de a quarentena começar. Como os três são músicos, era comum se juntarem para tocar sem compromisso. Porém, um dia, eles criaram um samba sobre o coronavírus e publicaram. Tudo mudou. “Foi muito depressa. As pessoas passaram a compartilhar e mostrar muito carinho pelas nossas canções”, contou ao Estado o trompetista Klaus.

De compartilhamento em compartilhamento, o trio ficou famoso e hoje já são 22 confination songs (canções de confinamento). “Antes, colocávamos uma por dia, mas a quarentena foi se alargando e decidimos baixar um pouco o ritmo e fazer uma a cada dois dias. Afinal, também não temos tantas ideias”, brinca o trombonista Guillem.

As canções variam de tema e de ritmos. “Escrevemos um pouco sobre como estamos nos sentindo a cada dia. Por isso, as canções dos primeiros dias não são iguais às de hoje, por exemplo. Mas sempre tentamos ter um clima positivo, pois coisas negativas já estão acontecendo e não é preciso relembrar as pessoas disso”, explica o baixista Rai. A maioria das músicas conta com participações especiais de outros artistas – que cantam pelo telefone em espanhol, inglês, catalão e até portunhol. “Gostamos muito das músicas brasileiras”, dizem. Outra inovação é o uso de instrumentos, digamos, caseiros. Baldes, facas e até porta-temperos são adaptados. “Usamos o que temos”, diz Klaus.

Do quarto para a rede. O cantor e compositor Chico César tem usado sua conta no Instagram para refletir, em forma de canções, sobre temas relacionados ao coronavírus e ao isolamento social. Já são oito canções, que ele apresenta em formato voz e violão, apresentadas diretamente de seu quarto, lugar onde gosta de ficar, segundo ele.

O cantor Chico César. Foto: José de Holanda

Uma delas, batizada de Nada, nasceu enquanto Chico lavava os pratos – inspirada por uma live da cantora baiana Margareth Menezes com a militante de movimento negro Olívia Santana. Na conversa, elas pediam que a população de Salvador ficasse em casa na Páscoa. Na canção, o compositor sugere uma dança no quintal, um disco legal na vitrola e pede para deixar a distância construir pontes de “lembrar e esquecer”.

“Precisamos buscar um novo lugar, um novo tempo, que tem a ver com o autocuidado, do cuidado com o outro e, sobretudo, desacelerar. O momento é de calma. Estávamos devorando o mar, querendo destruir as entranhas da Terra, desprezando povos nativos, vendo a volta do trabalho escravo”, diz, ao fazer uma comparação com a Idade Média. “Não é castigo divino, mas há um menosprezo de Deus.”

Questionamento parecido está na letra da bem-humorada Se Essa Praga Morresse, outra feita por Chico na quarentena, na qual pede aos céus o fim da pandemia. “Será que o tal do tão propagado caos/ Vai causar iluminação?/ Será que aqui permanecerá/ Hora extra e serão?/ Será que o ser que do escuro sairá / É ciência ou religião?”, diz um trecho da canção. “Deus mora na ciência”, diz o compositor, dando uma resposta ao próprio questionamento.

As canções vão virar um disco? Chico acha pouco provável. “O que será da indústria do leite? Do sapato? Não sei. Será que terá indústria para o disco? De concreto, agora, só a minha necessidade de comunicação como artista”, reflete. Ele acredita que o setor cultural, em especial o da música, vai descobrir novas formas de apresentar seu trabalho, quem sabe dentro da própria casa, como vem acontecendo com as lives.

Música para curar. O cantor Di Ferrero foi um dos primeiros artistas brasileiros a anunciar que havia sido infectado pela covid-19, em 12 de março. Ficou isolado 20 dias em casa e, assim que se sentiu melhor – ele diz que ficou rouco por duas semanas em razão dos sintomas da doença –, pegou o violão e compôs a canção que batizou de Vai Passar.

Depois de se recuperar da covid-19, músico compôs a canção ‘Vai Passar’. Foto: Marcelo Nunes

“Foi a primeira música que toquei quando peguei o violão. Foi bem intuitivo. Ela me trouxe paz, conforto”, conta. A letra diz “Nós não precisamos de muito/ Não se entregue, se doe para mundo/ E escute uma voz lá no fundo”. “Para umas pessoas (essa voz) é Deus, mas cada um tem seu modelo de Deus. Para uns é uma intuição, um pensamento. Para mim, ela foi bem clara: é quando eu arrepio. É mais sobre sentir, menos sobre falar.”

A música, em um primeiro momento, foi apresentada em uma live no Instagram e, em 10 abril, foi lançada oficialmente nas plataformas musicais, em uma gravação de voz e violão, feita em casa. Um clipe com a participação de personalidades como Camila Queiroz, Paulo Miklos, Isabeli Fontana, Vitor Kley, Paulo Ricardo e Serginho Groisman também foi montado virtualmente.

Aproveitando o tempo de isolamento, Di reflete sobre uma nova realidade, pós-pandemia. “As pessoas mais sensíveis vão rever conceitos. Vão mudar de vida, despertar para algo. O mundo estará diferente e quem não mudar terá que se encaixar nele de alguma forma”, diz.

A cura pela música também aconteceu com o rapper Baco Exu do Blues. “Eu estava precisando sair dessa agonia. Já estava em casa antes da quarentena, pois tinha quebrado o braço e, assim que consegui mexê-lo, só precisava fazer alguma coisa”, explica. Ele conta que, em cada letra das nove canções compostas para o álbum Não Tem Bacanal na Quarentena, lançado em 30 de março, existe um pouco do momento atual. “Esse álbum vai me fazer lembrar do sentimento que tive quando estava enclausurado. O fato de eu ter feito ele em três dias mostra muito a relação com a urgência do que eu precisava falar e estava guardando. Foi sem filtro nenhum.”

O rapper Baco Exu do Blues. Foto: Wilmore Oliveira

Entre as canções, a faixa Amo Cardi B e Odeio o Bozo traz uma crítica ao governo brasileiro e faz referência ao vídeo da cantora americana, divulgado em suas redes sociais, no qual ela fala sobre o coronavírus. Para sustentar a crítica, Baco colocou áudios de moradores de diferentes periferias do Brasil, que contam como está a situação por lá.

“A maioria dos áudios são casuais. Sou eu perguntando para os amigos como eles estão e eles respondendo.” Uns dos trechos diz: “Não tenho dinheiro pra pagar plano / Não tem cura essa desgraça / Se eu pegar essa desgraça, já era eu irmão / Tá maluco, eu quero viver parceiro”. “É uma crítica até para mim mesmo, sabe? Tem gente que está sofrendo por motivos bem maiores que os meus”, afirma.

Pensando justamente na periferia, Marcelo Valentim, o MC Tchelinho, em parceria com o coletivo Sejamos Base, criou o Corona Funk. A música tem o objetivo de ensinar as regras para se evitar a contaminação pela covid-19 para as comunidades. “Eu, quando falo, falo diretamente com a favela, porque eu sou favelado. Não é informação que chega de outro lugar.”

Corona Funk’ ensina as comunidades a evitar a contaminação. Foto: Vitória Leona

A disseminação da música, no entanto, preocupa o músico. “Nem todo mundo tem acesso à internet. Então, agora, nosso passo é fazer com que a informação seja de fato consumida por eles”, diz. Carros de som, rádio e televisão são alguns dos canais que eles esperam utilizar para isso.

Quem também deixou seu recado foi Moraes Moreira, que morreu em 14 de abril, vítima de enfarte. Menos de um mês antes, ele publicou, em sua conta no Instagram, um cordel de sua autoria, batizado de Quarentena. No texto, com forte crítica social, ele diz, em uma das estrofes: “Eu não queria essa praga/ Que não é mais do Egito/ Não quero que ela traga/ O mal que sempre eu evito/ Os males não são eternos /Pois os recursos modernos/ Estão aí, acredito”.

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