Exposição reúne 75 obras do pós-impressionista Toulouse-Lautrec
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Exposição reúne 75 obras do pós-impressionista Toulouse-Lautrec

Celso Filho

29 de junho de 2017 | 17h07

Para falar sobre sexualidade, Masp apresenta uma retrospectiva com pinturas, gravuras e cartazes, além de documentos sobre a vida e a obra do artista francês

These Ladies in the Dining Room

Pintura ‘estas Mulheres na Sala de Jantar’, feita entre 1893 e 1895. Foto: Szépmuvészeti Múzeum

Com pinceladas marcantes de vermelho, Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) retratou prostitutas em um bordel de Montmartre, na Paris do final do século 19. A obra ‘O Divã’ pertence ao Masp e é uma das principais peças que o museu apresenta na retrospectiva que inaugura nesta sexta-feira (30) sobre o pós-impressionista francês.

‘Toulouse-Lautrec em Vermelho’, em alusão à cor do tal divã, reúne 75 criações do artista, entre cartazes, pinturas e gravuras, e também um conjunto de mais de 50 documentos sobre sua trajetória. Além das peças que pertencem ao Masp, a seleção apresenta trabalhos de importantes coleções, como The Art Institute of Chicago, dos Estados Unidos; Victoria & Albert Museum, de Londres; e Musée d’Orsay, de Paris.

Com curadoria assinada pelo diretor artístico do museu, Adriano Pedrosa, pelo curador-adjunto de arte europeia, Luciano Migliaccio, e pela curadora-assistente Mariana Leme, a mostra tem como foco o olhar peculiar de Toulouse-Lautrec sobre a boemia parisiense no início da modernidade, quando os bordéis e cabarés eram quase uma extensão do ateliê do artista. Divididas em três núcleos, as obras apresentam tanto a vida noturna daquela época quanto as relações pessoais do artista e suas experimentações na arte gráfica.

A exposição também faz parte de um conjunto de mostras temáticas que o Masp promove este ano e que propõe abordar a sexualidade na arte. Tanto que, paralelamente às obras de Toulouse-Lautrec, será exibida uma série fotográfica de Miguel Rio Branco sobre uma zona de prostituição em Salvador, além de vídeos da australiana Tracey Moffatt. A seguir, confira curiosidades sobre cada uma delas.

ONDE: Masp. Av. Paulista, 1.578, metrô Trianon-Masp, 3149-5959. QUANDO: Inauguração: 6ª (30). 10h/18h (5ª, 10h/20h; fecha 2ª). Até 1º/10. QUANTO: R$ 30 (3ª, grátis).

 

ENTREVISTA COM LUCIANO MIGLIACCIO, CURADOR DO MASP

Como surgiu a ideia da exposição sobre Toulouse-Lautrec?
O Masp possui uma coleção notável de 11 obras dele. Mas, na verdade, a mostra surgiu porque o museu terá, este ano, uma série de exposições para promover um debate sobre a arte e a sexualidade – o que inclui o papel de Toulouse-Lautrec na representação da vida noturna parisiense. Pareceu uma oportunidade de valorizar essa parte do nosso acervo.

Entre essas mostras sobre sexualidade, em que lugar se situa a obra de Toulouse-Lautrec?
Ele foi um nome importante nas mudanças de atitude em relação à sexualidade, no começo da modernidade. Também teve uma sensibilidade muito particular na representação da vida das prostitutas, principalmente porque frequentou bordeis parisienses conhecidos. Por exemplo: ele representou sem medo momentos da homossexualidade feminina, o que, na época, era algo muito controverso.

Que tipo de paralelo podemos fazer entre a obra de Toulouse-Lautrec e a de Miguel Rio Branco, que também estará exposta?
Eles pertencem a épocas históricas muito diferentes, mas existem duas coisas que acho interessante destacar: a coragem e a liberdade. Eles expressam essa ideia de não ter medo de desafiar os preconceitos e os clichês sobre a sexualidade e a prostituição. Além de proclamar uma liberdade em relação a isso – o que, no fundo, é a função da arte na vida moderna.

O divã

Obra ‘O Divã’, do acervo do Masp. Foto: Masp

VIDA NOS BORDÉIS

Entre as obras de Toulouse-Lautrec que pertencem ao acervo do Masp, uma das mais emblemáticas é ‘O Divã’ (foto acima), produzida por volta de 1893. Na criação, o artista retrata um grupo de mulheres em um sofá aveludado na sala de espera de um bordel, que ficava na Rue des Moulins, em Paris.

A antessala retratada na pintura foi a motivação para o primeiro núcleo da mostra. A partir desta obra, a curadoria reuniu outros trabalhos nos quais o modernista francês representou o cotidiano das casas de prostituição da época. “Toulouse-Lautrec documenta uma série de personagens, como prostitutas e clientes – não pelo aspecto do glamour, mas do cansaço, de um momento de espera”, explica Luciano Migliaccio.

Além de ‘O Divã’, é possível ver outras criações sobre essa rotina nos bordéis, como ‘As Duas Amigas’ (1894) e ‘Mulher se Penteando – Duas Mulheres em Camisola’ (1891).

DIVERSÃO IMPRESSA

“Toulouse-Lautrec foi um dos artistas que mais contribuíram para o surgimento da gráfica moderna”, conta o curador. Para lembrar esse lado de sua produção, um núcleo, que aborda a noite parisiense, também apresenta gravuras e cartazes feitos pelo artista. Entre as obras, está a litografia abaixo, ‘Moulin Rouge (La Goulue)’, feita por volta de 1891. Com os trabalhos, que têm grande influência da arte japonesa, o artista divulgava espetáculos, restaurantes, cabarés e outros lugares de entretenimento do século 19.

Moulin Rouge (La Goulue)

Litografia de 1891. Foto: Rijksmuseum

RELAÇÕES PESSOAIS

Além da vida nos cabarés e de sua visão sobre a noite parisiense no fim do século 19, a exposição também visita as relações pessoais do pós-impressionista. Em um dos núcleos, estão trabalhos em que ele retratou pessoas próximas e personalidades da época. “Assim, surgem algumas figuras masculinas ligadas à vida de Toulouse-Lautrec e personagens relacionados à biografia do artista”, conta Luciano Migliaccio.

Entre eles, Paul Viaud é uma das presenças mais importantes. Amigo próximo da família do artista, ele foi incumbido de ajudá-lo quando o francês saiu de uma clínica de reabilitação e o acompanhou até o fim da vida. Viaud é retratado como almirante em uma das principais obras dessa ala – a tela ‘Paul Viaud em Almirante do Século XVIII (O Almirante Viaud)’, de 1901 (foto abaixo), que pertence ao acervo do Masp.

Paul Viaud em almirante do século XVIII (O almirante Viaud) 

Paul Viaud, amigo do artista, retratado em pintura de 1901. Foto: Masp

PINCELADA PRÓPRIA

Quando visitar a exposição no Masp, vale a pena prestar certa atenção na técnica de pintura usada por Toulouse-Lautrec. O pós-impressionista tomava como recurso a ‘peinture à l’essence’, na qual diluía a tinta em terebintina, um tipo de solvente. De secagem rápida, a substância que resulta da mistura permite que o gesto e as pinceladas do artista fiquem mais visíveis sobre o suporte – seja ele papel ou tela -, com uma leve transparência na cena retratada.

De acordo com Migliaccio, a técnica pode dar a sensação de que a obra está inacabada. “Você tem a impressão que algumas das figuras ficam levemente indefinidas. Portanto, o espectador é chamado a completar a imagem e a pensar essa imagem em movimento”, observa o curador.

HISTÓRIA DOCUMENTADA

Para complementar o passeio pela obra de Toulouse-Lautrec, a exposição também conta com cerca de 50 documentos sobre a vida e a obra do artista – entre cartas, fotografias, bilhetes e telegramas. A seleção foi feita pelo colecionador Pedro Corrêa do Lago e é exposta pela primeira vez em sua totalidade. Há, por exemplo, o primeiro documento manuscrito pelo francês: uma carta em que ele assina
seu nome, quando tinha apenas 7 anos. Também é apresentada sua última correspondência dirigida à mãe, em 1901, quando ele estava prestes a morrer em decorrência da sífilis e do alcoolismo.

MOSTRAS PARALELAS

Miguel Rio Branco 07

Imagem da série ‘Maciel’, de Miguel Rio Branco. Foto: Miguel Rio Branco

Olhar contemporâneo
Paralelamente à mostra de Toulouse-Lautrec, o Masp exibe ‘Miguel Rio Branco: Nada Levarei Qundo Morrer’, com uma série feita em 1979, em Salvador (foto). Naquele ano, durante seis meses, o fotógrafo acompanhou a rotina do bairro de Maciel, próximo ao Pelourinho. O ensaio é apresentado em 61 imagens – são registros de prostitutas, de frequentadores da região e da arquitetura dos prédios antigos do centro histórico da capital baiana.

Como nos trabalhos do artista francês, as fotografias de Rio Branco também se preocupam em mostrar um outro lado da prostituição, menos estigmatizante e estereotipado. “Ele não estava ali fazendo uma fotografia de denúncia; ele se identificava com aquela marginalidade e com a situação em que aquelas pessoas viviam”, explica o curador-assistente da exposição, Tomás Toledo.

Sobre estereótipos
Além do olhar fotográfico de Miguel Rio Branco, outro artista contemporâneo que estará no museu é a australiana Tracey Moffatt, apresentando trabalhos audiovisuais da série ‘Montagens’. Resultado de uma colaboração com o editor Gary Hillberg, as obras foram feitas entre 1999 e 2015.

Em três vídeos, exibidos em uma sala no 2º subsolo do museu, Tracey edita diferentes trechos de filmes hollywoodianos para abordar questões relacionadas aos estereótipos presentes na sociedade contemporânea. Em ‘LIP’, por exemplo, a artista traz atrizes negras, aborígines e latinas interpretando empregadas domésticas. Nas cenas, elas confrontam suas patroas.