Em sua primeira edição, Festival Internacional de Mulheres no Cinema exibirá 28 produções
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Em sua primeira edição, Festival Internacional de Mulheres no Cinema exibirá 28 produções

André Carmona

03 Julho 2018 | 20h10

Cena do filme ‘Que Língua Você Fala?’, de Elisa Bracher, que abre a mostra. Foto: FIM

De acordo com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), o mercado audiovisual brasileiro movimenta, anualmente, cerca de R$ 25 bilhões. E a cifra seguirá crescendo nos próximos anos. Ao mesmo tempo, a presença feminina no segmento ainda é pequena. De todos os filmes nacionais registrados entre 2009 e 2016, menos de 17% foram dirigidos por mulheres.

Pensando nisso, a Casa Redonda e a Associação Cultural Kinoforum decidiram discutir a equidade na indústria cinematográfica brasileira e valorizar narrativas construídas por mulheres. Assim, nasce a primeira edição do FIM – Festival Internacional de Mulheres no Cinema, que ocorre de 4ª (4) a 11/7.

Com curadoria de Beth Sá Freire, Juliana Vicente e Andrea Cals, a mostra traz competições de longas internacionais e nacionais, exibições especiais e cursos – sempre destacando o protagonismo feminino nas telas e por trás das câmeras. A primeira homenageada é a atriz Zezé Motta.

Ao todo, 28 produções integram a programação. As sessões ocorrem no Espaço Itaú Augusta (R. Augusta, 1.475, 3288-6780), no CPF Sesc (R. Dr. Plínio Barreto, 285, 3254-5600) e no CineSesc (R. Augusta, 2.075, 3087-0500). Este último recebe a abertura do evento, na 4ª (4), às 20h30, com a exibição do documentário ‘Que Língua Você Fala?’ (foto), de Elisa Bracher, em sessão gratuita – é preciso retirar ingresso com uma hora de antecedência.

Aqui, você confere a programação completa do festival. E, a seguir, a entrevista com Minom Pinho, idealizadora do FIM:

1) Como surgiu a ideia de um festival que destacasse o protagonismo feminino no cinema? Quão urgente ele é?
A questão da sub-representatividade de mulheres na indústria cinematográfica explodiu no mundo com forte ativismo, envolvendo talentos de peso de Hollywood. Movimentos como o “metoo”, o “time’s up” e tantos outros vêm chacoalhando a hegemonia masculina no cinema e tomando as pautas de festivais e premiações nos EUA e na Europa.

Aqui no Brasil, surgiram inúmeros concursos, festivais de curta-metragem, seminários e outras ações com foco na equidade de gêneros na televisão, no cinema e na publicidade.

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) vem reunindo pesquisas e números, além de ter consolidado um Comitê de Gênero e Raça, resultando na publicação de pesquisas com este viés. Os números me impressionaram bastante. Em um recorte recente, as mulheres dirigiram apenas 17% dos filmes lançados comercialmente nas salas de cinema. As mulheres representam mais de 50% da população brasileira. Precisamos melhorar estes números em favor de uma maior diversidade atrás das câmeras, que se materializam em temas, linguagens e abordagens dos filmes que chegam ao público.

A partir dessa inquietude, comecei a pensar em plataformas que conseguissem mudar o panorama. Daí surgiu o FAMA (Fundo Avon de Mulheres no Audiovisual), onde sou consultora, como primeira iniciativa privada com foco na equidade de gêneros no audiovisual brasileiro.

Ajudamos também a trazer a São Paulo, no ano passado, a sueca Ellen Tejle, para falar sobre o selo Bechdel, que avalia a presença feminina em filmes.

Outra grande fonte de inspiração veio do grupo do Facebook ‘Mulheres do Audiovisual Brasil’, que conta atualmente com mais de 18 mil membras: uma potência feminina reunida pela igualdade de gêneros no cinema, pelo fim do assédio e por oportunidades de trabalho nesta indústria.

O FIM – Festival Internacional de Mulheres no Cinema nasce da constatação de que faltava um festival em São Paulo, grande polo audiovisual brasileiro, focado em longas-metragens recentes dirigidos por mulheres, que pudesse trazer ao público novos talentos e grandes diretoras consagradas.

A ideia é valorizar a produção de mulheres, o protagonismo em tela e atrás das câmeras, além de influenciar políticas públicas federais, estaduais e municipais e, é claro, mobilizar a sociedade civil.

Ao reunir estas mulheres talentosas do Brasil e do mundo, lançamos um foco no que queremos mudar: queremos um cinema com 50% de representatividade feminina.

2) Quais são os desafios em se desenvolver um festival em meio a este cenário? Seria o começo do ‘fim’ da hegemonia masculina no cinema nacional, fazendo um trocadilho com o nome do evento?
Segundo dados da Ancine, dos 142 filmes brasileiros lançados comercialmente nas salas de cinema no País em 2016, apenas 19,7% foram dirigidos por mulheres. Isso significa que estamos sub-representadas nas telas.

O problema não está no audiovisual feito por homens. Nada contra os homens. Há maravilhosos cineastas do gênero masculino. O problema aqui diz respeito à desigualdade que vivemos hoje. A questão é simples: somos mais de 50% da população e portanto queremos 50% do espaço na indústria audiovisual brasileira. O Festival atua no sentido de contribuir para aproximar o público de filmes feitos por mulheres de várias regiões do Brasil e também do mundo, demonstrando a potência dessas narrativas.

O longa-metragem é espaço de poder na indústria cinematográfica e é neste vespeiro que queremos mexer. A sigla do Festival não surge por acaso, queremos mesmo o FIM da sub-representatividade de mulheres no cinema, na TV e em outras telas. E aqui estamos com o FIM materializado, com uma seleção de filmes inspiradores, diretoras talentosas e um desenho curatorial bem bacana para apresentar ao público.

3) Como se deu o processo de seleção dos filmes? Há algum tema comum entre as produções?
Para as mostras competitivas de longas-metragens, tínhamos dois pré-requisitos. Os filmes tinham de ter sido finalizados nos últimos 18 meses e precisavam ter sido dirigidos exclusivamente por mulheres. Os filmes brasileiros foram inscritos pelo site do festival e selecionados por nossa equipe curatorial, que traz Beth Sá Freire, Juliana Vicente e Andrea Cals. Já os longas internacionais foram indicados pela curadoria.

Além da competitiva, apresentamos dois programas especiais, que celebram a presença feminina atrás das câmeras e nas telas do cinema.

Lute Como uma Mulher reúne sete longas-metragens brasileiros, dirigidos ou codirigidos por mulheres, acerca de temáticas de resistência política, social, ambiental, cultural, econômica, racial e afetiva. São novas abordagens de ativismo e manifestação de inquietudes, tendo o cinema como espaço de expressão e mobilização.

Já O Fogo que Não se Apaga é uma homenagem a mulheres que dedicaram suas vidas profissionais à sétima arte e que seguem produzindo obras inspiradoras, como uma história de amor com o cinema que nunca termina.

4) Fale um pouco da escolha de Zezé Motta como a primeira homenageada do festival?
Zezé Motta dispensa justificativas. Mais de 50 anos de carreira de sucesso e todo o poder do protagonismo feminino nas telas do cinema, da TV, do vídeo on demand.

A escolha traz ainda um vetor que é iluminar a presença de qualidade das mulheres nas produções audiovisuais. Zezé desafia os estereótipos femininos tão comuns no cinema e na TV. Protagonizou Xica da Silva, Dandara dos Palmares, Carolina de Jesus, grandes mulheres que nem sempre receberam o devido lugar no imaginário do País. Precisamos de mulheres de todas as etnias em tela e de representatividade feminina que dialogue com a complexidade das mulheres que conhecemos na vida real.

É necessário fugir do lugar tão comum de mulheres que surgem apenas para sustentar o protagonismo masculino. Se você não pode ver isso, você não pode ser isso.  E Zezé e seus incontáveis personagens transformam-se em inspiração para novas formas de representação feminina e negra no audiovisual brasileiro.

Confira todos os filmes em cartaz na cidade no Guia de Cinema do Divirta-se