Curadora fala sobre a mostra Depardon Cinema, que exibe até 22/1 obras do cineasta francês
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Curadora fala sobre a mostra Depardon Cinema, que exibe até 22/1 obras do cineasta francês

André Carmona

08 Janeiro 2018 | 17h05

Em ação: Raymond filma ‘1974, um Presidente em Campanha’. Foto: Mostra Depardon/CCBB

O cineasta Raymond Depardon terá 25 de suas produções – entre curtas, médias e longas – exibidas na mostra Depardon Cinema, do CCBB (R. Álvares Penteado, 112, Centro, 3113-3651), que vai até 22/1. De acordo com a curadora do evento, Emmanuelle Boudier, o francês, apesar de pouco conhecido a nível mundial, é um dos grandes documentaristas da atualidade.

Entre as características marcantes de seu trabalho está a maneira “silenciosa, atenta e respeitosa” com que dirige seus filmes. “Depardon sempre conseguiu preservar sua independência. Ainda que não sejam engajadas ou militantes, suas produções são profundamente universais, humanistas e autênticas”, contou Emmanuelle ao Divirta-se.

Na quarta-feira (10), a partir das 18h15, tem sessão dupla: primeiro, ‘Empty Quarter, une Femme en Afrique’ (1984), seguido de ‘Les Annes Déclic’ (1986). Todas as sessões são gratuitas, mas é necessário retirar ingresso 1h antes.

A seguir, confira a entrevista com a curadora Emmanuelle Boudier e a programação completa da mostra:

Como você destacaria a importância de Raymond Depardon para a produção cinematográfica mundial?

Raymond Depardon é um dos maiores documentaristas da nossa época. Na França, ele é muito admirado, tanto pelo público em geral quanto pelos cinéfilos e cineastas, e se tornou um verdadeiro fenômeno. A obra dele reflete a história nacional através do seu povo, fazendo com que os filmes ecoem em cada cidadão.

A nível mundial, ele é bem menos conhecido, talvez porque muitos documentários se passam na França, ou porque a grande originalidade dele se situa na importância que ele da às palavras. Porém, sua obra não deixa de ser muito importante e inspiradora para as novas gerações de cineastas no mundo. Primeiro, porque os filmes são profundamente universais, humanistas e autênticos: homens e mulheres são capturados ao vivo, com suas grandezas e misérias, sem idealização. E também porque apesar da sua grande popularidade, Depardon sempre conseguiu preservar sua independência.

No Brasil, a obra-prima ‘Instantes de Audiência’, de 2004, foi referência para Maria Augusta Ramos em ‘Justiça’.

Depardon revolucionou a maneira de filmar documentários: uma maneira silenciosa, atenta e respeitosa. Os filmes dele não são engajados, menos ainda militantes, porém não deixam de ser atos políticos, porque eles dão a palavra a quem não tem.

Quais são as principais características do cinema de Depardon?

Depardon tem um gosto pelo cinema contemplativo, privilegiando os planos fixos e a sobriedade, em busca da maior autenticidade. Ele é fascinado pelas situações sociais nas quais a palavra é muito teatralizada. Daí a importância primordial do som e das vozes no seus filmes. Ele mesmo declara: ” O verdadeiro documentário é mais próximo ao teatro (…) quando acontece uma coisa impactante, a câmera não deve se mexer para não acrescentar nada a mais”.

Os filmes de Depardon não pretendem tomar partido ou defender um ponto de vista. Depardon deixa as coisas acontecerem, as línguas se soltarem – ou não – e dá às pessoas filmadas, seja nos tribunais, no hospital psiquiátrico ou numa delegacia, a oportunidade de ocupar todo o espaço, com palavras e também com silêncios, e revelar assim suas emoções intactas, sem que sejam “poluídas pelo olhar do cineasta”.

Há temáticas que permeiam toda a sua obra?

Depardon filmou no coração das instituições e grandes organizações: polícia, imprensa, justiça, hospitais psiquiátricos. São lugares onde pessoas cujo acesso à linguagem é parcimonioso, lento, entravado (loucos, agricultores, acusados) trocam com pessoas cuja linguagem é profissão ou modo de intervenção privilegiada no mundo (políticos, juízes). Lugares onde o povo e as instituições dialogam e trocam, em uma relação democrática, porém sempre desigual. A beleza se encontra na maneira que, apesar de tudo, as instituições geram trocas entre as pessoas, além da função de cada um.

Em paralelo, Depardon dedicou muito filmes às pessoas feridas pela vida, desesperadas e presas em si mesmas. A loucura (em ‘San Clemente’ ou ’12 Dias’) e a solidão (na série ‘Perfis Camponeses’) são sempre feitas de momentos em que, precisamente, as pessoas não conseguem mais se comunicar.

Outra temática favorita do Depardon é o continente africano e particularmente o deserto, para onde ele fez muitas viagens, filmes e fotos.

Como se deu o processo de curadoria dos 25 filmes exibidos na mostra?

A seleção é bem completa e inclui todos os filmes relevantes do cineasta, mistura de curtas e longas. Entre eles são todos os sucessos homenageados pela crítica e prêmios, assim como os mais populares e amados pelo público.

Alguns foram descartados como, por exemplo, L’Homme sans l’Occident, onde o cineasta paradoxalmente não consegue filmar de maneira impactante o que ele mais ama, o deserto; o livro de fotografias publicado sobre o mesmo assunto sendo muito mais relevante e pessoal.

Programação:

Quinta-feira (11)
19h – ‘Urgences’ / ‘New York, NY’

Sexta-feira (12)
16h – ‘San Clemente’ / ‘Ian Palach’
19h – ‘Presos em flagrante’ / ‘Cartagena’

Sábado (13)
15h15 – ‘Reporters’
18h15 – ‘Os Habitantes’ / ‘La France de Raymond Depardon’

Domingo (14)
15h – ‘La Captive du desert’ / ‘Contacts’
17h15 – ‘Reporters’

Segunda-feira (15)
15h45 – ‘Journal de France’ / ‘Un Moment si doux’
18h15 – ‘Empty quarter, une Femme en Afrique’ / ‘Les annes déclic’

Quarta-feira (17)
17h – ‘Perfis Camponeses – O Cotidiano’ / ‘Amour’
19h – ‘Perfis Camponeses – A Aproximação’

Quinta-feira (18)
15h45 – ‘1974, um Presidente em Campanha’
18h – ’12 Dias’
19h30 – Debate sobre o filme ’12 Dias’

Sexta-feira (19)
16h30 – ‘Perfis Camponeses – A Aproximação’
19h – ‘Perfis Camponeses – A Vida Moderna’ / ‘Alguma novidade em Garet’

Sábado (20)
16h – ‘Perfis Camponeses – O Cotidiano’ / Amour
18h – ‘Instantes de Audiência’

Domingo (21)
16h – ‘Perfis Camponeses – A Vida Moderna’ / ‘Alguma novidade em Garet’
18h – ‘1974, um Presidente em Campanha’

Segunda-feira (22)
17h – ’12 Dias’
19h – ‘Instantes de Audiência’