Curador do Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo fala sobre a 12ª edição do evento
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Curador do Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo fala sobre a 12ª edição do evento

André Carmona

25 de julho de 2017 | 15h56

‘Alta Cumbia’ trata de um fenômeno cultural das periferias de Buenos Aires. Foto: Cristian Jure

Entre os dias 26/7 e 2/8, o 12º Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo exibe 102 filmes de 18 países da América Latina. Segundo o diretor e curador Francisco César Filho, uma temática importante nesta edição é a inquietude juvenil. “Percebemos que vários longas falam sobre a vida dos jovens nas metrópoles latinas – a questão de gênero, por exemplo, é muito forte”, conta ele.

O evento ainda traz uma homenagem ao cineasta paulista Beto Brant. A seguir, confira a entrevista de Francisco César Filho ao Divirta-se e, aqui, dez longas que são destaques do festival.

Qual é a proposta do Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo?

O festival organiza sua programação tentando mapear a produção na América Latina de forma abrangente. Desde a primeira edição, a gente valoriza muito poder mostrar o maior número possível de cinematografias. Isso, há 12 anos, era um trabalho de escavação arqueológica, porque muitas cenas, de muitos países, eram incipientes. Por isso, era difícil encontrar produções de qualidade. O cenário se modificou muito nesses anos, a ponto de termos filme da Costa Rica premiado em Berlim, filme do Equador arrebentando em festivais europeus. Então, para nós, que tínhamos essa postura lá atrás, é muito gratificante. Cada vez mais, inclusive, focamos em novas propostas temáticas, novas narrativas. Enfim, não priorizamos os medalhões do ano, os grandes premiados, que acabam circulando no País em outros festivais ou no circuito comercial. Queremos gente nova. Queremos mostrar novos talentos e novas propostas cinematográficas.

Há alguma tendência perceptível nos novos longas?

Nós estamos muito orgulhosos. A sensação é que o trabalho está sendo aprimorado. A gente acha que o espectador ficará satisfeito em assistir aos filmes. Uma tendência presente gira em torno de produções que têm por temática jovens ou grupos jovens nas metrópoles latino-americanas. Vários filmes da programação focam nisso. E nessa inquietude, nessa angústia jovem, aparece fortemente, pela primeira vez, questões de gênero – que não eram uma coisa comum em longas-metragens latinos. Isso é bem interessante. No geral, temos diversas manifestações culturais jovens sendo retratadas nas produções.

A resistência do público brasileiro, no geral, em relação a produtos culturais em espanhol tem mudado?

Muito. Se pegarmos um cenário de duas décadas atrás, mudou extraordinariamente. A relação que o brasileiro comum tinha com qualquer aspecto da América Latina – fosse artístico, cultural ou político – era refratária. Não havia troca nem diálogo. Um exemplo dessa transformação está nas produções dos longas. Antes, os filmes de países de língua espanhola tinham co-produção com a Espanha; os brasileiros, com ninguém. Hoje, até pelo fato de a Espanha estar em crise, os países da América do Sul estão fazendo co-produção entre si e também com o Brasil. Se a gente for mapear a última década, vamos encontrar 20, 30 longas brasileiros de co-produção com Uruguai, Chile, Argentina. Isso pode ser visto também na música: muitos grupos ‘hermanos’ já circulam pelo Brasil, há muitas festas temáticas – isso era impensado na década de 1990. Respondendo objetivamente: o cenário mudou bastante. E gostamos de pensar que o festival dá uma modesta, mas significativa, contribuição para o estreitamento de relações, já que é um evento exclusivo ao cinema latino-americano.

Por que o Beto Brant foi escolhido o homenageado de 2017?

A gente gosta de novos jovens talentos, de coisas que estão acontecendo, inclusive para fazer nossas homenagens. Já homenageamos vários realizadores em plena atividade, chegou a vez do Beto. Aliás, já devíamos ter feito esse tributo antes. Beto é um cineasta inquieto, inventivo, que faz um cinema surpreendente, com uma linguagem nada conservadora. Ele nunca se acomodou. Ao longo dos anos, seus filmes passaram a não se encaixar em gênero nenhum e revelam uma inquietude louvável. Além do mais, Beto é um cara que tem uma carreira toda pela frente. Por isso, decidimos homenageá-lo. E temos o privilégio de exibir a pré-estreia mundial de dois novos trabalhos dele, curiosamente dois documentários: ‘Zócalo’ e ‘Ilú Obá De Min – Homenagem a Elza Soares, a Pérola Negra’.

Programação completa: www.festlatinosp.com.br/2017

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