Como a pandemia afeta a relação das pessoas com a fé e as práticas religiosas
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Como a pandemia afeta a relação das pessoas com a fé e as práticas religiosas

Júlia Corrêa

22 de maio de 2020 | 02h00

CONTEÚDO ABERTO PARA NÃO-ASSINANTES: Situações-limite podem ampliar – ou comprometer – a religiosidade

Nos últimos tempos, mesmo quando se busca o autocontrole, são recorrentes as alterações de ânimo e a intensificação de ansiedades por causa da pandemia. Não é de se estranhar, portanto, que a própria relação das pessoas com a fé esteja sendo afetada. Em alguns casos, os sentimentos de vulnerabilidade e de fragilidade diante da pandemia podem levar os indivíduos a questionar as suas convicções. Em outros, podem fazê-los buscar meios para fortalecê-las.

Ao longo da quarentena, a advogada Gabriela S., de 24 anos, viu a sua fé oscilar entre esses dois polos. Ela se sentiu especialmente abalada quando um conhecido seu morreu (por outra causa que não a covid-19) e, devido às atuais restrições, não pôde ir ao velório. “Sou uma pessoa ansiosa, mas de muita fé. Acredito em várias energias. Entendo que Deus está dentro de mim e me conhece melhor do que ninguém, mas fiquei me questionando por que aquilo tinha que ocorrer justo neste momento.”

Gabriela, no entanto, optou por “preservar a paz” que a sua crença sempre lhe proporcionou. “Sei que, se eu ficar procurando todas as respostas, a minha fé vai ser abalada, mas eu não quero perdê-la”, diz. “Em tese, a gente já acredita em um Deus invisível, intangível; agora, estamos lidando com a força de um vírus invisível. Compreender tudo isso exige muito esforço.”

É nesse sentido que, para a psicanalista Danit Zeava Falbel Pondé, essa “mudança invasiva que interrompe a continuidade de nosso cotidiano” pode implicar uma reação “de ordem passiva ou criativa”. Em sua avaliação, o coronavírus não tem um sentido por si próprio; são os seres humanos que têm a capacidade de dotá-lo de significados, e isso se origina “diretamente da nossa capacidade de construir um mundo interno”. Ela explica que essa habilidade envolve ainda uma outra: a de saber conviver com as dúvidas que surgem em momentos incertos.

Foi para buscar um sentido para o que tem ocorrido que o casal Maria Alice e Eduardo Shahid, de 63 e 66 anos, passou a acompanhar cultos religiosos da Igreja Batista. Católicos não praticantes, eles frequentam, há sete anos, um grupo de estudos bíblicos, conduzido pelo pastor Paulo Eduardo Vieira, da Primeira Igreja Batista de São Paulo, que continua a ocorrer semanalmente, mas agora pela internet.

“Antes eu tentava ler a Bíblia, mas não conseguia aprofundar como eu gostaria. Por apreciar o trabalho do pastor Paulo, que nos faz entender os versículos com maior facilidade, passamos a acompanhar algumas cerimônias de sua igreja. Agora, diante da ansiedade que a pandemia traz, assistimos aos cultos pelo YouTube, em busca de serenidade e esperança neste momento”, explica Maria Alice, isolada com o marido desde 23 de março, em Ubatuba. “Há diferenças em relação ao catolicismo, mas os fundamentos são os mesmos, e o pastor transmite segurança e propriedade naquilo que fala, sem recorrer a uma visão apocalíptica. Isso tem fortalecido minha espiritualidade”, relata Eduardo.

Foto: Hélvio Romero/Estadão

Necessidade de amparo. De acordo com o mestre em ciências da religião e doutor em filosofia Andrei Venturini Martins, as pandemias “sempre foram um momento de um índice muito alto de conversões”. Em alguns períodos, isso se devia às próprias configurações sociais, como na Idade Média, quando não existia a noção científica sobre micro-organismos, e as religiões exerciam um papel fundamental, com padres e sacerdotes tidos como grandes arautos.

Mas as razões para os indivíduos buscarem o amparo em certas crenças podem ser mais profundas, e Martins usa a imagem proposta por um conhecido filósofo alemão do século 19 para explicá-las: “Schopenhauer tem uma metáfora para isso: imagine que você é um barquinho no mar revolto. A tempestade joga você no fundo, te machuca, e você não sabe de onde vem aquilo. Num dado momento, percebe que aquela fúria estava dentro de você também, mas se você se concentrar nisso, entrará em desespero. Assim, é necessário um desvio, que, para Schopenhauer, seria a necessidade da ascese filosófica e artística. Mas ele abre uma brecha para se pensar na religião, sobre como ela pode nos ajudar a nos desviar desse aspecto desesperador do mundo”.

Considerando tal necessidade, Danit Zeava Falbel Pondé ainda ressalta que a fé de alguns pode se voltar para a ciência ou as ideologias. “O nosso erro foi acreditar na idade da razão, que o homem moderno daria conta de tudo e que não haveria nada que nos abalasse por termos a ciência como escudo”, avalia. A visão de Martins é similar: “Diante da força voraz da pandemia, o ambiente científico que se inicia no século 19 e ganha corpo nos séculos 20 e 21 não vai desaparecer, mas seu discurso vai ter obstáculos. John Gray (filósofo britânico) fala que um dos erros da humanidade foi acreditar na autossuficiência dos humanos, como se o avanço da ciência estivesse desvinculado da natureza.”

Como explica o psicólogo Felipe Pimentel, que atualmente se dedica ao tema do luto, o exercício de uma religião é uma das “últimas noções de participação comunitária na qual a comunidade em si é o que dá sentido à prática” – uma diferença fundamental ao compararmos com outros ambientes que deixamos de frequentar neste momento. Ao longo deste período de isolamento social, por exemplo, importantes datas religiosas tiveram as suas celebrações afetadas, como a Páscoa cristã e Pessach judaica.

Na visão de Andrei Venturini Martins, com a transposição de alguns rituais para o ambiente virtual, uma tendência pode se acentuar: trata-se do que ele chama de “religiões de gaveta”. Com o acesso a informações sobre diferentes práticas, as pessoas poderão desenvolver uma relação menos institucionalizada com a fé, baseada no cruzamento dos valores que lhes fazem sentido.

É claro que a transmissão de cerimônias pela internet pode atenuar a falta que os encontros fazem aos fiéis. Mas, como comenta Pimentel, quem frequenta celebrações não vai apenas para ouvir, mas para receber passes e se confessar, entre outras práticas que geram sensação de proteção e de segurança.

Foto: Hélvio Romero/Estadão

Abaixo, confira depoimentos de diferentes representantes religiosos, que falam sobre como suas comunidades têm lidado com este momento:

“Na tradição judaica, estamos lendo o Levítico – nenhum outro texto da Bíblia lida tão diretamente com a fragilidade da vida no que pode parecer um mundo indiferente. Recebo muitas consultas, as pessoas estão carentes, querem ser ouvidas. Hoje, mais do que nunca, precisamos ouvir com o coração.”
Rabino Adrián Gottfried, Líder da Comunidade Shalom

“Nossa comunidade está reafirmando sua vocação e missão: amar a Deus e ao próximo. A atenção com famílias carentes, o suporte aos enlutados e o cuidado com moradores de rua são práticas contínuas em 120 anos de atuação. Talvez o diferencial desta crise seja o advento das plataformas tecnológicas. Negacionismo científico e fanatismo político não contribuem com a sociedade.”
Davi Lago, Capelão da Primeira Igreja Batista de São Paulo

“O isolamento social não deve ser impedimento para preces, orações, manifestações, jejuns. A pandemia não é um castigo – conforme o ensinamento de Buda, tudo que existe depende de causas, condições e efeitos, numa trama incrível. O momento é para refletirmos, observarmos com clareza como podemos modificar nosso comportamento e relacionamentos para que nos curemos e minimizemos sofrimentos.”
Monja Coen, Missionária da tradição japonesa Soto Zen

“Tenho notado que as pessoas estão buscando uma fonte de esperança e uma palavra de conforto. O meu conselho para esse momento de incerteza é para que tenhamos calma e esperança. Temos de cuidar do próximo e de nós.”
Padre Reginaldo Manzotti, Pároco do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe

“O momento mostra que a religião não deve ser praticada somente no templo. Deus não está confinado dentro da mesquita, as pessoas podem transformar sua casa num templo. As confraternizações têm um fator social, de apoio, e o ser humano precisa disso para a sua saúde mental. Porém, preservar a vida é prioridade. Os muçulmanos estão no mês do Ramadã, mas o isolamento não deve afetar a fé. Todo dia, faço preces, súplicas pelos profissionais que se arriscam e pedidos para Deus que cure as doenças.”
Sheikh Jihad Hammadeh, Vice-presidente da União Nacional das Entidades Islâmicas (UNI)

“As religiões de matriz africana e indígena têm tido dificuldades, pois o atendimento depende de um contato presencial, em que se procura entender aquela energia específica. Por meio de aplicativos, os sacerdotes têm dado orientações. Quando identificam que a pessoa precisa de atendimento urgente, a recebem em hora marcada, no que temos chamado de pronto-socorro espiritual, seguindo recomendações sanitárias.”
Pai Guimarães, diretor-presidente da Associação brasileira dos Templos de Umbanda e Candomblé (Abratu)

Tudo o que sabemos sobre:

religiãoPandemiaCoronavírus

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.