Assédio em foco: ‘Chega de Fiu Fiu’ ganha exibição especial no CineSesc
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Assédio em foco: ‘Chega de Fiu Fiu’ ganha exibição especial no CineSesc

André Carmona

21 Maio 2018 | 19h24

‘Chega de Fiu Fiu’. Foto: Taturana

Com direção de Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão, Chega de Fiu Fiu ganha projeção no CineSesc (R. Augusta, 2.075, Cerqueira César, 3087-0500), na 4ª (23), às 21h. A entrada é gratuita – mas é preciso retirar ingresso com uma hora de antecedência. Após a sessão, as diretoras participam de um debate sobre a produção.

Enredo do documentário

Uma trans que enfrenta o preconceito e a discriminação no Distrito Federal. Uma negra, abusada por um parente na infância, que habita a periferia de Salvador. Uma professora de história que circula pelos espaços mais privilegiados de São Paulo. As origens e o status social das personagens do filme podem até ser diferentes, mas uma situação, infelizmente, ainda as une: assim como todas as mulheres brasileiras, elas precisam lidar com o assédio constante de homens nas ruas das cidades.

O documentário, que integra a campanha homônima criada em 2014 pela organização Think Olga, discute justamente o tema, apresentando-o por distintos pontos de vista. Uma coisa, porém, é fato: o assédio faz parte do dia a dia das mulheres e, no longa, pode ser interpretado como uma prática cultural deletéria que implica questões primordiais. A restrição do direito ao espaço público está entre elas. Afinal, que mulher nunca teve medo de passar por uma rua escura demais ou sair sozinha para se divertir?

Propondo reflexões sobre a naturalização de alguns comportamentos masculinos (cantada é assédio?), as diretoras contextualizam as origens das cidades, a ocultação da participação feminina no movimento proletário e o início do discurso feminista no País. Temas como a sensualização e a estigmatização da mulher negra ganham tratamento cuidadoso. Mas não só.

Para criar uma espécie de ferramenta de conscientização, Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão colocam, também, os homens no centro da discussão. As histórias pessoais das entrevistadas são intercaladas por um grupo de homens que debate aspectos apresentados ao longo da narrativa. A desmistificação do agressor, tido muitas vezes como uma pessoa doente e fora do círculo social de todos nós, é outro ponto alto do documentário que chega ao circuito comercial nesta semana.

O filme não apenas mostra a realidade enfrentada pelas mulheres cotidianamente, como o faz de maneira inteligente e visualmente agradável. Planos abertos representando a freneticidade das modernas metrópoles são contrastados por histórias de quem têm o direito de ir e vir cerceado. A empatia por relatos reais e que transbordam sinceridade é imediata. Mas nem por isso a produção perde de vista a informação e a seriedade com que ela deve ser tratada. Os dados chocam por si. No Brasil, por exemplo, uma mulher é vítima de estupro a cada onze minutos. Por esses e outros motivos, o documentário dá sequência ao debate, que é urgente, tornando-se indispensável para entendermos e transformarmos este cruel panorama.

A seguir, confira a entrevista com a diretora Amanda Kamanchek.

Quando e como surgiu a ideia de se basear na campanha e produzir um documentário para debater a ideia do assédio sexual em espaços públicos? E o quão urgente é o tema?
A ideia se deu em 2014, após o lançamento da campanha Chega de Fiu Fiu e dos resultados do estudo online que a Think Olga fez sobre assédio. O questionário respondido por quase 8 mil mulheres mostrava que 98% das mulheres haviam sofrido assédio nas ruas, ou seja, todas as mulheres. Neste mesmo período surgiu o documentário ‘Femme de la Rue’, na Bélgica, que mostrava uma mulher registrando violências de gênero na rua com uma microcâmera. O filme provocou na Bélgica um intenso debate público sobre assédio, que resultou em novas políticas públicas e em multas severas para os assediadores. Sabendo da potência do audiovisual enquanto ferramenta de sensibilização, propomos à Juliana de Faria fazer um documentário sobre este tema, no qual pudéssemos traçar diferentes narrativas e camadas, com o intuito de entender e mostrar as causas da violência de gênero, bem como registrar um momento histórico em que o movimento feminista trouxe com força este tema para a agenda pública do Brasil.

Como se deu o processo de escolha das personagens que comporiam a produção? Apesar de, por exemplo, serem muito latentes a estigmatização e a sensualização da mulher negra, era muito importante manter uma heterogeneidade e trazer à tona outras narrativas?
Nossa prioridade era trazer a interseccionalidade de gênero, raça, classe social e identidade de gênero na investigação sobre a violência de gênero e como ela acontece. A pergunta norteadora do filme era “as cidades foram feitas para as mulheres”?. Com ela em mente, priorizamos na escolha das personagens não somente cidades de diferentes regiões do país, mas dialogar com as mulheres mais vulneráveis, aquelas às quais as políticas não chegam, que são as mulheres negras, pobres, e as trans. Embora as mulheres negras já circulem há muito mais tempo nos espaços públicos, dado que sempre trabalharam como operárias na casa de outras pessoas, por exemplo, a elas o direito à cidade é ainda mais restrito. Elas enfrentam muita dificuldade no acesso ao transporte público e mobilidade como um todo, no acesso à moradia e à qualidade de vida, ao lazer e tudo que inclui o usufruto do espaço público. A violência aí aparece de forma brutal e latente, não somente na restrição aos direitos, mas também no assédio que se mostra mais violento e objetificador ainda, uma vez que o corpo da mulher negra vem sendo objetificado desde a Escravatura, como diz no filme a filósofa Djamila Ribeiro. As personagens são Rosa Luz, uma mulher negra, trans e artista visual de Brasília, Raquel Carvalho, negra, manicure e estudante de enfermagem e moradora de Salvador, e Teresa Chaves, branca, professora de História, cicloativista e moradora de uma região nobre de São Paulo.

A violência e o assédio contra mulheres podem ser vistos como uma prática cultural, cuja principal característica resulta na restrição do direito ao espaço público?
Sim. O assédio é uma demonstração pública dos homens de que o espaço público não pertence a elas. É um espaço onde esta desigualdade de poder entre homens e mulheres aparece de forma clara. As entrevistas e grupos focais que fizemos no filme com os homens revela que o assédio é muito mais uma demonstração de poder do que uma tentativa de flerte ou de buscar de fato se relacionar com uma mulher. Essa atitude revela um ato violento pois humilha, ofende e subjuga as mulheres, as submetendo a situações não consensuais. Elas não têm a chance de dizer não ou mesmo de responder se desejam ou não se relacionar com aquele homem.

Qual é a importância de colocar os homens também no centro do debate?
Nós optamos por colocar os homens no filme como uma forma de confrontá-los, entender por que assediavam, mas também entender que normas e comportamentos são ensinados aos meninos desde cedo e que os levam a ser violentos. Fizemos uma roda de conversa sobre masculinidades, conduzida pelo antropólogo Rolf Malungo de Souza, com o intuito de estabelecer um ambiente em que eles mesmos pudessem se questionar. Rolf pesquisa há muitos anos este tema, em especial homens em ambientes que reforçam esta masculinidade típica e machista, como a pelada de futebol, churrascos e bares. O perfil dos homens participantes é muito diverso, inclui seguranças, caminhoneiros, sociólogos e professores de educação física. E as perguntas trazem as diferenças entre ser homem e ser mulher no espaço público.

Como espectador, a sensação do assédio ao vivo é grotesca. O filme também busca atingir o público masculino, criando ferramentas de conscientização?
Sim. A proposta é confrontar e abrir espaços para que os homens também conversem entre si sobre masculinidades e entendam um pouco do que significa ser mulher nas cidades. É fundamental que eles se repensem, pois são eles os autores da violência contra as mulheres, seja em casa, no ambiente de trabalho ou nas ruas. Eles precisam ser parte da solução e aprender a se relacionar de forma saudável e consensual.

E a luta continua, né?
Sim e ainda será preciso debater e compreender muito este tema para que haja reais mudanças culturais. O objetivo do filme ‘Chega de Fiu Fiu’ é ser esta ferramenta educativa, a ser debatida em escolas, universidades e com o setor público, sejam juízas, legisladores ou gestores.

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