Aguinaldo Silva: as pessoas querem ver novelões
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Aguinaldo Silva: as pessoas querem ver novelões

Redação Divirta-se

12 de maio de 2020 | 05h00

Danilo Casaletti, especial para o Estado

CONTEÚDO ABERTO PARA NÃO-ASSINANTES: O autor fala sobre a volta de ‘Fina Estampa’ ao horário nobre

O autor Aguinaldo Silva. Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Criador de personagens que entraram para o imaginário popular, como Nazaré Tedesco (Senhora do Destino), Maria Altiva (A Indomada), Comendador José Alfredo (Império) e Jorge Tadeu (Pedra Sobre Pedra), o pernambucano Aguinaldo Silva chegou à televisão no fim dos anos 1970 e escreveu ou foi coautor de novelas de sucesso – sempre no cobiçado horário nobre – como Roque Santeiro, Vale Tudo, Tieta e Fera Ferida. Fora da TV Globo desde o começo deste ano, Aguinaldo falou ao Estado, por e-mail, sobre a edição especial de Fina Estampa que está no ar.

Ficou surpreso com a escolha de Fina Estampa para ser reapresentada em horário nobre?
Sim, fiquei surpreso. Afinal, menos de um mês antes, eu tinha deixado de fazer parte do time de novelistas da emissora por vontade dela, expressa numa nota oficial de menos de dez linhas divulgada através da imprensa. Havia dezenas de novelas no acervo e qualquer uma delas poderia ter sido escolhida. Ao ler as primeiras notícias sobre o assunto, não acreditei. Até que a emissora, em outra nota oficial, confirmou para a imprensa que iria exibir de novo de Fina Estampa. Fiquei feliz, é claro.

Por que acha que a história de Fina Estampa fisgou novamente os telespectadores, conforme os números de audiência mostram?
Aguinaldo – Alguns críticos lamentaram a escolha de Fina Estampa. Dizem que a novela é‘antiga’ ou ‘datada’ e passa longe do modelo das novelas atuais. Este ‘modelo atual’ é aquele que os críticos aprovam. O problema é que as novelas não são feitas para os críticos e sim para 50, 60 milhões de telespectadores. E o que esses querem – as audiências comprovam – não são novelas que não parecem novelas, mas, sim, novelões, ou seja: aquelas que seguem fielmente as regras estritas do melodrama. Nesse sentido, Fina Estampa é, sim, uma novela que vai mexer com os sentimentos do telespectador sempre que for exibida, não importa a época.

Em entrevista recente ao Estado, a atriz Cristiane Torloni disse que os personagens Teresa Cristina e Crô têm um tom que está “um pouco além da realidade do naturalismo”. Foi assim mesmo que eles foram criados?
A relação de Teresa Cristina com Crodoaldo Valério é cruel, mas é também dúbia. Ela claramente depende dele, inclusive emocionalmente. E Crô se faz de escravo dela, mas sabe dessa dependência e se aproveita disso. Sim, o tom dos dois vai um pouco além da realidade do naturalismo, porque achei que através do humor eu poderia deixar mais claro que a relação deles era mais complicada do que aparenta, ou seja, que o buraco ali é mais
embaixo.

Outro dia o senhor fez uma defesa do personagem Crô nas redes sociais, disse que ele representa o gay afeminado, que precisa ser visto sem preconceito. O senhor acha que algumas situações que envolvem o personagem soam como politicamente incorretas nos dias de hoje?
Primeiro, me espanta muito que, numa época em que cada pessoa pode escolher o próprio sexo – se um homem diz ‘eu sou mulher’ é oficialmente aceito como tal – continue havendo um preconceito tão grande contra o assim chamado ‘gay pintoso’. Graças a Deus, vivemos num tempo em que cada pessoa é o que deseja ser e, portanto, se um gay quer ser pintoso é um direito dele…Assim como é direito de outros se vestir de mulher e dizer: eu sou trans. Segundo, o que me interessava nessa dupla Crô e Tereza Cristina não era ressaltar a sexualidade ou os maneirismos dele, mas sim, a relação entre dominador e dominado e quem é quem nesta charada. Quanto ao politicamente correto, ele diria sobre Branca de Neve que ela explorava os sete anões e, portanto, deveria varrida do território dos contos de fadas e execrada.

 Por outro lado, há a questão do personagem Baltazar (Alexandre Nero) e a violência doméstica que aparece como algo precursor na forma em que foi abordada, não?
Na versão original, sim. Nessa edição especial, a história foi bastante editada e perdeu a força.

Acha que, de alguma maneira, Fina Estampa envelheceu?
A Uma novela de televisão tem que ser vista – e julgada – no calor da hora, ou seja, enquanto está sendo exibida. Tanto que os remakes de novelas de muito sucesso não funcionaram. Na minha opinião a mãe de todas as novelas modernas é Pecado Capital, de Janete Clair. Mas, quando fizeram um remake dela, não foi a mesma coisa. A Fina Estampa que está no ar não é a original, já que foi reeditada. Com isso ela perdeu gorduras e agora parece
fresca e nova.

Teresa Cristina (Christiane Torloni) e Crô (Marcelo Serrado), personagens de Fina Estampa. Foto: José Miguel Junior/ Globo

Ao longo de sua carreira, o senhor deve ter ouvido algumas vezes que o gênero telenovela estava acabando, sobretudo no começo dos anos 2000. Como analisa o momento atual?
Como não sou mais do ramo (pelo menos por enquanto) prefiro não fazer esse tipo de análise. Digo apenas que a chamada novela das nove, dia após dia, continua sendo o programa de maior audiência da televisão brasileira. Até O Sétimo Guardião, que muitos consideram ‘um fracasso’, enquanto esteve no ar, foi a campeã de audiência ou seja: nenhum programa de televisão conseguiu ser mais visto que ela.

O senhor sofreu algumas críticas por conta de elementos do realismo fantástico inseridos na história de O Sétimo Guardião. Essa escola, da qual o senhor é uma das referências, se esgotou nas telenovelas?
O que se esgotou foi a safra de diretores que embarcavam na canoa, ou seja, tinham afinidades com o gênero. O que posso dizer é que Paulo Ubiratan (1947-1998), que dirigiu a maioria das minhas novelas, morreu cedo demais e até hoje faz falta.

O senhor declarou que está escrevendo uma série. Pode adiantar o tema? Pensa em escrever mais novelas?
Assim como James Bond, eu nunca direi nunca. Se disser aqui que nunca mais escreverei novelas, correrei o risco de, daqui a alguns meses, voltar a escrevê-las. Quanto à série que estou escrevendo, prefiro manter o tema (e a trama) em segredo.

 

 

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