‘A Outra História do Mundo’ explora a ditadura militar uruguaia da perspectiva do interior
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‘A Outra História do Mundo’ explora a ditadura militar uruguaia da perspectiva do interior

André Carmona

02 Agosto 2018 | 20h30

Roberto Suárez e César Troncoso: amizade dentro e fora das telas. Foto: Fênix Filmes

A Outra História do Mundo, que tem direção de Guillermo Casanova, se passa durante o fim da ditadura militar uruguaia. O novo coronel acaba de tomar posse na fictícia Mosquitos. E sua primeira ordem é controversa: o único bar local precisa, agora, fechar suas portas às 22h.

Indignados, dois amigos de infância, Esnal (César Troncoso) e Milo (Roberto Suárez), decidem pregar uma peça no militar. E Milo acaba sequestrado pelo regime.

Com ajuda das filhas do velho parceiro, Esnal, então, bola um plano: dar aulas de história para conscientizar a população do vilarejo sobre os danos causados pela repressão. “Não é um filme sobre ditadura militar. Mas uma história sobre vítimas da ditadura que nem sempre são lembradas. Afinal, os personagens não são militantes nem guerrilheiros, mas gente comum, do interior, que decide agir por um motivo inicialmente banal”, contou Casanova ao Divirta-se.

Diferentemente de outras produções com a mesma temática, cuja atenção é captada por meio da violência, o filme uruguaio envereda por um caminho mais poético e divertido. A luta das filhas para achar o pai, somada à força da amizade entre Esnal e Milo, conduz as ações do protagonista, que conquista, com suas aulas de história, não apenas a cidade, mas também os espectadores.

Presente na entrevista, o ator César Troncoso também falou sobre o longa: “A história sempre vai ser manipulação; sempre vai ter um ponto de vista interessado. Neste caso, é a amizade, também verdadeira fora das telas.”

A seguir, confira o bate-papo completo com o diretor Guillermo Casanova e o ator César Troncoso:

O filme levanta o tema da manipulação da história, de como a história é construída por um propósito. A mesma história que manipula pode ser a história que conscientiza, como no filme?

César Troncoso: A história sempre vai ser manipulação. Sempre vai ter um ponto de vista e esse ponto de vista sempre vai ser interessado. Nós, por exemplo, no Uruguai, temos o nosso herói nacional, que é o José Artigas. Ele era um cara que não tinha rosto, não sabíamos como ele era. Mas o presidente Santos (o militar Maximo Santos) falou com um dos pintores daquela época para criar o herói, para colocar um rosto nele. E aí construímos um personagem cuja imagem mais clássica é uma mentira. Então, sempre tem um pouco dessa manipulação. Se a manipulação pode ser para o mal ou para bem? Não sei. Não acho que exista uma manipulação de boa qualidade. Mas é claro que você tem pontos de vista e cada ponto de vista é um mundo.

Guillermo Casanova: Você pesquisa, escuta frases e vai mantendo essas ideias na cabeça para traduzir em roteiro. Uma das frases em que mais me inspirei – não sei de onde a tirei – foi que, antes, as histórias eram contadas pelos vencedores. Sempre se dizia que os ganhadores são os que contam a história. Agora, sinto que não, que a história é contada, na verdade, pelos sobreviventes. Os que sobrevivem à história podem também contá-la. Como César falou, quem era José Artigas? Na verdade, José Artigas era um derrotado. Ele perdeu todas as guerras, foi exilado e preso. Nosso país, o Uruguai, é um país de derrotados. Então, acredito que nossa história é contada sempre a partir de um outro lugar, muito menos glorioso do que parece.

Uma questão forte no filme é a amizade entre os protagonistas, que sustenta toda a trama. Como foi trabalhar o personagem tendo em conta este laço?

César: Engraçado. Todo mundo me pergunta como eu faço para trabalhar os personagens e eu não sei responder; não tenho a menor ideia. Eu acho que você precisa de observação, do entendimento da trama; precisa de conhecimento, de pontos de vista diferentes. Mas tem coisas que, com certeza, ajudam. Por exemplo, Roberto Suárez e eu começamos há 25, 30 anos, juntos. Ele (Guillermo, o diretor) sempre pensou em nós pra interpretar esses personagens. Nós fazíamos um duo cômico que se chamava ‘Suárez e Troncoso’, lá no Uruguai. Então, a amizade retratada no filme também é verdadeira na vida real. E vale muito para a produção. A confiança que eu tenho no Guillermo, a amizade que eu tenho com o Roberto, tudo isso soma pro trabalho. Mas vou confessar: foi um personagem de risco (risos). Eu perdi o baço por conta de Esnal. Durante as filmagens, sofri um acidente; escorreguei e caí em cima de uma garrafa térmica. Precisei me ausentar durante um mês para fazer uma cirurgia.

Guillermo: É. A história, que é baseada numa novela de Mario Delgado Aparaín, já parte da amizade entre os personagens. Mas o livro caminha por outro espaço. Mario é de outra geração, uma geração mais velha, que viveu no começo da ditadura militar. Já nós somos do fim da ditadura. Por isso, o filme muda de uma tragédia cômica para uma comédia trágica. O tom foi mudando durante as filmagens e foi se transformando de uma história de dois amigos para uma história na qual as mulheres (as filhas de Milo) aparecem com muito mais força – diferentemente até do roteiro que escrevi previamente. Durante a edição, elas realmente tomaram o poder. O filme é narrado com base na força e no poder das filhas.

Os filmes latino-americanos, incluindo os brasileiros, quando abordam o período de ditadura militar, normalmente tratam de um contexto urbanizado, com uma violência mais explícita. E o filme de vocês tem uma poética mais uruguaia, de um lugar menor, do interior. Como foi esse processo?

Guillermo: O que quisemos contar é que, mesmo na ditadura, a vida continua. Não é uma história na qual estamos em Auschwitz. A ditadura não era um lugar onde sofria-se todos os dias, de fome, de medo, de tudo. Não, a vida continua. As pessoas precisam cuidar de suas famílias. Os pais criam os filhos, com ou sem ditadura. E a vida necessariamente tem que ser feliz, principalmente do ponto de vista do jovem ou da criança. A história que é preciso ser contada não é somente a dos presos políticos. A vida toda nos fizeram acreditar que só havia dois lados: militares e guerrilheiros. E não foi assim. A grande maioria era gente que não queria a ditadura, mas que precisava viver. No filme, Milo e Esnal fizeram o que fizeram mais por tédio do que por ideologia.

César: O que você falou é certo. Essa é uma história do interior e a verdade é que, quando você pensa em repressão, logo pensa em grandes cidades. Por quê? Porque tem as universidades, o movimento estudantil, etc. Mas é fato que a ditadura não respeita limites urbanos; ela atinge todo o país. É assim que funciona. Então, o que é interessante no filme de Guillermo, para mim, é isso: você expõe uma narrativa de outro ponto de vista, que também é um ponto de vista de repressão. Neste momento, tem muita gente pedindo a volta da ditadura. As pessoas acreditam que a ditadura irá castigar os maus. Mas se você coloca o exército no poder, este exército não vai castigar os maus, mas vai afetar a vida de todos, inclusive a vida daqueles que o pedem de volta. É interessante que, no longa, a história da guerrilha urbana dá lugar a outras vítimas da ditadura. Porque a ditadura também se estabeleceu no interior. Assim, o filme recupera aquelas outras vítimas silenciosas que ninguém vê.

O Brasil vive uma onda de conservadorismo. O Uruguai também passa pelo mesmo momento?

César: Não. O que acontece lá é bem diferente da situação pela qual o Brasil está passando. Porque nós não temos um Bolsonaro, com possibilidades reais de ganhar o governo. Isso faz uma diferença importante. Mas a onda conservadora, em geral, está se aproximando novamente. É verdade que a agenda de direitos humanos vai melhor lá do que aqui. Temos a legalização do aborto, temos a maconha liberada. Por outro lado, também temos o nosso conservadorismo.

Guillermo: O filme é uma alegoria contra a repressão, contra o conservadorismo, contra a negação da liberdade. É uma crítica atual. O que o Uruguai conquistou recentemente deve ser aplaudido, mas não se pode estacionar e parar de evoluir. Ou mesmo retroceder. Mas, se fôssemos brasileiros, com certeza o filme seria outro; isto é, estaríamos falando de outras coisas.

Em suas aulas de história, Esnal trabalha muito com projeções e jogos de sombra. É uma metáfora de ‘O Mito da Caverna’ de Platão, que também discute a manipulação?

Guillermo: Essa ideia (das projeções) é nossa (risos). Depois, quando estávamos editando as cenas, pensamos: ‘É Platão!’. Não foi consciente. As sombras eram um efeito visual para poder contar a história. Retratar as aulas de Esnal não era uma coisa fácil, no que diz respeito à realização cinematográfica. Conceitualmente, é um momento difícil, mas chave. Inclusive, as projeções foram realizadas por um grupo brasileiro (Cia. Teatro Lumbra/Clube da Sombra). No início, tínhamos pensado, para essa parte do filme, em trabalhar com animação. Mas financeiramente era algo caro. E como poderíamos competir esteticamente com uma animação? O teatro de sombras foi a resposta. Depois, só depois, viemos a perceber que se tratava de Platão.

No filme, vemos muitas referências ao Brasil. Como é essa relação da fronteira do Uruguai com o Brasil?

César: Um amigo meu brasileiro, uma vez, me falou: ‘Você sabe o que são os uruguaios?’. Após minha negativa, ele disse: ‘São três milhões de argentinos morando em território brasileiro’. A fronteira é uma coisa… Nós somos muito parecidos com os argentinos, mas com a Argentina temos o rio, o Rio Uruguai e depois o Rio da Prata, mas para chegar ao Brasil, basta cruzar a fronteira caminhando. Eu fiz um filme no Chui, brasileiro, do Paulo Nascimento, um diretor gaúcho, e nós decidimos exibir primeiramente para quem trabalhou na produção. Colocamos uma tela na rua que divide o Uruguai e o Brasil. Metade da tela estava no Brasil e a outra metade estava no Uruguai. A nossa fonteira com vocês, no sul, não existe. E a solidariedade não tem nacionalidade.

Guillermo: O mundo do Uruguai se divide em dois: interior e Montevidéu. Montevidéu é Rio da Prata, Argentina. Mas, na fronteira, no norte, o país é totalmente ‘abrasileirado’. A cultura do Brasil é muito forte. O portunhol, lá, é quase uma língua oficial. Tanto que existe um movimento de brasileiros e uruguaios que estão querendo fazer romances em portunhol. É curioso. Também sinto que, para a nossa geração, o Brasil era o país da liberdade, de alegria. Hoje, sei que o brasileiro não é tão alegre assim. Nessa época, havia também um grafite muito conhecido no Uruguai: ‘anexação ao Brasil já!’.