Zélia Duncan defende família e ataca ‘discursos de ódio’

Zélia Duncan defende família e ataca ‘discursos de ódio’

Sonia Racy

04 de novembro de 2019 | 00h45

ZÉLIA DUNCAN FOTO: FOTO PAULO LIEBERT/AE

 

Com dois shows marcados para SP esta semana, 
a cantora, que faz curso para ser atriz, conta como a família
foi importante para sua carreira e defende os gays 
dos que os atacam: “O ódio é sempre direcionado 
a quem parece diferente.” 

 

Ela não sabe viver sem  cantar. Ser cantora, define, é “onde me sinto sem opção”. Entretanto, Zélia Duncan tem consciência do seu talento “multifacetado”. Está hoje fazendo curso para ser atriz na Casa de Artes em Laranjeiras, no Rio. Acaba de compor 14 letras a serem interpretadas por 14 mulheres diferentes e reunidas em um só álbum no qual ela própria se absteve de cantar. E prepara a voz para shows nestas quinta e sexta-feira em São Paulo, na Casa Natura Musical.
“Por respeito, decidi não cantar neste álbum”, contou em conversa com a coluna, no Rio, lembrando que canta profissionalmente desde os 16 anos. Não sem antes ter tentado ser jogadora de vôlei, em Brasília. “Mas vocação é vocação”.

Com o apoio da família, ela chegou ao sucesso cedo, com seu hit Catedral, trilha da novela A Próxima Vítima, da Globo, em 1995. E foi também com o apoio da família – principalmente da avó – que assumiu logo cedo sua orientação sexual, antes mesmo de gravar seu primeiro álbum. Zélia, nascida em Niterói, relata como foi que sua avó, sabendo que a neta, de 18 anos, iria procurar gravadora, agiu: “Entrou no meu quarto, me deu um dinheirinho para pegar um taxi quando chegasse a São Paulo”. Sua mãe, também cantora, a incentivou a vida toda. “Família é uma coisa muito especial para mim”.

Sempre atenta às questões feministas, Zélia acredita que a hora da empatia, mais do que nunca, é agora. “Ações micro. Fazer um gesto a cada dia. Deus para mim é um gesto. O que estou propondo para minha vida é nunca deixar de olhar o outro”, afirma.

Discutir publicamente sua homossexualidade também é importante neste momento. Ter-se descoberto gay na década de 80 não foi fácil, segundo ela, mas hoje – com a coragem da nova geração – ela se sente mais à vontade para falar sobre o assunto. “A maior questão para nós hoje, mulheres gays, é a invisibilidade. Temos que chamar a atenção para a questão. Isso não pode acontecer”, afirma. Preocupada com os rumos do País, Zélia acredita que, apesar do crescimento do discurso de ódio contra os gays, a esperança está nos jovens e em uma educação baseada na tolerância. “O ódio é sempre direcionado a quem parece diferente. Ser diferente incomoda.” Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

Sua opção sexual apareceu cedo?
No mesmo ano em que eu comecei a cantar, em 1981. Demorei muito a me sentir à vontade. Muito. Mesmo depois de eu ter estourado com minhas gravações, não falava tranquilamente sobre isso. Hoje é muito tranquilo e até importante falar que eu sou gay.

O que mudou de lá para cá?
O que mais muda é a gente mesmo. Amadurecemos e entendemos porque a palavra orgulho é tão importante. Eu tenho que ter orgulho de quem sou, do que sinto. Uma pessoa dentro de um padrão nem precisa pensar nisso. O mundo é dela.

Você acha?

Tenho certeza. Você sai com o seu namorado e fica tranquila para ser quem você é, para expor os seus sentimentos. A gente não é assim. Somos reprimidos frequentemente. Mesmo hoje, quando sou supertranquila, não saio com a minha namorada na rua do jeito mais explícito. Embora muitas mulheres façam isso e eu ache bacana. As jovens se empoderaram mais do que a minha geração. A maior questão para nós, mulheres gays, é a invisibilidade. Por que somos invisíveis? Aprendi, com as meninas mais jovens, que, quando nos tornamos invisíveis para os outros, normalizamos essa questão. E isso não pode.

Acha que ainda há muito preconceito?
É diferente você ser a melhor amiga de um gay e você ser um gay. É diferente. Até de brincar disso de vez em quando. Porque tem gente que brinca disso de vez em quando, mas volta pra vida de sempre. Ter uma vida onde a sua opção é essa tem muitas limitações.
Você não acha que hoje em dia a opção é por pessoas, independentemente do sexo?
A nova geração é uma coisa maravilhosa porque eles não têm que escolher. Mas, na hora que um deles escolher já muda de figura. Você vê que, na situação que estamos vivendo, a primeira coisa atingida, antes da cultura, foram os homossexuais. Os primeiros discursos de ódio foram para cima de nós.

O que mais lhe chamou a atenção?
Essa ministra… Damaris, inventa coisas. Do nada ela começa a falar dos homossexuais. Eles estão querendo trazer à tona aquela velha máxima, horrorosa, de que o gay é doente. Se você olhar na história dos séculos, sempre foi assim. Por quê? O ódio é sempre direcionado a quem parece diferente. O diferente mostra o quão misterioso é o ser humano, né?

Acha que isso é global ou é algo apenas do Brasil?
É do ser humano. Mas nós somos terceiro mundo. Se tem gente passando fome, como vamos lutar pelos direitos civis? Primeiro deveríamos ter uma igualdade social maior. E, nessa fase obscura e fascista, eles vão para cima disso. O diferente apavora. E se você tem um líder que fomenta isso, só piora.

Como você acha que os LGBTs deveriam reagir?
Primeiro, temos que educar nossas crianças. Elas são a esperança. Eu tive duas amigas gays que tiveram gêmeos meninos. Eu disse para elas: “Vamos fazer dois caras legais aí hein?” Dizer para o menino que as meninas têm direitos e dizer para elas terem orgulho de serem quem são. Gente, pelo amor de Deus, esse negócio de homem não chorar, passamos já por isso. A coisa começa na linguagem.

Em termos práticos, o que um governo poderia fazer a respeito da tolerância?
Leis. Eles querem tirar coisas que nós já conquistamos. O que eles querem é deixar todo mundo na clandestinidade, porque aí a gente pode ser atacado. O que o governo deveria fazer com os seus cidadãos? Protegê-los. Somos todos iguais. Você não pode olhar pra uma pessoa diferente de você e achar que ela não merece viver. Com que direito? Como é que alguém luta contra uma lei que combate a homofobia? Por quê? Tem uma coisa que o Drauzio (Varella) fala com muita simplicidade: “O que te diz respeito se o teu vizinho dorme com quem ele quer dormir?” Mas incomoda. Aí eles usam a palavra família.

É a liberdade que incomoda?
Claro. Tudo que é muito rígido é hipócrita. Esses caras têm outras famílias, agridem as mulheres. Fala-se que o maior nível de mulher agredida é evangélica. Não tenho exatamente os números, mas sei que são aconselhadas a aguentar. Aí morrem. Ela vai para o pastor e se abre, aí o pastor fala “você tem que manter a sua família”. Aí ela vai ficando.

O que é uma família?
Amor. Família é quem cuida um do outro. O maior índice de agressão sexual é dentro de casa. Sempre foi, em qualquer nível social. Família protege.

Você tem alguma religião?
Eu não gosto de religião. Respeito profundamente as religiões. Mas não consigo me entregar a nada disso. Se você me diz, toma isso aqui, vai lhe fazer bem, acredito em você. No amor e no cuidado que você joga pra mim. Acredito na compaixão, acho linda a palavra.

Você acredita em fazer o bem.
Sim, acredito. Eu acho que a nossa vida está no micro. Fazer um gesto a cada dia. Deus pra mim é um gesto. O que estou propondo para minha vida é nunca mais deixar de olhar o outro. Mesmo eu tendo fama de marrenta. Quero aprender a acolher cada vez mais.

Acolher todo mundo, é isso?
Todo mundo, mas tem gente que sofre mais. Por que é que tem que ter um vagão só de mulher? Por quê? Os caras fazem horrores com elas todo dia. Todo dia tem um relato. Por que a gente precisa disso? Machismo.

Machismo sempre existiu?
Sempre. Estou lendo A Guerra Não Tem Rosto de Mulher. Na apresentação eu já chorei. Em todas as guerras, qualquer guerra, as mulheres lutaram. Por que não aparecem em livros, registros? Corpos de mulheres são sempre encontrados nos campos de guerra.

Como começou a trilhar o caminho de ser compositora e cantora?
A cantora veio antes de tudo, é o lugar no qual me sinto sem opção. Tive o grande privilégio de não querer ser outra coisa. Cheguei a jogar basquete, mas quando se descobre que tem uma voz, é um negócio muito louco. E, por ser de uma família que sempre cultuou a leitura, sempre tive caderninho de pensamentos com anotações. Descobri esse prazer, além de cantar, de compor também.

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