Maitê se associa a empresa de cosméticos sustentáveis

Maitê se associa a empresa de cosméticos sustentáveis

Sonia Racy

18 de fevereiro de 2019 | 01h10


MAITÊ PROENÇA. FOTO IARA MORSELLI/ESTADÃO

Envolvida na causa da preservação do planeta,
Maitê Proença 
produz há anos sua própria pasta de dentes
e cremes de forma limpa e sustentável e se associa a empresa para valorizar reutilização de embalagens

Maitê Proença é a mais nova industrial brasileira. Sem revelar números ou montante de investimento, a atriz contou à coluna que acaba de se tornar sócia da Reload Beleza Positiva, marca de cosméticos que surgiu em 2015 pelas mãos de Filipe Sabará, atual presidente do Fundo Social do Estado e fundador da ONG Arcah.  “Sempre tive vontade de navegar por essas águas e a oportunidade surgiu com a coincidência de pensamentos.” A Reload nasceu introduzindo a reciclagem de embalagens. E agora vai passar para a reutilização das mesmas, com a contribuição da ativista ecológica: um aprofundamento no conceito pós-sustentável está em curso.

Isso não quer dizer que ela abandonará o teatro. “Criei projeto para apresentar um repertório de peças, não só nas grandes cidades mas também em quilombos, tribos e pequenas cidades que nunca receberam qualquer tipo de atividade artística”, informa. Durante 2018, a atriz se embrenhou pelo interior do País com a peça A Mulher de Bath, se emocionando com o público — que chegava a chorar. “Me diziam que pela primeira vez se sentiram incluídos no mapa do Brasil”, afirmou, acrescentando que é isso o que quer da vida. “Vou viajar por aí levando cultura e ensinamentos em workshops ministrados pelo iluminador, pelo sonoplasta, as atrizes e o diretor. Já combinei com Amir Haddad e com minha equipe. Estamos todos contaminados por esse entusiasmo.”

Maitê quer interagir de forma intensa e completa. “Vamos filmar toda a experiência para, no final, termos um belo documentário dessa incursão. O pouco que já fizemos foi valioso, fundamental!”. São rentáveis, essas apresentações? “Juntei recursos próprios e procuro um parceiro financeiro para conseguir ir mais fundo.” Ela não sabe se isso vai dar dinheiro, mas explica que não é o foco. “Estou ligada na paixão, enchendo a vida de sentido, estendendo a mão e com o coração bem aberto. Nas artes e na ecologia”. E na nova função de empresária? “Também tenho paixão por poder transformar os hábitos das pessoas….” Aqui vão trechos da conversa.

O que a levou a essa nova empreitada empresarial?
Aproveitei que minha vida mudou por motivos involuntários pra trocar de rumo, algo que vinha sendo adiado por força do hábito e por motivos financeiros. É imperativo que eu me jogue apenas no que me parece fundamental. Estou tomada por uma necessidade de contribuir de forma consistente para este planeta que estamos desmantelando de forma física e moral.

Você é uma ativista ambiental. Mas fabricar produtos cosméticos? Como isso entrou na sua agenda?
O foco não é o cosmético, ainda que os produtos sejam bons para o corpo e o meio ambiente. O foco é reutilizar garrafas plásticas que, de outra forma, iriam para o lixo. Mas vamos lá. Há duas frentes que me movem. Uma é o teatro que tenho levado em turnê pelo Brasil. E que agora, já que ficou mais difícil, resolvi dificultar ainda mais (rsrs) levando arte para quem nunca a teve.

E a outra frente?
Tem a ver com o ativismo ambiental que nasceu em mim aos 20 anos, quando vivi na Europa, e que de uns tempos pra cá tem-se tornado cada vez mais a minha praia. Sinto imenso desconforto quando uso algum produto que se diz natural, sustentável e o escambau. Ok, sei que estou fazendo bem pro meu corpo, mas agora que acabou o creme, a pasta, o xampu, o que faço com essa embalagem plástica? Jogo fora? Não se joga nada fora, a gente joga dentro de nosso planeta comum. Uma percentagem mínima é reciclada e o restante vai parar nos rios, lagoas e no mar.

E como você resolve isso?
Há anos produzo minha própria pasta de dente, meu desodorante… Todos os poucos produtos de limpeza de minha casa são fabricados por mim, uso um creme pra rosto e corpo feito do Cerrado de forma limpa e sustentável. Evito plásticos, trato meu lixo. Reutilizo embalagens antigas para os produtos que fabrico.

Como começou esse ataque de Bastiana natureba? Você tem alergia a produtos químicos? Ou é alergia psicológica?
Sou alérgica à falta de consciência, ao desleixo com o que é público, à postura do “não é comigo, a culpa é do outro”.

Quando você percebeu que chegou a hora de criar a sua linha de produtos?
A prática vem da minha filosofia de vida: tem que fazer bem pra mim e para os outros. As pessoas sempre me perguntam o que faço para manter a saúde, a beleza, o viço. Pois bem, aí está. Encontrei um amigo que vinha na mesma pegada. Conversamos, nos associamos, e agora existem para todos, no mercado, os primeiros produtos do mundo com embalagens que retiramos do lixo. Os produtos de nossa Reload Beleza Positiva reutilizam garrafas pet para embalar xampu e condicionador biodegradáveis, sem veneno e de qualidade. Nossa prática é a da economia circular. Todas as etapas do produtos são responsáveis. O que está dentro não contém parabeno, sulfato, silicone, e não é testado em animais. É feito pra quem usa e quando entra no ralo se dilui nos rios. Quem fornece a matéria-prima do óleo de argan, óleo de moringa e quinoa são comunidades com as quais lidamos diretamente. Quando você acaba de usar aquele xampu e condicionador que deixou lindo e forte o seu cabelo sobra uma garrafa já reutilizada e que será usada de novo até precisar ser reciclada. Isso também faremos com os potes danificados.

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‘NINGUÉM JOGA NADA
FORA. TUDO É JOGADO
DENTRO DO PLANETA’
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Quem limpa as garrafas?
Usamos mão de obra marginalizada, de refugiados, drogados e desabrigados das ruas de SP. Nós os empregamos e treinamos para essa higienização. Se você devolver a garrafa no coletor instalado em cada estande de venda, você adquire novo produto com 30% de desconto. Se trouxer de casa qualquer outra garrafa Pet, ganha 20%. O xampu e condicionador são os primeiros de uma linha completa que estamos desenvolvendo em prol de um consumo engajado e consciente. Você pode também comprar online. Vai guardando a garrafa até haver um ponto de coleta próximo de sua casa ou trabalho. Para isso estamos fazendo parcerias com supermercados, farmácias e shoppings.

Você é boa de administração gerencial?
Não, sou péssima! Mas temos equipe. E meu sócio entende muito do riscado.

Essa marca Reload já não estava no mercado?
A Reload foi uma ideia do Filipe Sabará, meu sócio. Por um tempo, a marca se desvirtuou de sua própria filosofia mas agora volta com o conceito firme e alinhado com tudo isso que descrevi acima.

Quem investiu o quê?
Os sócios majoritários investiram dinheiro, eu entre eles.

Tem prazo de retorno do investimento? Vão distribuir para o Brasil inteiro?
Vamos distribuir em larga escala, temos condições pra isso. É uma ideia de ponta, somos os primeiros a funcionar nesse formato, e temos um produto de muita qualidade. Faremos cremes corporais, pasta de dente, sabonetes, filtro solar, etc. Mas cada coisa terá a sua vez, sem perder o foco e a qualidade.

Vocês fizeram pesquisa? Têm concorrentes?
Não temos concorrentes. Até alguém copiar a ideia. Mas isso será ótimo, porque é assim que deveriam proceder as outras marcas. A gente precisa ser responsável pelo lixo que produz.

Sobre suas outras atividades: o teatro dá dinheiro no Brasil?
Muito pouco. É quase impossível, no momento, manter uma peça em cartaz.

E quanto ao debate sobre meia entrada? O que acha?
Acho que se o governo pretende mesmo ser legal com os estudantes e os idosos, deveria subsidiar o meu custo. Porque o cenário que eu fabrico não custa metade. E meus técnicos e funcionários também são pagos integralmente. Como está, 0 meu custo se mantém mas recebo só metade no final da sessão. A conta não fecha.

Que acha da Lei Rouanet?
É um mecanismo que funciona bastante bem. Quem decide se quer ou não dar dinheiro pro teatro é o setor privado e não o governo, que apenas chancela ou não aquele projeto para que possa ser apresentado às empresas privadas. Há muita desinformação sobre o tema.

As estatais vão parar de patrocinar a cultura. Que lhe parece essa decisão?
Desde que o mundo é mundo, nunca houve uma sociedade que tenha sobrevivido só de trabalho e de fazer dinheiro. Sem o descanso, o lazer, a diversão, a fantasia, e a beleza as pessoas adoecem e enlouquecem. E olhe que, no mundo atual, já andamos tão fora do prumo…

Quais as perspectivas que você vê para a TV aberta ?
O Boni, amigo querido, que entende disso como ninguém, sempre disse que a saída pra TV Globo seria nivelar por cima. Já há quem faça de outra forma. Acho que ele tem toda a razão.

Onde entra, nessa sua atividade a relação com sua filha Maria?
Minha filha é a pessoa com quem tenho a maior identidade ética e de comportamento. Quando a gente olha pro mundo, ainda que tenhamos temperamentos muito diferentes, a gente pensa muito parecido. E a gente ri quando está junto. É um convívio delicioso.

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