‘Vou me transformar em um homem que vai se transformar em mulher’

‘Vou me transformar em um homem que vai se transformar em mulher’

Sonia Racy

24 de agosto de 2015 | 00h10

Foto: Marina Malheiros

A atriz Carolina Ferraz, que  acaba de ser mãe aos 45 anos, volta a trabalhar e produz, pela primeira vez, longa-metragem no qual enfrentará o desafio de interpretar uma transexual

Assumidamente “workaholic”, Carolina Ferraz já está no batente em diferentes frentes, poucos meses depois de dar à luz Isabel, sua caçula. “Estou saindo do zero para os 80, logo assim. Eu adoro. São projetos bacanas e eu estou muito feliz com eles”, afirmou a atriz, em entrevista à coluna, em seu apartamento em São Paulo. Os projetos são – além da terceira temporada do programa Receitas da Carolina, no GNT e uma novela em novembro – a produção e filmagem do longa A Glória e a Graça, a ser dirigido por Flávio Tambellini, no qual a atriz vai interpretar uma transexual. Há dez anos, Carolina leu o roteiro, comprou os direitos e, há tempos, luta para conseguir viabilizar e rodar a história – que trata de um reencontro entre irmãos, um deles transexual.

Para preparar sua interpretação, ela fez um extensa pesquisa sobre a questão de gênero no País e um “laboratório” acompanhando transexuais no Rio de Janeiro. “Vou ter que me transformar em um homem que vai se transformar numa mulher”, antecipa, sobre o desafio. “Seja lá como for a construção dessa personagem, ela vai agradar a alguns, não vai agradar a outros, mas vai se encaixar dentro dessa pluralidade de gêneros”, conclui. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Como foi a sua pesquisa com os transexuais?
A pesquisa que eu fiz foi há uns 7, 8 anos atrás. Cheguei a entrevistar 62 travestis em São Paulo e no Rio, cheguei a sair uma vez à noite com uma delas, elas me vestiram, me montaram, me maquiaram. Foram superqueridas. Ninguém avisou a ninguém que estavam saindo com uma atriz, para não interferir. Acredito que houve uma mudança desde a época em que comecei a me envolver com o projeto para os dias de hoje. No próprio gênero, entre as transexuais. Elas estão muito mais naturais e muito menos produzidas. Nem sempre é aquela coisa estereotipada, de pessoas inteiras montadas.

Como Caitlyn Jenner, agora nos Estados Unidos?
Sim, todas são quase como a Caitlyn Jenner, atualmente. Que é superfeminina, os cabelos são lisos, pouca maquiagem, tem uma roupa moderna. Hoje em dia eu acho que a própria pesquisa está muito mais complexa. Por essas razões, acho que esse trabalho é o maior desafio que eu tenho na minha história recente como atriz.

Por quê?
Porque eu estava fazendo uma pesquisa de um filósofo que estava tentando catalogar os gêneros e descobri que existem até hoje 54 gêneros diferentes. Tem mulher que gosta só de mulher, tem mulher que gosta de mulher com jeito de homem, é muito difícil discutir a sexualidade das pessoas. Então isso me libertou também, porque, seja lá como for a construção dessa personagem, ela vai agradar a alguns, não vai agradar a outros, mas sem dúvida ela vai se encaixar dentro dessa pluralidade de gêneros.

Até porque você é uma mulher interpretando uma transexual, não é mesmo?
Sim, é diferente. Elas acham incrível que quem a indicada para interpretar essa personagem seja eu. Não porque eu sou a Carolina Ferraz ou porque elas me acham bacana, mas porque elas acham interessante a ideia de uma mulher interpretar uma transexual. Eu vou ter que me transformar em um homem que vai se transformar numa mulher.

Sobre essa mudança que houve, você afirmaria que a sociedade atual também está mais aberta?
Existem transexuais que estão superinseridas na sociedade e acho que a tendência é que se diminua cada vez mais o preconceito, apesar de ainda termos um longo caminho pela frente. Na minha pesquisa entrevistei uma juíza, uma dona de pousada no Nordeste, uma modelo… então, existem muitos exemplos de transex que já são independentes e muito bem-sucedidas. O que eu acho é que é muito difícil colocar as pessoas em caixas. Tem que abrir as paredes e soltar, deixar as pessoas se colocarem por aí e serem felizes.

E o que é que a deixou mais fascinada nesse universo dos transexuais?
Uma espécie de estratificação da feminilidade que eu só consegui observar através do transexuais. Elas são muito femininas. Às vezes chega a um ponto extremo de feminilidade, nem a gente que é mulher é. Por sermos mulheres não temos essa preocupação. Elas vão criando uma feminilidade, uma persona feminina. Então, agora que estou resgatando toda essa pesquisa, saio muito mais feminina, mais doce… É interessante, uma grande descoberta.

A questão de gênero está bem presente no debate público, no grupos acadêmicos, na internet, nas organizações. Nesse processo, há também uma onda que traz à tona questões feministas. Você acompanha? O que acha disso, principalmente depois de ter pesquisado sobre gêneros?
A minha pesquisa, por mais que eu tenha me aprofundado, ainda é muito superficial. Ainda sei muito pouco. Porque o assunto é muito complexo e profundo. Como mulher, é claro que eu sou a favor dos salários iguais. É um absurdo que você exerça a mesma função, tenha a mesma obrigação, a mesma responsabilidade que o seu colega e ganhe menos por isso. E, sem dúvida, vivemos em uma sociedade machista. Acho que essa luta da mulher tem que ser vivida porque temos que conquistar essas igualdades. Mas eu não sou feminista. No conceito do feminismo antigo, que é o que eu conheço, eu não sou. Eu acho que é bom que a mulher seja mulher e o homem seja homem. Viva a diferença! E cada um com as suas qualidades e dificuldades também. Porque eu também acho que ser homem hoje em dia não está fácil (risos). Meus amigos reclamam muito, principalmente das mulheres.

E como encara o fato de ter de criar duas filhas?
Tenho uma de 20 anos, a Valentina, e a Isabel, de 2 meses. Quero que elas sejam felizes como pessoas. Eu trabalho muito pra que elas se aceitem, com as qualidades e defeitos que têm. Desejo que elas consigam equalizar o seu som, individualmente, e que possam prosperar dentro da sinfonia que cada uma escolher. Eu consegui, ao longo dos anos, trabalhar uma relação muito bonita com a minha filha, porque somos muito próximas. E eu acredito que amor unilateral é de pai pra filho, amor de filho para o pai já não é. Temos que conquistar, trazer os filhos pra perto, acompanhar, evoluir junto com eles. Mas uma certeza que eu tenho é que sou mãe, não sou amiga. Eu não quero ser coleguinha da minha filha, quero ser mãe mesmo. Acho que a minha obrigação é criar e preparar, não é?

Sua gravidez aos 45 anos foi muito comentada. Acha que ainda existe um estigma e um pouco de falta de informação sobre isso?
Acho que as pessoas abordam muito a questão da idade quando, na verdade, a minha gravidez foi ótima. Passei superbem, tive um parto tranquilo, minha filha nasceu ótima, estou emagrecendo direitinho. Então, as pessoas têm que se libertar um pouco da questão da idade. Se for para se espelhar nisso de uma maneira positiva e que isso sirva de inspiração mesmo para outras mulheres, ótimo. Eu me sinto superjovem, bem, a vida está ótima, o cabelo nunca esteve tão bem (risos). Porque é uma injeção de rejuvenescimento, você fica com o metabolismo superbom.

Você vai gravar a terceira temporada do Receitas da Carolina. Acha fácil o programa?
Eu cozinho o que eu gosto de comer. É muito engraçado, eu não tenho nenhuma vertente, eu não sou naturalista, eu não sou vegana, eu não sou junkie, eu não sou nada. Eu sou uma dona de casa que gosta de cozinhar. Tanto que eu me posiciono sempre como cozinheira. Porque realmente eu não sou chef. Mesmo assim, o programa é um sucesso. As pessoas me escrevem. O programa é a segunda maior audiência do canal (GNT). Fiquei muito surpresa quando me informaram isso.

Desde sempre, Carol, você gosta de cozinhar?
Desde pequena. Impressionante. Nesta temporada nova já temos oito cardápios e está tão gostoso, eu acho que as pessoas vão gostar, porque só estou fazendo comidinha aconchegante. Eu acho que a cozinha me traz muita alegria. Primeiro porque através da comida você proporciona prazer, é uma maneira de você se entregar pro outro, você dedicar amor e tempo à outra pessoa. Eu acho que é muito engraçado que as pessoas nunca observaram essa paixão que eu tenho por cozinhar como uma bandeira da minha personalidade. No fundo eu tenho prazer em agradar as pessoas das quais eu gosto, prazer de fato em servi-las. / MARILIA NEUSTEIN