Votar ‘só em mulheres’ é forma de mudar o País, diz Amyr Klink

Votar ‘só em mulheres’ é forma de mudar o País, diz Amyr Klink

Sonia Racy

01 Outubro 2018 | 00h27

 

AMYR KLINK. FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

Navegador, que revela ter ‘trauma’ do mar, diz 
que elas ‘comandam melhor os barcos’
e que ‘não iludem o contribuinte’

Nesse confuso processo eleitoral, o brasileiro vai sair com qual perspectiva? “Nós vamos aprender que a democracia é altamente injusta, processo completamente ineficiente, mas é o melhor que existe, o melhor que conseguimos inventar. Então, a gente tem que respeitar”, responde Amyr Klink, navegador e escritor, para quem as fronteiras do mundo estão se fechando e os latino-americanos, de uma maneira geral, não entenderam que democracia é um processo onde a maioria define o sistema de voto e, por meio dele, legitima um governo como a autoridade. “Eu vou votar na Marina (Silva), por exemplo, e se ganhar o (Jair) Bolsonaro também fui eleitor do Bolsonaro porque eu participei do processo, legitimei o processo. É isso que a gente tem que entender”.

Na conversa com a coluna, Klink defendeu veementemente o voto em candidatas como maneira de transformar a representatividade do Congresso. “As mulheres não são bem representadas, (sua presença) não reflete os 52% da população. A gente pode mudar o Brasil votando só em mulheres”, diz o pai de duas meninas. “Precisamos de equilíbrio e a primeira coisa é votarmos em mulher. Acabou. O simples fato de você equalizar essa diferença absurda significa a inovação”, diz o velejador que aos 29 anos fez sua primeira travessia solitária pelo Atlântico, em um barco que ele mesmo construiu. De lá pra cá, foram mais 40 expedições, cinco livros escritos – e hoje ele se dedica a passar os conhecimentos adquiridos em palestras pelo no Brasil e no exterior.

Filho de pai libanês e mãe sueca, ele já navegou da Antártida ao Ártico. Portanto, leva-se um susto ao ouvir da boca do navegador que ele sempre teve muito medo… do mar. “Eu tinha trauma. Meu pai falava: esse menino não vai prestar para o mar… E eu nunca perdi esse medo. Por isso eu faço barcos perfeitinhos hoje, para não ter que nadar. Com o tempo aprendi a conviver com o medo e ver que ele é somente um dos problemas presentes quando você navega.”

Klink entrou no mundo das viagens por acaso. “Meu pai morou no mundo inteiro, era um homem extremamente autoritário, difícil, assustava, a gente tinha muito medo dele. Eu percebi que se eu quisesse conhecer o mundo eu ia ter que andar com as minhas pernas. Ele nunca ia levar a gente. Descobri que o mundo dos barcos é um mundo onde você passa a ser um viajante diferente, não são simples passageiros. Você decide a rota, o tempo e a hora do retorno. E de repente eu descobri que, num veleiro, você é viajante, condutor, escolhe o roteiro, decide seu destino”. Chamado de pessimista nas primeiras 30 viagens para a Antártida, o navegador conta que sempre gostou de estudar a razão dos fracassos, dos erros, e não do acerto. “O acerto é uma ilusão. Hoje, na internet, você vê sucesso em todos os lados, e esse é o problema das novas gerações. Eles enxergam o que pode ser um futuro maravilhoso e querem passar esse degrau sem passar pelo caminho. Mas é só o caminho que consolida.”

Klink procurou saber por que é que tantas pessoas morreram remando no Atlântico Norte e descobriu que as causas não tinham nada a ver com força física, com tempestades, ondas de 20 metros. E sim com… erro de planejamento, ignorância, desperdício de recursos, baixa eficiência, falta de excelência. Aqui vão trechos da conversa.

Estamos a uma semana da votação do primeiro turno das eleições. O que você espera do novo governante?
Eu espero que ele esteja presente. Nossa realidade não é maravilhosa, temos representantes ruins e bons, mas eu queria que houvesse um equilíbrio que não existe hoje no Congresso. Quero renovação. Não me sinto representado por esse Congresso mesmo porque, no País onde moro, mais da metade de seus habitantes são mulheres. No entanto, elas são só 10% no Congresso. Precisamos equalizar isso.

Onde a mulher pode contribuir nessa renovação? Quais são, a seu ver, as características que a mulher poderia trazer pro debate político dentro do processo democrático?
A primeira coisa é que a mulher não ilude o contribuinte, ela tem as obrigações de mulher, de mãe, de pessoa, vários problemas, e ela tem também a atividade profissional. Ela é um gênero penalizado injustamente. Segundo, a mulher é muito mais confiável do que o homem, isso eu vejo no meu trabalho. Não estou defendendo o movimento feminista, não é nada disso. Mas, por exemplo, as melhores comandantes de barco na nossa empresa de locação de barco são mulheres.

Aguentam melhor o tranco?
Claro. Eu fui, por exemplo, à cidade onde mais morrem mulheres de moto no Brasil proporcionalmente, em Goiás, onde tem uma mineradora. O que é que eles descobriram de interessante quando eu fui visitar a mina de lá, que vai a 1.700 metros pra baixo da terra? Que os condutores, os motoristas dos tratores – e são tratores de milhões e milhões de dólares, um aposta corrida com o outro – todos são incompetentes, a maioria dos operadores de máquinas brasileiros homens são péssimos, porque não tiveram estudo, não tiveram formação. E quem são os melhores operadores de máquinas poderosíssimas e perigosas? Mulheres. Mulheres. Então…”

A mulher é mais concentrada, mais calma?
Ela é mais focada. Por exemplo, pra ela alugar um barquinho lá. Pra alugar pra um piloto homem, o piloto homem, se é casal, ele vai ficar namorando o cara pra conseguir um emprego melhor, pra fazer um negócio, pra vender o barquinho dele, não sei o quê. Se você colocar como piloto uma mulher, ela vai cumprir a função: qual o passeio que você quer fazer? qual a comida que quer comer? quais os lugares onde vocês vão querer mergulhar?

Acha que a renovação se dará por meio das mulheres?
Não votar nos homens, votar nas mulheres. Tão simples. E aí vai acontecer a primeira mudança. Como os caminhoneiros, que descobriram o WhatsApp, nós vamos descobrir que temos o poder de transformar. O poder de transformar, esse poder não tem preço. Assim, é um poder supremo e a gente tem esse poder.

Como é que você se dá tão bem com você mesmo se aguentando sozinho ao longo de meses?
No mundo agitado em que a gente vive hoje, eu acho que é um baita privilégio você poder ficar isolado durante alguns períodos. É um exercício que me ensinou a enxergar quem são os meus provedores . Não atravessei, por exemplo, o Atlântico remando sozinho. Cada milímetro do meu barco tinha um esforço intelectual, físico, manual de alguém que me ajudou. Essa travessia se deu em uma época na qual os problemas que eu tinha não eram os que eu queria ter. Hoje eu escolho os meus problemas, e eu gosto deles.

Você está dizendo que, na verdade, não é tão aventureiro assim, não é?
Eu não sou aventureiro. Infelizmente, eu sou cultuado no meio dos aventureiros mas eu gosto de ter certeza de que eu vou pegar a Marina (sua mulher) no fim do ano, nós vamos navegar e abrir uma garrafa de vinho no dia 15 de janeiro. Quero ter certeza de todos os detalhes do barco. Antes de viajar, procuro saber tudo o que pode dar errado. Tudo que deu errado na viagem de outros navegadores. Faço um hedge completo.

Como você descobriu o mar?
Por meio da literatura, estudei a francesa. Chegou uma hora em que me encheu a paciência estudar os clássicos, todos brilhantes, e descobri uma coleção sobre mar – de aventuras, viagens, só com literatura de alta qualidade. Me encantei com vários relatos de historiadores que dominavam a língua francesa, que escreviam realmente bem. Foi uma condição muito interessante, conectar a literatura com os viajantes condutores – porque esses viajantes é que escolhem o seu caminho.

Você acaba, nessas viagens, discutindo com você mesmo?
Discutindo não, eu tenho brigas homéricas. Mas essa é a beleza de ser o seu próprio provedor, quer dizer, a gente tem que se redimir de muitas coisas erradas que faz no dia a dia. A gente aceita que muitas pessoas façam coisas que a gente deveria aprender a fazer. Na navegação, conheço a parte financeira, a técnica, a burocrática, o problema das soldas e dos acidentes que acontecem no estaleiro, a caldeiraria, até a sofisticada análise sinótica, mais as previsões meteorológicas.

Conhece o processo tendo visão completa do conjunto?
Sim, e isso lhe dá propósito. O que é que adianta você ser um banqueiro de sucesso, com bilhões na conta, se você não teve um propósito na sua vida? Quem não tem propósito morre pobre.

O que é que você aconselha a quem não quer ser pobre, na sua definição de pobreza?
Eu quis ter bens, imóveis, aviões, não sei mais o quê. Tive e descobri que isso de ter casa própria não presta pra nada, você recompra ela a cada 45 anos, é só fazer a conta do IPTU que você paga, do condomínio. Descobri que o que vale mesmo são as experiências que você vive, que tem dentro de si. O patrimônio que é valioso, no barco que eu tinha, não era a propriedade do bem. Era a história que eu vivi dentro do barco. Lembro que trabalhei dois anos no mercado financeiro e prefiro morrer do que ser presidente de banco.

Você imagina isso como uma prisão, né?
Foi uma prisão. Meu chefe lá no banco estava havia 19 anos na mesma cadeira. Você pode me dar 100 milhões de reais por mês, eu prefiro morrer de fome, ou mesmo vender milho cozido na Rua 25 de Março.