‘Vilanizar a Lei Rouanet é um gigantesco desperdício’, diz Sá Leitão sobre posição do governo federal

‘Vilanizar a Lei Rouanet é um gigantesco desperdício’, diz Sá Leitão sobre posição do governo federal

Direto da Fonte

23 de maio de 2022 | 02h00

Sérgio Sá Leitão. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

O secretário de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, Sérgio Sá Leitão, 55 anos, não toma café. Aliás, não toma nenhuma bebida quente. “Meu café é a Coca- Cola Zero. É de onde eu extraio minha cafeína”, brincou.

Em conversa por telefone com a coluna, Leitão falou sobre o ritmo de trabalho na pasta: 

– Uma montanha russa. É como se eu saísse do carrinho da montanha russa e já entrasse outra vez para recomeçar…

– O senhor assistiu Ruptura (seriado da Apple TV em que funcionários têm as memórias divididas entre vida profissional e pessoal – deixando a sensação de que o tempo do trabalho é contínuo)?

– Sim. É exatamente isso. Mas não estou reclamando, não…

Leitão reclama é da vilanização da cultura por parte do governo federal. “Quando o governo federal vilaniza isso, ele está atacando um dos grandes ativos que o Brasil possui, um poderoso vetor de promoção e desenvolvimento. Isso não faz sentido”, diz. Leia abaixo a entrevista.

Como a sua pasta se coloca em relação ao tratamento que o governo federal tem dado à cultura? 

Nós temos um contraste entre o quadro nacional e o estadual. Se no âmbito nacional nós temos uma postura negativa e de confronto em relação à cultura; no âmbito estadual, nosso contexto é positivo, de estímulo, respeito e apoio à cultura. 

Ainda assim, o governo Bolsonaro conseguiu transmitir à população uma desconfiança em relação, por exemplo, à Lei Rouanet. 

É fundamental que as políticas públicas sejam mensuradas, avaliadas e seus resultados divulgados. Quando o governo federal ataca a cultura vilanizando a Lei Rouanet, estamos falando de um gigantesco desperdício. As atividades culturais são vocações com peso econômico e social. Estamos falando de 2,64 %do PIB brasileiro, quase 5 milhões de postos de trabalho em todo País. Quando o governo federal vilaniza isso, ele está atacando um dos grandes ativos que o Brasil possui, um poderoso vetor de promoção e desenvolvimento, Isso não faz nenhum sentido. 

Como o impacto econômico das atividades culturais são mensurados? 

Os estudos apontam para um efeito multiplicador do investimento em cultura. Para cada real investido em musicais em São Paulo, nós temos R$16 de retorno econômico. As atividades culturais impactam em cultura, educação, saúde, segurança pública, turismo e na formação dos indivíduos. 

Não falta comunicar melhor esses ganhos?

Nós estamos tentando comunicar. Venho remando contra essa maré da vilanização, iconoclastia e crítica. O fato é que atacar é mais fácil que construir. O desenvolvimento do Brasil passa pela ativação do potencial do setor cultural e criativo. Infelizmente, certas forças políticas se alimentam do conflito, dos problemas e não das soluções.

A inauguração de museus como o da diversidade sexual e dos povos indígenas tem caráter político?

Tem um caráter cultural. É uma política que se pauta por contemplar e valorizar a diversidade. A cultura de um país é mais potente à medida que ela for mais diversa. 

Projeto fora do governo?

Tenho acalentado o desejo de escrever o livro sobre minha trajetória no campo da cultura. São 20 anos de trabalho. Comecei no início de 2003 – convidado pelo então ministro Gilberto Gil. Mas vou deixar para começá-lo quando eu terminar meu período na secretaria.

Aliás, o senhor sai da secretaria mesmo se o Rodrigo Garcia vencer as eleições?

É uma conversa para acontecer após as eleições. Creio que o Rodrigo deve montar um novo governo caso vença as eleições. A princípio, pretendo voltar à iniciativa privada. Mas estarei sempre à disposição para colaborar com ele. 

Carreira política no radar?

Recebi do governador João Doria o convite para ser candidato a deputado federal nestas eleições. Mas entendi que a minha forma de contribuir é no campo da administração pública e não na política. Minha vocação não é o legislativo. Acho que falta para a cultura aumentar e qualificar sua representação política. Esse é um setor expressivo da vida social e econômica. E não temos em qualidade e quantidade uma representação política à altura da importância que o setor tem.

Falta artista neste campo?

Sim, mas não é uma prerrogativa obrigatória. Hoje, existe um fenômeno de profissionalização da gestão cultural. Tem que conhecer arte e cultura, mas não é necessário ser um artista. Mas, claro, Gilberto Gil para mim foi e ainda é uma grande referência. 

 

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