“Vemos cada vez mais AVCs ligados à covid-19”, diz Paulo Niemeyer Filho

“Vemos cada vez mais AVCs ligados à covid-19”, diz Paulo Niemeyer Filho

Sonia Racy

11 de maio de 2020 | 00h39

PAULO NIEMEYER FILHO – FOTO: MAURÍCIO BAZÍLIO

Para amenizar o risco do coronavírus, no Rio, a Rede D’or isolou dois hospitais – os ‘corona free’– onde não se interna pacientes infectados e funcionários são testados rigidamente. “Isso dá mais segurança para continuar tratando quem tem outras doenças e é onde eu tenho operado”, contou à coluna, por celular, Paulo Niemeyer Filho.

Um dos melhores neurocirurgiões do Brasil conta que pesquisas recentes de laboratório mostram que o coronavírus pode penetrar nos neurônios – mas ainda não está sendo visto nos pacientes. “O que vemos cada vez mais são os acidentes vasculares cerebrais, os AVCs, associados à covid-19. Não apenas em idosos, mal – s também em pacientes jovens e, muitas vezes, como primeira manifestação da doença. Isso se deve aos distúrbios da coagulação causados pelo vírus, que lesam as paredes das artérias, desencadeando o processo de trombose”, conta o médico que faz parte da comissão de especialistas e economistas – como Armínio Fraga – criada pelo governador Witzel, para avaliar a adesão ao isolamento testes e vacinas e plano de saída controlada da quarentena.

Melhores momentos da conversa.

Como foi essa transformação do Instituto Estadual do Cérebro em hospital de covid-19?
Ele continua sendo do cérebro, mas atendendo pedido da secretaria de Saúde, do estado do Rio, suspendemos cirurgias e colocamos 44 leitos de UTI e equipe de intensivistas e fisioterapeutas à disposição de pacientes com covid-19.

O hospital continua funcionando para outras doenças?
Com exceção do centro cirúrgico, todos os demais setores tratam epilepsia, doenças endovascular. Ambulatórios também continuam atendendo normalmente.
Vocês foram os primeiros a iniciar o tratamento de transfusão de plasma com anticorpos de quem sarou da covid-19.

Qual resultado?
Só atendemos casos graves e como iniciamos os testes há duas semanas, ainda é cedo para avaliar. Entretanto, a transfusão de anticorpos parece ser, até agora, o que faz mais sentido. Idealmente, deve ser tentado logo no inicio da doença, para evitar sua progressão. Temos que nos guiar pelos exames de sangue, acompanhando os marcadores inflamatórios, a carga viral e outros parâmetros. Estamos esperançosos.

O custo é alto?
A transfusão de plasma não é novidade, é um procedimento corrente nas UTIs, não para transmissão de anticorpos, mas para transmissão de elementos da coagulação, por exemplo. A transfusão de anticorpos também não é nova, já foi usada na pandemia da Gripe Espanhola, em 1918, e em outras epidemias mais recentes. Apesar de publicações da época relatarem redução da mortalidade, esse tratamento, por ser feito sempre em crises, nunca foi avaliado com rigor científico e, por isso, ainda é considerado experimental, necessitando de aprovação da Anvisa.

Outros hospitais estão fazendo o mesmo no Brasil?
Se não começaram, devem estar se preparando para isso. Os grandes hospitais dos EUA também estão fazendo e todos procurando identificar os grupos de pacientes que podem se beneficiar. Qual o bom doente, o bom momento e a boa dose. Serão os mais idosos ou aqueles que têm uma carga viral mais elevada? Os trabalhos antigos sugerem melhor resultado se os anticorpos forem transfundidos precocemente, ao início da doença, tentando evitar o comprometimento pulmonar, a entubação, e os distúrbios da coagulação.

O que a covid-19 tem de diferente de outros vírus?
Primeiro, a rapidez com que se propaga. Depois, ele não tem um padrão, podendo se manifestar de várias formas, como se fossem várias doenças diferentes. Muitos são assintomáticos. Outros perdem o olfato e, consequentemente, o paladar, acompanhado de uma gripe leve, que evolui bem. Por fim, há aqueles que preocupam, em geral obesos ou portadores de outras doenças crônicas, que podem apresentar comprometimento pulmonar e necessitar de UTI e entubação. É como se fossem variações do mesmo vírus ou características genéticas de cada indivíduo, que vão determinar a evolução da doença.

Isso o surpreende?
Não. Vimos isso na epidemia da AIDS, algumas pessoas simplesmente não pegavam. Em alguns casais, apenas um dos cônjuges se infectava. O mesmo se passa agora com a covid-19. Então há aspectos individuais, talvez genéticos, que fazem a diferença, e há muito ainda a ser entendido.

O que de fato o coronavírus faz com o pulmão? As pessoas se recuperam?
Além da inflamação, esses pacientes apresentam distúrbios variáveis da coagulação, que produzem vários microinfartos no pulmão. Aqueles que se recuperam, portanto, podem perder um pouco da sua capacidade pulmonar.

Existe também algum efeito desse vírus no cérebro? 
Pesquisas recentes de laboratório mostram que o vírus pode penetrar nos neurônios, mas isso, entretanto, ainda não é visto nos pacientes. O que vemos cada vez mais são os acidentes vasculares cerebrais, conhecidos AVCs, associados à covid-19.

Isso ocorre apenas no cérebro?
Não, em todo o corpo. O que pode resultar também em isquemia de qualquer outro órgão ou mesmo das extremidades, braços e pernas. O distúrbio de coagulação ocorre em praticamente todos os casos. Parece fazer parte da doença, é considerado como uma das principais causas da lesão pulmonar e da falência respiratória. Todos os doentes, hoje, internados, com covid-19, estão tomando anticoagulantes, em doses maiores ou menores, dependendo dos exames.

Como é que a pessoa chega no Instituto Estadual do Cérebro?
Recebemos apenas pacientes do SUS, mas não é um hospital aberto. As vagas são reguladas pela Secretaria Estadual de Saúde, que encaminha os pacientes que se encontram nas UPAS, ou em outros hospitais, e que preencham os requisitos. São, em geral, pacientes em estado grave, com insuficiência respiratória, já entubados ou precisando entubar.

E desses casos graves, quantos se recuperam?
Nosso primeiro doente foi internado há 40 dias, aproximadamente, e só agora ele está curando. Até agora, nossa mortalidade tem sido em torno de 25% dos doentes entubados, quase todos acima de 60 anos. Entre os não entubados, a mortalidade foi zero. Observamos também que a obesidade é o fator de risco mais importante para os pacientes jovens.

A contaminação no Instituto está alta?
A contaminação entre funcionários de saúde é elevada, e em nosso hospital chega a 50%. Isso inclui médicos, enfermeiros, pessoal da limpeza, enfim, todos. Diariamente testamos aqueles que apresentam algum sintoma, e a metade testa positivo. Estes são afastados temporariamente e substituídos.

Agora um tema polêmico, o que acha da cloroquina?
Não se mostrou eficaz, em nossos casos. Suspendemos seu uso por causa das graves arritmias cardíacas que esses pacientes apresentavam, sem nenhuma evidência de melhora.

Quanto ao teste da covid-19 pelo nariz é, de fato, seguro?
Quando ele é positivo ele é seguro, sim, mas quando é negativo tem uma margem de erro de quase 40%. Ou seja, você pode testar negativo e estar contaminado.

Pelo que tem visto, há possibilidade de mutação desse vírus?
Certamente. Pode, inclusive, já haver alguma mutação, e isso explicaria porque alguns casos são mais simples e outros são tão graves. É possível que no próximo ano ele volte mudado, mas com menos força. Teríamos, então, que fazer vacinações anuais, como já se faz para as gripes por Influenza.

Tem que sair uma vacina para a cura, então…
Essa parece ser a única solução. Outra possibilidade de controle seria quando alcançássemos a chamada imunidade de rebanho, que é quando 70% da população já teve contato com o vírus e adquiriu anticorpos.

Sobre o SUS, muita gente está elogiando ante a pandemia. Qual sua opinião?
O SUS foi a coisa mais importante que já se fez no país. Nunca houve um movimento de inclusão social tão grande, no mundo, como o que resultou da criação do SUS. Milhões de brasileiros que se encontravam à margem do serviço social, sem direito a nada, foram incorporados. Acho que está claro a todos que o SUS está sendo fundamental nessa crise e que sairá fortalecido, valorizado.

E o que falta para o SUS? Recursos?
Acho que para melhorar precisaria de mais recursos e de gestão moderna e pragmática.

Sobre a quarentena, já estamos há dois meses em isolamento social, o senhor é a favor?
Sim. O isolamento é um recurso bíblico. Já era utilizado na antiguidade, quando não havia tratamento para hanseníase. Acho que não há outra maneira de conter uma doença infecciosa, para a qual não há tratamento. Agora, como todo remédio, tem seus efeitos colaterais, é preciso saber o momento de reduzir a dose.

Como imagina o mundo pós-coronavírus?
De imediato, teremos 230 milhões de infectologistas no País. Talvez o mundo fique mais humanizado, com as pessoas valorizando a presença e o contato físico. Ainda assim, a crise alavancou a vida virtual, seja social e profissional, de maneira irreversível.

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