“Vejo a dança como uma arte lenta, dolorosa, mas muito satisfatória”

“Vejo a dança como uma arte lenta, dolorosa, mas muito satisfatória”

Sonia Racy

22 de junho de 2015 | 01h02

Thiago Soares (Foto: Arquivo Pessoal)

Bailarino brasileiro radicado em Londres – mais precisamente no Royal Ballet –, Thiago Soares comemora 15 anos de carreira em um espetáculo com ares de retrospectiva.

Se alguém perguntasse, há pouco mais de duas décadas, sobre balé clássico a Thiago Soares, não veria em seus olhos grande entusiasmo. De modo algum o menino “meio bronco” – como ele próprio se define – poderia imaginar que um dia deixaria sua grande paixão, o hip hop, para se tornar o primeiro bailarino do badalado Royal Ballet – a maior e mais importante companhia de dança de Londres. “Eu não falava ‘obrigado’, cuspia no chão. Era um menino que chutava os outros, atirava pedra. A dança me tornou uma pessoa melhor”, confessa o bailarino em entrevista à coluna por telefone, do Rio de Janeiro.

Quinze anos passados, depois galgar seu sucesso internacional, receber os cumprimentos da rainha Elizabeth e acumular prêmios, o bailarino volta ao Brasil para contar essa história em um espetáculo chamado Paixão, que estreia em São Paulo dia 14 de julho, no Teatro Sérgio Cardoso. “Estou com 34 anos, passando por uma fase crucial que marca tudo o que eu fiz, o que estou fazendo e para onde vou”, afirma. A retrospectiva conta ainda com a participação da ex-mulher de Thiago, Marianela Núñez (também do Royal), e de Deborah Colker.

Animado com a possibilidade de “comer feijão todos os dias” e “andar na praia”, o carioca aproveita a viagem para acertar os detalhes de outros projetos, como um documentário dirigido por Felipe Braga, com filmagens em Londres, e uma linha de roupas para a Balletto. Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

Qual é o balanço de seus 15 anos de carreira como bailarino internacional?

Como você deve saber, a carreira de bailarino é curta. Ainda mais na minha linha, a clássica. Então, conto desde o ponto em que me posicionei como artista mais internacional de estar lá fora, vendendo ingresso. Claro que eu tive minha carreira aqui, mas ainda estava me consolidando, era semiprofissional. Então falo que são 15 anos desde que eu entrei no circuito que deixa de ser semiprofissional. É a partir daí que conto minha retrospectiva.

Por que resolveu fazer esse espetáculo de retrospectiva justamente agora?

É um momento muito importante pra mim. Estou com 34 anos, passando por uma fase crucial que marca tudo o que eu fiz, o que estou fazendo e para onde vou. O espetáculo procura passar essa ideia de passagem, sem dúvida. E tem outra coisa: sempre fui um artista de companhia grandes, como o Royal. Sempre estive empregado e, de uma certa maneira, minha carreira agora está entrando em um caminho no qual posso fazer minhas próprias coisas. Caminhar por mim mesmo. E o espetáculo é a entrada desse caminho. Quero celebrar essa transição, que considero fundamental para me tornar um artista mais maduro.

Estar no Brasil ajuda nisso?

Claro. Apesar de eu ter construído uma carreira internacional, sempre estive ciente da importância do Brasil, do Teatro Municipal do Rio. Fui um artista feito aqui. Então essa celebração tinha que partir daqui. Depois eu levarei para lá.

Há quanto tempo está programando esse espetáculo? Como escolheu as participações especiais – como a da sua ex-esposa Marianela Núñez?

Eu queria fazer desde o ano passado, com o elenco do Municipal do Rio. Tinha toda uma estrutura preparada, mas infelizmente sofri uma lesão. Agora achei que era o momento. Convidei minha ex-esposa, porque a dinâmica profissional entre nós continua igual. Ainda dançamos juntos e, sem dúvida, ela foi uma pessoa essencial nesses últimos 15 anos. Não deixaria ela de fora de uma celebração nunca.

E a parceria com a Deborah Colker?

Cresci vendo o trabalho da Deborah, sempre admirei tudo o que ela faz pela cultura em geral, não só na dança. Considero-a meio revolucionária. Há algum tempo eu lhe disse que tinha vontade de fazer um balé dela chamado Paixão. Quando decidi fazer minha retrospectiva, disse que o momento era agora, porque ainda podemos puxar um pouco o corpo e dançar juntos. Ela topou. Está sendo super legal poder aprender a linguagem dela.

Você é muito conhecido como bailarino clássico. Gosta de balé contemporâneo? Como vê o cenário atual da dança?

Sim, eu adoro. E o bailarino está sempre em transição. Vai chegar um momento no qual vou começar a me mover de outra forma. Vou querer outro vocabulário, entendeu? Eu vim do Hip-Hop, minha origem é de dança urbana, então tenho essa maneira urbana de expressar. Gosto de poder misturar, mudar de estilo, fazer outras coisas, usar o corpo como veículo e deixar a dança dizer.

Sente mais dificuldades com o corpo hoje?

Ah, sim. Quando a gente chega aos 30 anos nessa carreira, há sempre alguns probleminhas. E eles ficam mais evidentes do que antes. Hoje em dia, quando eu tenho uma lesão ou dor, preciso cuidar mais, dar atenção. Não posso fazer as loucuras que já fiz, como tomar remédio e sair dançando.

Há algum tempo, você disse que sonha com abrir uma companhia de dança sua aqui no Brasil.

Sim. Tenho muita vontade de ter um grupo, uma companhia, e poder criar oportunidades e trazer coreógrafos. Vamos ver.

Acha que deveria haver mais investimento na dança no Brasil?

Sim, mas hoje a coisa já está muito melhor. Na minha época não existia a quantidade e a diversidade de companhias que existe hoje. O mercado está bem maior, não havia tantas possibilidades e não havia tantos musicais quanto os que vemos hoje. Melhorou muito, inclusive nos projetos sociais. Entretanto, é claro que a dança poderia ter mais visibilidade. Acredito que, na verdade, a cultura como um todo tem que ser vista como prioridade, porque ela muda a vida das pessoas. Posso falar pela minha própria experiência. Eu vivi isso.

Como?

Eu vim de subúrbio, não tinha acesso à cultura. Não falava “obrigado”, cuspia no chão. Eu era esse menino que chutava os outros, jogava pedra. Eu era do bem, tá? Mas fiz tudo isso. E a dança, de uma certa maneira, me forçou a aprender uma disciplina. Me fez mais gentil. Me ensinou a pegar gosto por música clássica, literatura, filmes. A dança mudou a minha personalidade. Eu era esse bronco carioca, que jogava bola e bebia cerveja, entendeu? Então, de certa maneira, a cultura me salvou. Me fez melhor. Se conseguirmos inserir isso na sociedade, é o caminho do sucesso.

Falar em disciplina é um estereótipo do bailarino. Quais são os momentos nos quais você relaxa?

Vejo a dança como uma arte lenta, dolorosa, mas muito satisfatória. Entendi isso desde cedo. E sei que só botando as horas ali vou conseguir esse retorno. Qualquer pessoa que queira levar a dança como profissão tem de entender isso rapidamente. Dança é um modo de vida. Você tem que se tornar de uma certa maneira um fanático. Sempre se aperfeiçoando para poder chegar a essa perfeição que não existe. Quem me conhece sabe que eu trabalho duro, me dedico. Isso é parte do que me fez chegar a algum lugar com a dança. Mas tento ser uma pessoa normal, sair, ver amigos. É claro que não posso beber o tanto que gostaria e nem sair tanto quanto gostaria, mas eu tomo meu drinque, conheço lugares, descontraio.

Esse tipo de busca pela perfeição ficou muito clara no filme O Cisne Negro, de Darren Aronofsky. Existem muitos mitos sobre o ambiente do balé?

A dança é uma arte de muita competição. Principalmente no circuito internacional. Existe, sim, essa coisa de “quem vai pegar o papel”, ou “quem é a melhor coreógrafa”, ou então “quem está quente, quem está frio”. Mas acho que depende muito da forma como a pessoa lida com isso. Tem que ter estômago para aguentar essa competição que joga com a insegurança o tempo todo. Para mim, ainda há competições sadias. Quero me desafiar, mas acho que estou em um momento da carreira em que estou fora disso. Os mais jovem sofrem mais.

Como bailarino, o que achou do filme?

Como filme é genial. Por isso ganhou todos os prêmios e virou referência. Colocou a balé no mapa, despertou questionamentos. Mas a parte que nos toca é delicada. Uma comunidade acha que o filme usou a dança de maneira equivocada. Claro que há histórias loucas e frustrações. Alguns bailarinos desafiam o próprio corpo, chegam a ter muita dor para ter sucesso. Todo mundo sabe. Inclusive do ponto de vista das primeiras bailarinas. Mas como filme foi muito válido. Não é a toa que entrou para a história, não?

Pessoalmente, gosta de dançar O Lago dos Cisnes?

Gosto. O Lago marcou minha carreira. Fiz o príncipe muito cedo, aos 19 anos. Já participei de seis produções do espetáculo, dancei com 18 bailarinas, fiz um filme com Marianela, minha ex-esposa… Então, é uma obra que cresceu comigo. Por isso, coloquei no meu espetáculo, que se chama Paixão./ MARILIA NEUSTEIN