‘Vamos ter uma grande Bienal’

‘Vamos ter uma grande Bienal’

Redação

09 de novembro de 2009 | 09h02

Heitor Martins conta o que fará para ter uma exposição de alto nível, que atraia todo mundo e depois leve a arte ao resto do País

Cabeça de executivo, amor pela arte desde criancinha, proximidade com artistas, museus, banqueiros, empresários – e boa disposição para causas ingratas. Esse caldo de virtudes e esperanças deu coragem a Heitor Martins, 41 anos, sócio da consultoria McKinsey, para comprar, quatro meses atrás, uma guerra da qual outros se afastaram: recompor sobre seus pés a Fundação Bienal e fazer, em 2010, uma bela exposição.

“A gente não vai ter um grande país, desenvolvido, se não tiver arte”, justifica. “Percebo um grande desejo, na sociedade, de revitalizar a Bienal. E sei que a ajuda virá se tivermos um bom projeto e conquistarmos credibilidade.” Tratou de formar um pelotão de reforço: conselheiros com visibilidade, com um pé na arte e outro no dinheiro. Enquanto comemora os primeiros sucessos – praticamente metade do dinheiro para a Bienal de 2010, orçada em R$ 30 milhões, começa a lhe chegar às mãos – Martins avisa: vai dar para fazer “uma das melhores exposições”. E põe as fichas em duas ideias: um programa educativo que envolverá cerca de 400 mil pessoas e uma “mini-Bienal itinerante” para mostrar a exposição pelo País. “Isso é modernidade, é inserção social, é cidadania”, afirma.

O sr. aceitou presidir a Bienal depois de vários outros terem recusado. Foi por otimismo? Não conheço as motivações dos que recusaram, mas sou otimista em tudo o que faço. E sei do valor da Bienal na cultura brasileira. Tendo um projeto com credibilidade, recursos aparecerão.

E boa parte deles está chegando, não? Mas eles não vêm à toa. São o resultado de uma ação. E a nossa ação está em curso, pautada em três coisas. Primeiro, a credibilidade institucional, pois a sociedade não apoia nada se não sentir seriedade e idoneidade. Segundo, um projeto – sem ele, ninguém ajuda. E terceiro, a conexão com a sociedade. O que precisamos é gerar impacto cultural.

Essa conexão, com a indicação de novos conselheiros, deu trabalho, não? O começo todo deu trabalho. Mas conseguimos trazer figuras com proeminência na sociedade. Colecionadores, banqueiros, gente com forte vínculo com as artes. Figuras como Alfredo Setúbal, Carlos Jereissati, Cacilda Teixeira da Costa – que é crítica de arte, escreveu vários livros -, a Susana Steinbruch, o José Olympio Pereira… Indicamos sete, recompondo o quadro original de 60. Com todos eles, a sociedade volta a abraçar a causa.

E essa ligação com a sociedade já está existindo? Sim, e a conexão se traduz não só na escolha de conselheiros, mas também na aproximação com o governo. Hoje estamos próximos do Ministério da Cultura e das secretarias de Cultura estadual e municipal. Pela primeira vez temos um representante do MinC, indicado pelo Juca Ferreira. Trouxemos o Justo Werlanger, um dos fundadores da Bienal do Mercosul, que ajudará a criar pontes fora de São Paulo.

Já existe um “plano de governo”? Como é? Tem três pilares. Primeiro a reconstrução institucional, depois a realização da 29ª Bienal e por fim a consolidação dos laços com a sociedade. A reconstrução é, em suma, a modernização da casa. As capacidades de gestão administrativa e financeira estavam envelhecidas, havia pendências antigas, a produção de documentos estava limitada…

Isso exige dinheiro. Ele está aparecendo? Tivemos um esforço grande para captar recursos. A Prefeitura aportou R$ 2 milhões para custeio, promovemos uma festa que rendeu mais R$ 1 milhão, captamos outros R$ 800 mil… Até pagamos pendências com artistas que nem esperavam mais receber.

Mas a Bienal é coisa para quase R$ 30 milhões. Como vocês mesmos revelaram, uma boa parte dos recursos está aparecendo. Os R$ 8,25 milhões oferecidos pelo Itaú-Unibanco revelam a confiança que nosso projeto desperta nos meios artísticos e empresariais. Outros fundos prometidos, ainda nos trâmites burocráticos, chegam a R$ 6 milhões. Ou seja, praticamente metade do necessário. Na verdade, precisaremos de R$ 25 milhões para a exposição e R$ 5 milhões para o programa educativo, que envolverá cerca de 400 mil pessoas.

Tudo isso? De que se trata? É um conjunto de ações que consiste em um programa escolar, capacitação de professores, temas em aulas, trazer os alunos para a exposição. Além disso, outra operação parecida junto a comunidades de base. Estamos criando uma rede com muitas delas, com ONGs… E por fim, um conjunto de ações educativas para artistas, workshops.

É um projeto tipo “arte para o povo”? É uma iniciativa importante para tirar a arte contemporânea do seu redoma. Como nos disse o ministro Juca Ferreira, apenas 6% da população brasileira entrou em um museu até hoje. Mas a capacidade que temos, num prédio de 30 mil metros quadrados, de criar um primeiro contato com a arte para milhões de paulistanos é fantástico. Isso é educação, modernidade, cidadania, inserção social.

Lembra museus da Europa, como a Tate Modern… Mas eles não fazem na escala que pretendemos aqui. Na Bienal de Veneza, ou na de Kassel, há programas educativos, mas muito tímidos. Conversei na Tate Modern com o chairman de lá, Nicholas Sirotta, que ficou encantado com este nosso projeto. Às vezes as pessoas não se dão conta de como é importante o que se faz aqui.

E o segundo pilar, a próxima Bienal? Para nós essa é uma meta fundamental. Pois a Bienal não é apenas um prédio, ela existe na medida em que cumpre sua finalidade. Adiar uma coisa que é feita desde 1951 seria um estrago. E nossa aposta é que poderemos fazer, em outubro de 2010, uma grande Bienal, das melhores. Na equipe de curadores incluímos até um americano e um europeu, que cuidarão de assegurar um impacto lá fora.

E qual seria o terceiro pilar? Reafirmar os laços com a sociedade. A Bienal tem capacidade de atração, de criar benefícios à sua volta. A partir de 2011, poderemos levar recortes da nossa exposição para outras cidades. Salvador, Recife, Brasília, Campinas, Ribeirão Preto… Mas o primeiro ponto dessa itinerância vai ser Veneza. A mostra do Brasil em Veneza vai ser um reflexo do que tivermos mostrado aqui.

A arte contemporânea não é fácil, não atrai multidões. Como você vê esse desafio? Tenho absoluta convicção de que essa visão de que as artes plásticas só existem nas elites é uma falácia. O impacto, o poder de transformação da arte contemporânea pode abarcar todas as classes sociais. Mas para que ele ocorra é preciso ter obras e mostrá-las. Veja que quando o Vik Muniz fez aquela mostra no Masp, as filas foram enormes. Mas esse acesso precisa ser mediado. As pessoas precisam de instrumentos para entender uma obra de arte. Por isso apostamos num grande programa educativo. A gente não vai ter um país grande, desenvolvido, se não tiver arte.

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