Unidas pela dor

Unidas pela dor

Sonia Racy

14 de maio de 2015 | 01h20

Foto: Iara Morselli/Estadão

Quando viu Vana Lopes (acima, à dir.) na TV assumindo que havia sido vítima de Roger Abdelmassih, Alessandra Freitas decidiu avocar para si uma missão: convencer a mãe a contar tudo o que havia vivido e sofrido na casa do ex-médico das estrelas. “Desde pequena, ouvia as histórias que ela contava da época em que trabalhou com a família e nunca achei certo aquilo ficar guardado. Ela sofreu racismo e foi submetida a trabalho escravo. Ele não deixava ela descansar. E chegou muito perto de agredir minha mãe por causa de um doce. Isso, para mim, não é gente”, contou Alessandra em conversa exclusiva com a coluna. Ela está em SP para o lançamento de Bem-Vindo ao Inferno, que acontece hoje na Cultura do Conjunto Nacional. No livro, que sai pela Matrix, os jornalistas Cláudio Tognolli e Malu Magalhães reconstituem a história de Vana. Miriam Morena tinha 13 anos quando começou a trabalhar como empregada doméstica na casa de Abdelmassih, nos Jardins. Seus tios eram funcionários na fazenda do então médico em Avaré, interior paulista. “De um jeito cativante, ele disse para minha avó que ia cuidar e zelar pela minha mãe. Mas aconteceu tudo ao contrário. Era muito bruto e agressivo.” Aos 17 anos, mais madura, Miriam decidiu que não dava mais para viver naquele ambiente e pediu demissão. Hoje, prestes a fazer 41, vive amedrontada. Mas aceitou o pedido da filha para ajudar Vana. “Ela não deixou de ser uma vítima desse monstro”, disse, emocionada. Alessandra e Miriam passaram, então, a fazer parte de uma rede de informantes que Vana montou pela internet para encontrar Abdelmassih, que havia fugido no início de 2011. Por meio delas, passou a ter contato com outros funcionários do ex-médico e conseguiu informações preciosas para sua busca. “Elas me ajudaram a identificar quem eram as pessoas em que eu podia confiar para fazer justiça e colocá-lo atrás das grades”, contou Vana. “Ele achou que tudo que fez iria ficar impune. Mas agora está vendo que não é assim. Está pagando”, disse Alessandra. /THAIS ARBEX