‘Uma boa ficção precisa de responsabilidade’, diz roteirista de ‘Assédio’

‘Uma boa ficção precisa de responsabilidade’, diz roteirista de ‘Assédio’

Sonia Racy

15 Outubro 2018 | 01h00

MARIA CAMARGO. FOTO: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

MARIA CAMARGO. FOTO: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Maria Camargo explica os
cuidados tomados para adaptar
caso Abdelmassih à TV

Em época de movimentos pautados por igualdade feminina, como o #MeToo, a série Assédio, da Globoplay, inspira-se na rede de mulheres que se formou para denunciar os crimes do ex-médico Roger Abdelmassih. E, além das atrizes do elenco, a empresa recorreu a profissionais mulheres para levar a história à tela. Para a roteirista Maria Camargo, a participação de homens e mulheres na equipe garante a diversidade na forma de contar histórias e ajuda a evitar um olhar viciado.

Em entrevista à repórter Paula Reverbel, a roteirista relatou os esforços de toda a equipe para fugir do que, nos dias de hoje, são consideradas duas grandes gafes na representação de violência sexual: erotizar cenas de violência e retratar as mulheres impactadas exclusivamente como vítimas.

A obra terá seu primeiro capítulo exibido hoje pela TV Globo e será um dos carros-chefes da emissora para o mercado internacional – é destaque no MIPCOM 2018, feira mundial do setor audiovisual que acontece esta semana, em Cannes.

Que tipos de cuidados foram tomados para se retratar, na série, cenas de abuso sexual?
Houve uma preocupação quanto a isso desde do início – na dramaturgia, na direção da Amora Mautner, e na montagem. Estávamos empenhados em nunca deixar parecer que era uma cena erotizada. Não estávamos contando uma história sobre sexo, estávamos contando uma história sobre violência, uma violência que tem mais a ver com poder do que com sexo. Não mostrar que tinha havido uma violência sexual seria amenizar a história. E, muitas vezes, a forma de dar essa dimensão da violência não é necessariamente mostrando tudo. O que é insinuado pode ser mais forte. Pensar com que ponto de vista aquilo está sendo olhado, se é visto através de uma fresta, se é ouvido ao invés de visto. E, sim, escolher quando mostrar.

Por quê?
A gente não quer que desperte nenhuma sensação de prazer em ninguém, muito pelo contrário.

Só empatia com a vítima?
Exato, com as vítimas. Assistindo à série, a gente está na pele delas. Não estamos vendo com o olhar do assediador. A série tem vários núcleos que vão se entrelaçando e incluem alguns momentos onde o que é mostrado é o núcleo do personagem do médico e da família dele. Mas, nas cenas dos ataques, estamos sempre com as vítimas. Um cuidado que foi conceituado desde o início.

Há cenas com foco no vilão?
As mulheres são as protagonistas da história, ele é o antagonista. Quando a gente vai escrever a cena de um personagem, a gente tem que falar coisas em que ele acredita, as histórias que ele conta pra si mesmo. Na hora em que a gente escreve frases do Roger, tem que tentar “entrar” na pele dele. Uma coisa difícil. Mas, sem isso, ele vira um vilão estereotipado. Queremos que seja um personagem com quem qualquer um poderia topar. Esses são os piores antagonistas – pessoas que você pode encontrar na sua vida real. E, nesse caso, partimos do personagem de um homem que existe na vida real, que várias mulheres encontraram. Então ele tem que ter uma verdade em cena. Todos os personagens, inclusive os personagens secundários, são construídos assim. Cada um tem que ter sua verdade sempre. Mas o arco (narrativo) da série, o conceito geral… Estamos sim olhando por um ponto de vista feminino, e pode-se dizer que há uma tomada de partido, sim.

Qual foi sua motivação?
O que me motivou foram as ações das mulheres, a participação feminina nessa história. Elas passaram de vítimas a heroínas. Mulheres ativas em busca de justiça, a força da coletividade delas: essa foi a motivação, mais do que contar a história de um estuprador serial.

Então houve também a preocupação de não retratar as vítimas apenas como vítimas?
Com certeza. Elas são protagonistas ativas. É claro que, no momento inicial da história, quando elas sofrem a violência, elas são vítimas. Mas fazem uma reviravolta. Elas não se limitam ao papel de vítimas – foram vítimas de uma grande violência, mas foram depois muito ativas na busca por justiça. Quando eu não conhecia essa face da história, jamais tinha passado pela minha cabeça escrever uma série sobre isso. Quando soube da participação das mulheres na condenação dele, aí é que eu achei que era uma história digna de ser contada. Me pareceu muito simbólica dos tempos que a gente vive.

‘AS VÍTIMAS FAZEM UMA REVIRAVOLTA E PASSAM A SER PROTAGONISTAS’

Os cuidados para não erotizar cenas de violência e não mostrar mulheres só como vítimas se alinham ao que muitos críticos vêm falando. Concorda com eles?
Sim. Eu acho que a gente está descobrindo caminhos para contar essas histórias sem um olhar viciado. Vivemos um momento de transformação, onde as vozes femininas, falando muito amplamente, estão ganhando espaço. Isso é uma coisa que ainda está no início, mas é claro que está havendo uma mudança. As histórias passam a ser contadas de formas no mínimo diversas e você pode ter mais olhares se você tem mais mulheres escrevendo. É claro que podemos ter homens escrevendo sobre mulheres e o contrário. Mas o fato é que, por gerações, houve muito mais espaço para os homens contadores de histórias, sobretudo no audiovisual. Acredito que, no mínimo, a diversidade é boa para todos.

Nesse caso, a equipe feminina fez diferença?
Eu acho que fez bastante diferença a história ser contada por mulheres, e não estou falando só de mim, mas também das pessoas que escreveram comigo. Eu tinha mais uma colaboradora, a Bianca Ramoneda. Também tive a ajuda da Eduarda Azevedo, que foi minha pesquisadora. Tive ainda dois homens na equipe, que foram maravilhosos e indispensáveis. Não se trata de excluir o masculino. Ao contrário, a gente tem que somar forças. E fez diferença também ter sido uma diretora mulher. Além da Amora, teve a Joana Jabace, que é a diretora-geral.

Você teve muito contato com as mulheres que viveram a situação na vida real?
Tenho algum contato com elas mas, durante o processo (de criar a série), não aconteceu isso. Fizemos uma pesquisa a partir do livro do Vicente Vilardarga, onde as histórias reais foram contadas. A partir dos dados ali registrados fomos às fontes citadas por ele. Também fizemos outras pesquisas, acessamos muita coisa que tinha saído na imprensa, teses de faculdade sobre o assunto, além dos autos do processo. Fizemos uma pesquisa jurídica aprofundada, ouvimos um dos responsáveis pelo caso no Ministério Público.

Por que isso foi importante?
Para fazer uma boa ficção, tinha que fazer uma ficção responsável. Tinha que ter um conhecimento dos fatos e das versões diversas para construir uma dramaturgia. Pra chegarmos a esse equilíbrio entre fatos, versões e invenções. Precisamos ter liberdade para fazer ficção, mas também precisamos ter responsabilidade. A cada passo você tem que se perguntar: “Isso aqui eu posso ou não posso fazer?”. Se eu, por exemplo, transformar a personalidade de uma das vítimas, estarei ou não desmentindo outras coisas que foram importantes? Em alguns pontos, posso avançar e fazer ficção pura porque eu não estou interferindo em coisas muito simbólicas da história real. Ouvimos tudo que estava ao nosso alcance para fazer essa passagem pra ficção com delicadeza, com responsabilidade.

Houve polêmica em torno da série O Mecanismo, que adaptou fatos conhecidos da Operação Lava Jato.
Cada história – seja uma adaptação de livro, uma história inspirada na vida real ou mesmo uma invenção – traz desafios que são muito específicos. Acho difícil falar sem ter vivido o desafio de contar aquela história. O resultado final vai ser uma soma de milhares, milhões de escolhas, éticas inclusive. Às vezes, não temos clareza sobre algumas coisas e só vamos descobrir os efeitos depois. A gente tenta se antecipar. A realidade é usada como matéria-prima de histórias ficcionais desde o início do cinema e do audiovisual. Já lidei com isso algumas vezes e cada vez o desafio foi diferente. Não dá pra generalizar. Eu sempre me pergunto: “Se eu fizer assim, qual é a implicação que isso tem? Será que ultrapasso um certo limite ou não?”.

Pode dar um exemplo?
No caso do Roger, uma das coisas que eu não podia fazer era inventar, por exemplo, que ele tentou matar uma paciente durante o ato. Se eu fizesse isso, ainda que meu personagem seja ficcional, como eu não nego a origem na vida real, as pessoa iriam fazer essa associação.

Como foi a recepção da série entre as vítimas?
O que chegou até a mim é muito positivo. É sempre um revirar de emoções que ficam ali adormecidas, mas recebi respostas muito bonitas, pelo menos das que vieram até a mim. Falaram que se sentem representadas, identificadas com as personagens. Elas concordam que, embora seja doloroso, é importante falar sobre o que ocorreu. E que isso incentiva também a quebra do silêncio em outras situações.

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