Um passeio pela Flip, com transparência, Lei Rouanet e mulherio

Sonia Racy

01 Julho 2016 | 00h44

A questão da transparência e a polêmica da Lei Rouanet estão no centro dos debates da Flip 2016. No primeiro dia de festa, Eduardo Saron, superintendente do Itaú Cultural – uma das entidades que mais captaram recursos em 2015 –, observou à coluna que são “urgentes” e “necessárias” duas atitudes para que a lei seja melhor aplicada: o fortalecimento do Fundo Nacional de Cultura e a regulamentação do Ficarte. “Isso evitaria distorções do mecenato e atenderia tanto ao Brasil que precisa quanto à indústria cultural. Além de, claro, melhorar a governança da lei”, afirmou.

Saron também explicou as diretrizes do novo Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais, que reunirá mais de 100 entidades do setor. A ideia será concentrada em seis pontos: a reforma da Lei Rouanet, a reestruturação da Funarte, a criação da profissão de gestor cultural, uma agenda de cultura para os candidatos às prefeituras, a elaboração de um mapa da economia da cultura do País e a organização de um censo das instituições culturais.

O humorista português Ricardo Araújo Pereira, forte candidato a “gato da Flip”, deu uma colher na política: disse ter assistido às sessões do impeachment diretamente de Portugal. “No fim, com os agradecimentos à Igreja Quadrangular, comecei a achar o Tiririca o mais sério de todos”, ponderou, acrescentando que “em todos os lugares do mundo dizem que os políticos roubam, mas os brasileiros, além de afirmar, estão mostrando documentos que comprovam”.

Bárbara Bulhosa, que edita os livros de Ricardo em Portugal, está determinada a levar autores brasileiros para lá. Começará com Nelson Rodrigues que, segundo conta, nunca foi publicado na “terrinha”. “Tivemos problemas com os herdeiros dos direitos autorais”, revela. Com essa “exportação” do autor, o Teatro Nacional Dona Maria (o mais importante de Portugal) já se interessou pela ideia e, segundo ela, planeja encenar um dos textos do autor.

No quesito feminista da festa, Maria Valeria Rezende reuniu 20 outras escritoras no Espaço Itaú Cultural de Literatura. Conversaram por quase duas horas com autoras como a indígena Vãngri Kaingáng, Andrea Del Fuego, Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo e outras que ela conhecia via Facebook, para criar uma “ajuntação” de mulheres no mundo editorial literário. Dentro de dois meses elas se reunirão para um primeiro encontro “de mulherio” – de literatura e de todas as linguagens artísticas. E não faltou na feira, é claro, uma britânica para falar do Brexit.

Helen Macdonald, autora de F de Falcão, considerou o resultado “um desastre”. E sentenciou: quem votou a favor “tem memória de uma Old England que não existe, que nunca existiu” .

Um dos astros pop da Flipinha, Lázaro Ramos, anunciou seu primeiro livro para adultos – a sair pela Objetiva mas ainda sem data de publicação. E já aproveitou a viagem para visitar, com a mulher, Thais Araújo, um quilombo da região. / MARILIA NEUSTEIN