‘Um dia, os Trump do mundo serão dolorosas piadas’

Sonia Racy

25 de julho de 2017 | 00h45

PILAR DEL RÍO

PILAR DEL RÍO. FOTO:AUGUSTO FINFER/REUTERS

Pelo segundo ano seguido, a espanhola Pilar del Río, da Fundação Saramago, vem à Flip, que começa amanhã em Paraty. Desta vez, com duas missões: lançar livro de troca de correspondências entre José Saramago e Jorge Amado e inaugurar a Casa Amado e Saramago, que terá programação própria na feira de literatura. Hoje, aliás, é do Dia do Escritor. Abaixo, entrevista feita por e-mail.
Pela primeira vez na Flip, o número de convidadas é maior que o de homens. Isso é importante? Importante e justo. Somos nós que sustentamos as indústrias culturais, que, entretanto, são dirigidas e protagonizadas por homens. Bom começar a corrigir esses déficits insuportáveis.
Se considera feminista?
Sou feminista, não poderia deixar de ser. Considero que homens e mulheres são iguais. Quem não se considera feminista é porque pensa que as mulheres devem se sujeitar ao poder masculino.
Você esteve na Flip no ano passado. Gostou da experiência?
Gostei. Ao contrário do que dizem os pessimistas (e algum idiota), o modelo da Flip não está esgotado. Pelo contrário, há muitos aspectos a serem explorados. Nós, da Fundação Saramago, oferecemos um lugar de encontro e chegamos a uma feira com mulheres e negros como protagonistas. O mundo avança.
Você já foi jornalista. Acha que as mídias vivem uma crise?
Vivemos um momento de transformações tão vertiginosas que os próprios meios de comunicação estão presos no desconcerto geral. Alguns respondem acentuando comportamentos mais próprios do século 19 que do 21. Talvez consigamos entender na nossa geração que já não vale o patriarcado, que a imposição autoritária no econômico e no social pode ter êxito sim, só que temporário. Os meios vão deixar de ter o poder de colocar e tirar “reis”, porque a sociedade pode anular a decisão. Não é o caos, é um tempo que exige novos instrumentos. Os meios de comunicação convencionais, carecem de projetos para avançar. Por isso atravessam essa enorme crise nos continentes.
Li em uma entrevista em que você diz não gostar do título de ‘viúva de Saramago’ porque nunca foi chamada de mulher de Saramago enquanto ele estava vivo. Como lidar com esse sentimento e ao mesmo tempo trabalhar com o legado do escritor?
Eu respeito e exijo respeito. Sou uma pessoa com determinadas características –, em meu DNA não está ser “viúva de’ e não esteve “ser mulher de”. Quem me trata assim é por pobreza intelectual. E não quero ver meus colegas cometerem esse desatino. Trabalho em um projeto que compartilhamos José Saramago e eu, na Fundação, que tem objetivos culturais e humanísticos. Meus sentimentos são meus e não os deixo passar para o trabalho. De qualquer maneira, estou animada com a força que significa ter compartilhado anos de vida com um ser humano extraordinário.

Gosta de literatura brasileira? Tem algum escritor preferido?
Creio que se digo que gosto de Jorge Amado, ninguém vai achar estranho… Claro que eu gosto de literatura brasileira, a clássica e a contemporânea. Posso citar Machado de Assis e me iluminar, posso citar Chico Buarque e sorrir: gosto muito deste escritor que para mim é um renascentista, um criador que beira o sublime.
Trump foi eleito nos EUA e aqui no Brasil cresce, entre outros, o nome de Jair Bolsonaro – um ex-militar adepto de políticas ultraconservadoras. Esse avanço da direita é uma tendência?
A direita não é tendência, é uma realidade, fruto de séculos e séculos de pensamento religioso/conservador e de poder econômico coronelista. É difícil superar os medos que temos como seres humanos, como cidadãos e como sociedade.

 Por que isso?
Preferimos o mal conhecido ao bom por conhecer. Sempre mandaram as monarquias ungidas, poderosos que se diziam eleitos por Deus ou deuses vários. Frente a isso, sociedades estavam sem armas, desorganizadas, temerosas. É fácil que a direita ganhe apelando à ideia de que negros, pobres e imigrantes vão tirar tudo de você. O difícil é construir razão e consciência. Mas a história não terminou. Talvez nos daremos conta de que somos muitos e nossa força, se quisermos, é incontrolável. Um dia, os Trump do mundo serão dolorosas piadas, ao descobrirmos que somos mais e melhores.