“Trabalho com lábia e labuta”

“Trabalho com lábia e labuta”

Redação

09 de novembro de 2008 | 06h00

Lenine fala do disco recém-saído do forno, Labiata, e da paixão por orquídeas

Foto: Paulo Giandalia/AE






Ele é considerado um dos grandes nomes da música popular brasileira contemporânea e o compositor “xodó” de intérpretes consagrados. As três décadas de vida no Rio de Janeiro não foram suficientes para mudar o forte sotaque pernambucano. Como ele próprio define: “Saí de uma cidade grande, o Recife, para uma cidade do interior, a Urca, encravada no Rio de Janeiro.” E ele leva às últimas conseqüências essa vida de interior, junto da mulher e dos três filhos, aos quais ele dá o título de “meus desconfiômetros”. “Tenho conta no açougue, conheço todo mundo.”

Além da música, Lenine cultiva outra grande paixão: as orquídeas. Não por acaso, seu novo disco leva o nome de uma espécie, Labiata: “É porque meu trabalho tem muita lábia e labuta”, brinca. Foi com humor e trocadilhos, típicos de quem mantém uma relação íntima com as palavras, que concedeu entrevista despojada à coluna, durante uma breve passagem por São Paulo. Completamente a favor de qualquer forma de acesso à música, inclusive pela internet, esse “duplamente aquariano” e “orquidoido” acredita que há que se pensar novas modalidade de se fazer negócio com as artes. Com os primeiros shows de Labiata – que faz parte do Natura Musical – esgotados, o compositor volta à cidade, no próximo fim de semana, para um repeteco no Sesc Pinheiros.

Seu novo disco, Labiata, também vende em formato de vinil. Por quê? É uma passionalidade, sou fruto desse universo. O vinil tem um ritual completamente diferente. Existe uma intervenção física do lado A e do lado B. Você termina tendo duas leituras diferentes de um mesmo produto. Já o I-Pod tem algo de muito individualista. É você com você mesmo. Ora, isso não tem a ver com música, porque música é gregária, é fazer junto. Por outro lado, o I-Pod permite andar com uma discoteca completa, no bolso da calça. Isso é muito poderoso e divertido.

Mas você baixa música? Sou a favor de qualquer forma de propagação. Lógico que é um terreno que ainda está se definindo. Não podemos perder a oportunidade, neste momento que se apresenta, de reivindicar uma autoralidade que se perdeu. A tecnologia digital nos permite, pela primeira vez, colocar o criador na mesa de negociação. Temos que pensar essas novas modalidades de negócio com música que estão surgindo a partir da tecnologia.

Você diria que a música é um dos nossos produtos de exportação mais ricos? É o maior. Não dá nem para comparar, porque é contínuo. É uma sucessão de gerações elevando o patamar. No quesito cultura, expressão popular – e olha que eu não tenho nada de nacionalista – , não existe nenhum país como o nosso. No caso da música, temos uma profundidade, um refinamento lingüístico, literário, difícil de competir. Porque temos essa malha sonora de possibilidades, de vogais.

Você acha importante mapear o Brasil musicalmente? É fundamental. Quando dizem que o Brasil não tem memória, eu discordo. Temos pouco tempo de vida. Estamos fazendo a memória do nosso país. A visão que eu sempre tenho do Brasil é a de um adolescente de 13, 14 anos, com a cara cheia de espinhas, se olhando no espelho e dizendo: “Tô feio, mas vou melhorar.” Adoro essa aptidão que a gente tem de viver feliz.

E como nasceu sua paixão por orquídeas? Tem uns oito anos. Foi uma paixão fulminante, como uma represa, me inundou. Tenho em torno de 2.500 plantas, mais de 500 espécies que vou pegando por onde vou fazendo shows. Antes de viajar, faço pesquisas e descubro as espécies do lugar. Pelo google, acho algum “orquidoido” igual a mim e vou fazendo a catalogação. Fui documentando momentos especiais da minha vida com plantas, é lindo.

Essas plantas precisam de muito cuidado? Não. Isso é o mais interessante, é quase paradoxal. Apesar da delicadeza da flor, a planta é uma das mais robustas da natureza. Já tive algumas que ficaram na minha mala por 12 dias… Três coisas me chamaram a atenção nessa história de orquídeas. A beleza – que é avassaladora –, a diversidade – há mais de 40 mil espécies já catalogadas pelo mundo – e a adaptabilidade – para você matar uma orquídea tem de tratá-la muito mal. E eu pensei que tem tudo a ver com a música popular brasileira. Porque é a busca da beleza, tem a diversidade, e olha… sangra, mas não morre (risos).

De onde veio o nome Labiata? Labiata é o nome de uma espécie. Cattleya, a família. Foi uma escolha passional. O que me pegou foi a sonoridade, porque meu trabalho tem muito de lábia e labuta. Até porque só 0,001% da população vai entender que esse é o nome de uma planta que é encontrada apenas no Brasil. O mais bacana é que a Labiata rivaliza com outra planta que se chama Laelia purpurata. E seriam as duas flores símbolos do País. Uma só dá no Sul. A outra é nordestina. As duas são muito desejadas para a hibridagem pelo mundo. O disco foi todo muito permeado pela intimidade, o que foi reforçado pela proximidade que tenho com as flores.

Você é um ouvinte eclético, escuta de tudo? Sim. Mas não costumo usar música como pano de fundo da minha vida. O único momento em que eu faço isso é no carro. Eu perdi o hábito de ouvir música em casa porque, para isso, tenho que parar tudo, vetar todos os outros sentidos e transformar meus dois ouvidos em grandes anzóis.

Como você explica esse borbulho cultural que tem no Recife? É cíclico. O que acontece hoje é mais significativo e divulgado, porque houve um exorcismo generalizado.

Com o mangue beat? Sim. Até o mangue beat, sofríamos no Recife da síndrome do vira-lata. Isso mudou. As pessoas confundem o mangue com movimento, mas não é. Normalmente, movimentos são segregários. Os caras do mangue eram cúmplices do fazer. Isso não é movimento, é movimentação. Poderiam existir várias bandas-cover do mangue, mas não acontece. E isso é Pernambuco. Um palavra grande assim, em que nenhuma letra se repete.

Outro dos seus trabalhos mais recentes foi a trilha para o espetáculo Breu, do Grupo Corpo. Como foi essa experiência? Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida, porque comecei a idealizar como seria a imagem da minha música. Pela primeira vez, vi a minha música tridimensionalmente.

Você disse que seus três filhos são muito musicais. Vocês tocam juntos? Às vezes. Mais do que isso, meus filhos se transformaram ao longo do tempo nos meus desconfiômetros. Cada um na sua área. O mais velho, João, tem uma banda de samba e tem uma enorme curiosidade do universo da MPB. O do meio, Bruno, é mais ligado ao rock, é o homem dos equipamentos. E o mais novo, Bernardo, está intimamente ligado ao hip-hop. Eles me municiam, me apresentam coisas, há uma troca muito bacana. São desconfiômetros poderosos.

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