Tornando-se jovem

Sonia Racy

05 de setembro de 2011 | 23h02

Shimon Peres, aos 88 anos, não está preocupado em resolver o passado. E, sim, em decifrar o futuro. Para o presidente israelense, de Adam Smith a Karl Marx, economistas tentam organizar o passado. Mas são incapazes de focar o futuro. Antes, a economia era baseada nas terras. Depois, se apoiou na ciência. Agora, ela não tem mais referência na ciência, mas… em países.

Foi este o início de sua resposta, ontem, sobre as expectativas em relação à crise e às incertezas no mundo. “Lidamos com o desconhecido”, ressaltou Peres, pouco depois de entrar na sala do hotel Intercontinental, em Tel-Aviv, e se sentar ao lado da embaixadora brasileira Maria Elisa Berenguer. Explicou: “Os EUA entraram em crise porque conseguiram mais dinheiro do que ideias”.

Ao Brasil, recomendou olhar para a frente, investir em educação e se tornar mais globalizado. Lembrou que educação não é despesa, mas investimento. E citou a China como bom exemplo. Sobre Lula, ressaltou que “foi revolucionário ao assumir o poder, eleito pelo povo”. Mas que isso não se sustenta por si só.

Convidado para conversar por quase uma hora com grupo formado por João Doria Jr. e Paulo Kakinoff, o presidente deu aula de sabedoria aos participantes do 2º Audi Business Trip, composto de 20 empresários brasileiros. E se o Prêmio Nobel da Paz de 1994 não tocou no assunto guerra ou na votação, dia 20 na ONU, sobre o reconhecimento do Estado palestino, foi claro ao apontar não existir outra saída para o homem a não ser dentro de si mesmo. O que depende de fora já estaria dado.

O homem descobriu sua própria imagem ao inventar o espelho. Hoje, começamos a enxergar nosso ser interior, nossa imagem enquanto ser capaz de solucionar questões políticas fundamentais por meio da consciência individual. O coletivo estaria dentro de nós e temos de usar “novos espelhos” para enxergá-lo.

Misturando nanotecnologia e biociência, Peres indicou que não pensa mais no Estado como resultado da associação de indivíduos. E, sim, como condição de existência de cada ser humano. O vínculo entre Estado e indivíduo, para o intelectual, tem hoje caráter de interioridade. Algo como o ser público que existe dentro do privado.

Mesmo porque, segundo o presidente – que fez questão de esclarecer não ser economista –, até a cibernética, atualmente, tem o poder de paralisar uma nação. “Não há proteção contra isso.” Só este fato muda totalmente a maneira de se lidar com a realidade. “Melhorar o ser humano em si é a única alternativa.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: