Tons e cores

Tons e cores

Sonia Racy

25 de outubro de 2014 | 01h20

Foto: Arquivo pessoal

Eran Riklis, diretor israelense premiado por Lemon Tree, conversou com a coluna sobre seu último longa, Dancing Arabs, que será exibido amanhã, no Cine Caixa Belas Artes, parte da Mostra Internacional de SP. Como de praxe, o cineasta trata do conflito na região. Dessa vez, sob a perspectiva de um garoto palestino que vai estudar em uma universidade israelense e vive os desafios dessa situação. Riklis, que já morou no Rio, conta que o período mudou sua vida: “Tenho vontade de fazer um filme sobre esse momento. Só tenho boas memórias do Brasil”.

A seguir, trechos da entrevista.
Seus filmes sempre tratam do tema da coexistência. Acha a discussão importante? 
Sim, especialmente se você vive em um país como Israel ou no Oriente Médio. Não dá para ignorar que temos muitos problemas, mas há muitas histórias com um lado humano forte para além das notícias dos jornais. Para mim, sempre foi importante contá-las.

Você já disse que não considera seus filmes políticos…
Eles têm um aspecto político, é claro, mas sempre quis fazer filmes relevantes, que dessem a oportunidade para que pessoas de todo o mundo possam entender o conflito do ponto de vista humano.

E como fazer isso?
Minha intenção é mostrar o indivíduo e como ele é afetado pela sociedade, pela família e pela política. No conflito, é interessante prestar atenção aos indivíduos, não somente aos aspectos políticos.

Por isso seus personagens fogem do maniqueísmo?
Eu tenho gosto por olhar para os tons entre cores, sabe? As emoções, em uma guerra, ficam muito primitivas. Nesse contexto, a gente tem de tentar fazer com que as pessoas voltem a prestar atenção na complexidade que é um ser humano. Não é uma coisa ou outra. Temos de tentar abrir a cabeça. Esse último conflito em Gaza, especialmente para os israelenses, fez com que as pessoas perdessem a perspectiva. Isso não é bom.

Como estão as coisas depois dessa última escalada em Gaza?
Devo dizer que, no fim das contas, sou sempre otimista. Tento não ser ingênuo, evidentemente, mas, como cineasta, preciso ser otimista, senão não se faz filmes. Eu tento sempre olhar por outro ponto de vista. Tomara que, depois desse período ruim, algo bom possa acontecer. Mas estamos em um momento ruim no mundo inteiro, não apenas em Israel. Antes do fim da Segunda Guerra Mundial, quem acreditava que aquilo iria acabar? Alguém tem de acordar de manhã e dizer: hoje eu vou fazer a paz. Estamos em um momento perigoso. /MARILIA NEUSTEIN

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