‘Pintamos como um único artista’

‘Pintamos como um único artista’

Redação

19 de outubro de 2009 | 08h02

Às vésperas de inaugurar mostra na Faap, a dupla osgemeos conta como funciona a arte de juntar dois talentos em um só

Eles já foram idênticos. Hoje, Gustavo e Otávio Pandolfo estão com visual diferente e não são mais chamados de grafieteiros. Otávio, de cabeça raspada, e Gustavo, com barba e cabelo compridos, formam a consagrada dupla de artistas plásticos osgemeos. Foi exatamente desta forma, com as duas palavras juntas em minúsculo, que eles se autobatizaram desde pequenos, quando já pintavam as paredes e muros da casa onde moravam no bairro do Cambuci, em São Paulo.

Embora muita coisa tenha mudado de lá para cá, o processo de criação da dupla é o mesmo. “Criamos juntos e executamos juntos, como se fôssemos a mesma pessoa. Nada de um questionar o que o outro faz”, conta Gustavo. Conflito é coisa impénsável para a dupla: “Eu sou a terapia dele e ele, a minha”, brinca Otávio. No caminho inverso da maior parte dos artistas, a primeira galeria a representá-los era de fora do Brasil – a Deitch Projects, de Nova York. Dentro do País, os dois mantêm exclusividade com a Fortes Vilaça.

Vai longe o tempo dos meninos que sonhavam em ser bombeiros e que precisavam sair à noite para pintar os muros da cidade. Hoje eles são convidados para expor em museus do mundo todo – ano passado fizeram um painel gigante na Tate Modern, de Londres. No momento, estão totalmente envolvidos com a exposição Vertigem, que abre sábado na Faap. Nela há um painel com mosaicos de 38 metros feito especialmente para a mostra – além de esculturas inéditas. E foi no meio desta montagem de 60 obras, que envolveu a juda de mais de 10 profissionais, que a dupla conversou com a coluna.

Como foi para vocês a transição da rua, de uma arte urbana, para dentro das galerias? Gustavo: Foi muito natural. Não percebemos o que estava acontecendo. É claro que já existia uma vontade ocupar um espaço fechado, de criar um ambiente tridimensional. Porque na rua não podíamos fazer isso. Porque lá está tudo pronto. Já no ambiente fechado podemos colocar uma escultura, mexer com som, luz. Além de lidarmos com todos os sentidos. E o mais bacana de tudo isso foi que aconteceu sem pretensão. Não tínhamos a noção dessa grandeza.

Então vocês já tinham vontade de fazer esculturas? Gustavo: Sim. A gente não trabalhava nessa direção ainda, mas já queríamos fazer. Construir. Quando fomos para galerias, isso se tornou possível. É incrível. As pessoas mexem na obra, entram no teu universo. Isso é o mais legal. Transformar. Para nós, fazer uma mostra não é simplesmente colocar uma tela em um espaço expositivo. Não conseguimos fazer isso. Mexemos no espaço inteiro.

Vocês podem dar um exemplo? Otávio: Nunca deixamos uma parede em branco. G: Fizemos um trabalho no CCBB do Rio, onde não havia mosaicos – no estilo em que estamos realizando nessa mostra da Faap. Eram só telas, mas pintamos a parede de rosa. Nunca conseguimos deixar algo só branco.

E como começaram a se envolver com a cultura do grafiti? G: Começamos nos inserindo na cultura hip-hop. Íamos para o Largo São Bento dançar break, por exemplo. Passávamos o tempo na rua. Porque o Cambuci é um bairro assim, em que as pessoas ficam na porta de casa batendo papo, as crianças jogando bola na rua.

Como era o relacionamento na rua, difícil? O: O relacionamento a era bom. O difícil foi, durante uma fase, a bandeira do grafite. Mostrar que essa manifestação é uma coisa legal para a cidade, que deveria ser feita de dia e não somente à noite.

Mas vocês ainda saem à rua para grafitar, ou os trabalhos de rua são na maioria das vezes encomenda? O: Saímos para pintar na rua, às vezes, mas só por diversão.

O sucesso de vocês começou antes da Street Art entrar na moda. Vocês tiveram um padrinho que ajudou no começo da carreira? O: Acho que não. Foi fruto da nossa insistência em querer pintar sempre. Não pensávamos em viver de arte e ganhar dinheiro com isso, no começo.

Já trabalharam em outras coisas? G: Sim. Em funilaria, banco, em fábrica de picles, locadora. Trabalhávamos para ajudar em casa porque nossos pais eram separados e tínhamos que ajudar a nossa mãe.

E como é pintar a quatro mãos? O: Quando pintamos é como se fossemos uma pessoa. É tudo junto. Sempre foi e será assim.

Mas vocês não brigam? O: Nunca. A gente não tem conflitos pintando. Um complementa o outro.

Vocês fazem terapia? O: Eu sou a terapia dele e ele, a minha.

Mesmo com sucesso e sendo reconhecidos vocês conseguem manter a autonomia do trabalho que fazem? G: Temos a total liberdade. Foi algo que conquistamos devagar. Hoje, se alguém quiser nosso trabalho é isso aí (aponta para as obras) que tem para comprar. Não foi fácil conquistar essa autonomia, especialmente no Brasil.

E vocês vendem tudo que produzem? Em quantos museus já têm obras? G: Não vendemos tudo. Fazemos acervo próprio. Mas em NY nossa galeria vende muito. O último que fizemos foi umtrabalho um grande para o Museu Nacional de Tokyo.

Qual é o melhor mercado para arte? G: O americano. Mas o do Brasil é bom também. Aqui tem muita gente que acompanha o nosso trabalho desde sempre e há muitos colecionadores.

E a crítica? Incomoda? G: Nós é que somos nossos críticos de arte. Não ligamos para o que escrevem da gente, mas para o que cada um de nós fala sobre o trabalho.

E a pichação? O: Não falamos de pichação porque é outro mundo. Não discriminamos porque faz parte da cidade, mas não falamos disso porque não tem nada a ver com o que fazemos.

E o que vocês discriminam? G: Sinceramente? Nada. O: Quem destrói a Amazônia, ou que está aí poluindo os rios.

E o spray de grafite não é nocivo para a camada de ozônio? O: Não tem mais CFC no spray que usamos. É especial para grafite.

Como nascem as criações? G: Não nascem, já existem. Só colocamos para fora. É como se fosse um filme que está na cabeça, ao qual foi dado um “pause”. As pinturas já existem lá dentro e estão em movimento. O: Nascem outras coisas, o trabalho, o relacionamento.

Quais são os projetos futuros? G: Temos um trabalho com o Plasticiens Volants, grupo francês que mescla teatro e arte cênica, num esquema ligado ao Ano da França no Brasil, para o fim do ano. Depois, vamos participar da Art Basel Miami. Além disso, temos exposições programadas em outras cidades como Milão, e também em Portugal.

Por Doris Bicudo e Marília Neustein

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