‘Tirei capa de ídolo ao me expor como dirigente’, diz Raí

‘Tirei capa de ídolo ao me expor como dirigente’, diz Raí

Sonia Racy

11 de novembro de 2019 | 00h30

RAÍ/FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Ex-jogador do São Paulo, que comanda há 20 anos
a Fundação Gol de Letra, convive com pressões e cobranças da torcida
na condição de dirigente de futebol do clube, mas adverte:
“O País não se desenvolve se não for em parceria com a sociedade”

 

Enquanto circula pela escola estadual Dr. Sócrates, na zona Norte, Raí é parado o tempo todo. São mais de 20 pedidos de selfies. Alunos e funcionários se revezam com celulares em punho para tirar fotos com ele. Além da fama do boleiro, aposentado há 20 anos, a tietagem ali tem outra razão: a escola em que estudam e trabalham foi reformada pela Fundação Gol de Letra, dirigida pelo jogador. A reforma, assim como ações educativas na sede da entidade, no Rio e em outras escolas de São Paulo, foram feitas ao longo dos 20 anos de existência da Gol de Letra, completados neste ano. A instituição teve início em conjunto com Leonardo, que hoje participa de ações pontuais, mas atualmente é tocada só por Raí.

“Essa escola estava abandonada, começamos com recursos nossos, não tínhamos patrocínio, então tivemos essa ideia de ocupar um espaço vazio. Há dois anos entregamos a escola ao Estado totalmente reformada, com a condição de que os projetos desenvolvidos continuassem. Ainda temos muito chão pela frente, mas é uma escola em período integral. Os professores têm várias horas de formação por semana”, explica.

No trabalho do terceiro setor desde que iniciou a fundação, o jogador se ressente de algumas falas do presidente Jair Bolsonaro, que em diversos momentos criticou “ongueiros”, em citações cheias de “preconceito”, em sua opinião. ‘Uma das bases da sociedades civil são as Ongs, as associações de bairro. Espero que ele ou a equipe dele chegue à conclusão de que, mesmo para o desenvolvimento econômico, você também precisa investir nas pessoas’, diz à repórter Marcela Paes.

Manter o projeto funcionando não é o único desafio de Raí. Desde o fim de 2017, ele é um dos dirigentes do São Paulo Futebol Clube, equipe em que fez carreira. A função – que traz no pacote críticas ferrenhas de torcedores e uma infinidade de pepinos – não o assusta. “É difícil porque você está com uma posição que sempre foi a de ídolo. Mas a experiência de estar acostumado com a pressão como atleta me preparou”. Leia abaixo a entrevista.

Como foi o início do projeto?
Começamos sozinhos, eu e o Leonardo, sem nenhum patrocínio. Hoje, atendemos 4600 crianças e adolescentes por ano em São Paulo e no Rio, com 150 funcionários entre São Paulo, na Vila Albertina, e Rio, no Caju. Começamos o trabalho numa escola abandonada, num bairro violento.

E quais foram as maiores realizações neste período?
Há dois anos entregamos ao Estado uma escola totalmente reformada, com a condição de que os projetos desenvolvidos continuassem. Ainda temos muito chão pela frente, mas é uma escola em período integral, os professores têm várias horas de formação por semana. Essa escola foi muito simbólica. Mobilizamos a comunidade, os pais. Também temos a nossa sede, além de atividades em outras escolas. O nosso programa de formação de monitores esportivos se transformou numa política pública.

O que aprendeu?
Foram muitos aprendizados. Primeiro, tentar provar que aquilo em que a gente acreditava, na teoria, funcionava. Dar oportunidade a esses jovens é transformador, não só para os jovens, para as crianças, mas pra família também. Ao mesmo tempo, quando passa do sonho para a realidade você depara com muitas dificuldades.

Que tipo de dificuldades?
Da desigualdade aqui mesmo do bairro, da Vila Albertina. Gente classe média, classe média alta, classe baixíssima… E uma carência enorme de serviços básicos. A realidade brasileira é de desigualdade. Existe uma dificuldade enorme de dar continuidade ao trabalho, mas há resiliência.

Na época das eleições você declarou ser contra os valores que o presidente Bolsonaro representa. O que está achando do governo dele?
Eu acho que na questão econômica, de abertura, de privatização, pode dar resultado de médio prazo. Mas até pelo que eu estava lhe falando do aprendizado que tive aqui, é que uma das bases da sociedades civil são as ongs, as associações de bairro… Ele tem essa questão de sempre fazer críticas a ongs, ongueiros. Nunca concordei. Ele tem muito preconceito. O País não se desenvolve se não for em parceria com a sociedade, e espero que ele, ou a equipe, cheguem à conclusão de que, mesmo para o desenvolvimento econômico, você também precisa investir nas pessoas.

O Sócrates, seu irmão, era muito politizado. O que ele acharia?
Bom (risos)… Ele sempre foi um cara de esquerda e a ideologia do governo de hoje não é essa. É a democracia, o Bolsonaro foi eleito, né? Ele seria obviamente muito crítico, contundente. Temos muitos extremos hoje em dia, com exageros. Tem que ser um governo para todos.

Quando você decidiu ser dirigente do São Paulo não ficou com receio de perder sua credibilidade como ídolo?
Sim. Um dos grandes aprendizados meus foi tirar a capa de ídolo e me expor como dirigente. Está sendo, além da contribuição que eu estou dando, um grande desafio. Mas eu acho que a carreira que construí não tem como ser destruída. Posso ser momentaneamente questionado pela paixão que o futebol suscita, mas eu percebo hoje que isso só vai me engrandecer como pessoa. E se algumas manchas na minha imagem do ídolo acontecerem, tudo bem. É uma decisão que tem um impacto grande na vida cotidiana.

Existe a possibilidade de o São Paulo ser o primeiro clube a virar uma empresa. Isso está próximo de acontecer?
É, hoje é o caminho, a profissionalização das gestões. E o São Paulo sempre foi um clube de vanguarda, de pioneirismo. O São Paulo já mudou o estatuto há três anos pensando nisso. Também encomendamos estudos. Está nos planos. Um dos grandes benefícios é a profissionalização maior da gestão, planejamento melhor de médio e de longo prazo, pensando em explorar tudo que uma marca como o São Paulo pode dar. O Flamengo, mesmo não virando empresa, fez um ótimo trabalho nesse sentido.

Você citou o Flamengo, que está indo bem com um técnico estrangeiro. Existe resistência na ideia de termos um estrangeiro na seleção brasileira?
Na seleção não necessariamente precisaria. Mas o fato de ter treinadores estrangeiros no campeonato brasileiro já é um estímulo, uma provocação, no bom sentido, para os treinadores brasileiros. Não tenho preconceito. Lá atrás, quando o (Pep) Guardiola (técnico espanhol) disse que estaria disposto, eu via com bons olhos.

Mas existe uma resistência no caso da seleção?
É natural, né? O Brasil é o país do futebol, mas temos que buscar sempre o melhor. Eu acho que agora tá muito bem servido com o Tite, mas no futuro não vejo por quê não.

O Neymar declarou que carrega a seleção nas costas. O que é que você acha desse tipo de declaração?
Todo jogador com que eu converso convive ou conviveu muito bem o Neymar. O Dani Alves também diz que ele é benquisto. Não o conheço pessoalmente e às vezes uma declaração acaba criando um estigma, mas a fala dos companheiros é outra. Quando você é uma pessoa pública acaba criando algumas defesas. E é um supercraque, então tem sempre uma expectativa muito grande em cima dele, muita pressão.

O que é que você vê de diferente entre a postura dos jogadores da sua época e a dos que atuam hoje?
Tem uma diferença geracional, claro. Hoje quem tem filhos sabe que o trabalho para motivá-los é diferente de como era na época dos nossos pais e avós. O futebol é o reflexo da sociedade e os jogadores, alguns muito jovens, também. Hoje com a questão financeira, dos grandes salários, alguns são, digamos, mais mimados.

O Muricy Ramalho disse em uma entrevista que o São Paulo, depois de ter ganho vários títulos, se acomodou e não é mais vanguarda. Como isso é visto internamente no clube?
O Muricy tinha razão, mas há muito tempo o São Paulo já vem buscando o caminho certo. Fomos campeões da Libertadores, do mundo… Enquanto isso todos os outros clubes estavam trabalhando. Tem uma tendência de acomodação depois de um sucessão de vitórias. Mas o São Paulo já passou faz bastante tempo dessa fase.

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