‘TINHA DESEJO DE DESCONSTRUIR’

‘TINHA DESEJO DE DESCONSTRUIR’

Sonia Racy

23 de janeiro de 2011 | 23h00

Paulo Borges fala da SPFW e da emoção de ser pai

 

Paulo Borges fez contas. Gera 10 mil empregos diretos e indiretos, boa parte nas duas edições anuais da São Paulo Fashion Week. O exército da temporada de inverno já redesenha a Bienal do Ibirapuera desde o dia 15 para que, assim, improvisos não trafeguem entre a próxima sexta e o dia 2, quando tudo começa. “É preciso lembrar que há outro grupo decidindo comigo os eventos de 2012”, adianta. Não sendo suficiente essa simultaneidade de metas, ele precisa lidar com egos tão anabolizados quanto os de papisas (ou as que pensam que são) da moda, fornecedores de papel reciclado a espumantes e, ainda, de estilistas e a entourage que os mima. O consolidador do calendário fashion do País, porém, parece manter-se suave como corte de seda pura. Se está nervoso, diz não explodir. Recorre a astróloga, homeopata e mãe de santo. Foi exatamente a primeira quem traduziu o recado dos céus que ele, a princípio, não viu: seria pai. Mas como, se essa vontade surgia e sumia como peça de estação, e ele é homossexual? O destino ou o que for crível o fez se ajoelhar por Henrique, cinco anos, legalmente adotado. “Não sei explicar. Ele me chamou de pai no quinto dia”, chora. A seguir, a entrevista.

A SPFW debutou: 15 anos, 30 edições. E daqui para frente?

A gente está há dois anos pensando nesse fechar de ciclo. O evento foi pensado como projeto de 30 anos, onde há incessante busca por transformação e qualificação. Fazer 15 anos é significativo porque fomos buscar nossa memória, nos desfazer do passado e olhar para o futuro.

Para a edição que começa nesta sexta, o que há de novo?

Primeiramente, nova apresentação estética. Quem implantou a SPFW na Bienal foi Isay Weinfeld. A partir dali convidamos artistas para trabalhar a questão da cultura: os Campana, Bia Lessa, Muti Randolph e, durante muitas edições, Daniela Thomas. Mas eu tinha desejo de desconstruir. Foi inevitável pensar do zero. Chamamos, então, um grupo de jovens arquitetos, o 20.87, e o Estúdio Árvore. Assim, renovamos valores importantes: inovação, criação, sustentabilidade e convergência.

A estrutura na Bienal muda?

As salas ganham nova posição, tecnologia e estrutura técnica. Antes elas ficavam no miolo do prédio, e os camarins, isolados. Como a gente mudou a localização, eles estarão diante dos janelões, ganhando, assim, luz natural. Outro exemplo: a sala do térreo não existe mais e se transformará em entrada do evento. Ganhamos relação orgânica com o parque. O espaço entre as rampas ganhará jardim suspenso de samambaias. Por fim, uma passarela de 80m na entrada. Todo mundo chegará desfilando (risos).

A moda se profissionalizou?

Em dezembro, a moda foi colocada no plano nacional da cultura. Agora temos cadeira dentro do Conselho Nacional. Isso é histórico, um trabalho costurado desde a época em que Gilberto Gil foi ministro. Há um colegiado de 15 pessoas, com o mesmo número de suplentes, e Ronaldo Fraga alterna comigo as reuniões com a ministra (Ana de Hollanda). É uma grande conquista para quem não tinha nada.

Dilma não usou grife da SPFW na posse. Como avalia isso?

Acho que ela não teve tempo de escolher. Dizer que ela não está pensando na cultura e no mercado de moda é precipitado e cruel. Jamais assumiria isso.

Ela é elegante?

Ela se posiciona como tem de ser. Pode estar mais bem-vestida? Como todos. A presidente é uma mulher de personalidade, e não é todo mundo que tem.

Como mantém controle emocional e técnico diante de um evento como a SPFW, onde se responsabiliza por tanta gente?

Entre trabalhos diretos e indiretos, emprego ou fecho parcerias com quase 10 mil pessoas. Muita gente mesmo. Mas sou muito calmo. E já passei por situações complicadas, como um blecaute na edição em que havia projeções complexas e, portanto, precisávamos de energia. Numa outra, um rapaz caiu de uma escada e se segurou numa parede com 180m de papelões encaixados! Vi a parede cair inteira. Isso, com o evento aberto. Caiu? Coloca no lugar.

Que faz para se manter assim?

É natural, mas fiz 14 anos de análise e descobri a antroposofia (filosofia que reúne pensamentos científico, artístico e espiritual).

Há guias em seu pescoço. Qual sua relação com o candomblé?

Sou filho de Ogum e Oxum, mas ainda não tenho cabeça feita. Respeito o candomblé, mas me coloco em dívida. Tenho entrega diferente de outras pessoas. Mas minha relação com a Bahia é de alma. Há 11 anos tenho ido sempre. Hoje, 20 vezes por ano. Meu filho, Henrique, é baiano e sou cidadão soteropolitano.

Como gosta de se divertir?

Jantando com amigos ou vendo filmes. Nos últimos quatro anos, somente infantis, porque só consigo ir ao cinema com meu filho, que tem cinco anos e cinco meses.

Sempre quis ser pai?

Antes deixa eu explicar uma coisa. Tenho três “gurus”, que na verdade são conselheiros espirituais. Além da mãe de santo, há astróloga e homeopata. Foi exatamente minha astróloga quem me falou do meu filho pela primeira vez. Desde os 18 anos pensava em ter um. Mas pensava ser muito egoísta para criar. Um ano antes de conhecê-lo, ela disse que eu viveria uma mudança absurda e teria um filho. Não sabia se era adoção, nada. Ela me disse, então, que conheceria uma criança em agosto. Depois de uma visita a Salvador, meses depois, liguei para um amigo procurador e comentei que queria adotar um menino. Menina, não, pelo amor de Deus! (risos). E queria crescido, afrobaiano. Tempo depois, estava em Minas, quando me avisaram que havia uma criança para mim. Pensei: “Veremos no que vai dar”.

E no que deu? Teve preocupação quando o conheceu, da entrevista com o juiz?

Não. Nenhum tipo de preocupação por ser solteiro ou homossexual que, aliás, declarei na hora. Ele queria saber se poderia ser responsável por uma vida já traumática. Achava que era complicado, não foi. A primeira entrevista foi 15 dias antes de eu conhecê-lo. Insisti para vê-lo e não deixavam porque a lei não permite. Fui encontrá-lo num primeiro dia de agosto. Fui no carro do juizado a uma instituição de uma freira. Tinha de bebê a criança de 12 anos. Elas aprendem que estão lá para ganhar uma família, que precisam ser escolhidas. Por isso vieram para cima de mim. Mas um ficou longe. Eu e ele nos olhamos fixamente e perguntei pra freira: “É ele, né?”. “Sim, é ele” (interrompe, leva as mãos ao rosto e chora). Cinco dias depois ele já me chamava de papai. Ganhei guarda provisória. Pouco mais de um mês depois, na audiência final, o juiz e o promotor perguntaram, entre outras coisas, como ele me chamava e eu disse “papai”. Ele não acreditou até Henrique abrir a porta da sala, do nada, e perguntar: “Papai, quando vamos embora?”. O juiz mandou anotar isso no documento e rasgou a certidão anterior. É meu filho, neto dos meus pais.

Henrique sabe que você é gay?

Ele já falou na escola que o pai dele tem namorado. Aliás, antes de matriculá-lo, fui lá e disse: “Meu filho é negro, sou gay, solteiro, e essa é minha vida com ele, como a escola trata isso?” Tento colocá-lo em ambiente mais tranquilo possível.

Depois da SPFW, o que fará para relaxar?

Vou pra Salvador curtir o festival de verão (risos.)

JOÃO LUIZ VIEIRA

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