‘Teremos quantidade significativa de negros mortos’, diz apresentador da Globo sobre Covid-19

‘Teremos quantidade significativa de negros mortos’, diz apresentador da Globo sobre Covid-19

Marcela Paes

13 de abril de 2020 | 00h30

O apresentador Érico Brás Foto: Leonardo Pequiar

 

 

A ideia de que um dia estaria na televisão nunca pareceu um sonho distante para Érico Brás. A infância vivida no bairro do Curuzu, na Bahia – com as dificuldades típicas de uma menino que cresceu em um bairro de periferia – e a entrada precoce em um grupo de teatro aos 7 anos,  foram combustível para o ator, que hoje apresenta, ao lado de Fabiana Karla e Fernanda Gentil, o Programa Se Joga, nas tardes da Globo. “Eu sonhava muito, tinha uma cabeça aberta. Esse grupo de teatro que eu estava primava muito pelo protesto, eles já questionavam determinadas posições na sociedade brasileira, inclusive na arte e exclusivamente na televisão brasileira, que não tinha atores negros protagonizando novelas nem apresentadores negros”, diz. À repórter Marcela Paes, Érico falou sobre a interrupção da atração após a pandemia de coronavírus, sobre aspectos da disseminação da doença em bairros pobres e sobre a representatividade do negro na arte no Brasil. Leia abaixo a entrevista:

O Se Joga tá com as gravações interrompidas. Como tá sendo lidar com essa situação da quarentena?

Tem me doído muito. Porque o Se Joga é um novo desafio na minha vida, e eu, como eu sempre faço em todos os desafios, eu abraço com muita força e vou levando. Isso mudou, alterou a minha rotina e com certeza alterou a rotina dos brasileiros que têm assistido o Se Joga nos últimos meses, né? A gente estreou 30 de setembro e de lá pra cá vínhamos conquistando o público, ganhando espaço. As pessoas me perguntam nas redes sociais quando vai voltar.

Você acha que essa situação pode fazer com que o programa perca o público que ganhou? Por ser uma atração relativamente nova?

Eu acho que não. Eu acho que não porque não é uma ruptura particular no Se Joga, é uma ruptura nacional. Estamos tendo ruptura na programação geral da Globo. A gente faz parte de uma grade que entra todo dia na casa do brasileiro. Acho que muita gente está com saudade da programação.

 Você divide o programa com a Fernanda Gentil e com a Fabiana Karla. Como é essa dinâmica internamente?

A nossa dinâmica lá dentro é muito simples, é necessário que os três participem o tempo inteiro. Se prestar atenção, não tem um que faz mais que o outro não. A nossa convivência também facilita isso. A gente se dá muito bem. Depois do programa a gente vai pra restaurante, aniversário um do outro. Levamos esses papos para o programa.

Você, pessoalmente, como está se sentindo nesse período?

Olha, eu estou muito preocupado. Sempre fui uma pessoa de acordar e olhar as notícias e agora ainda com mais frequência. O que me parece é que vem uma recessão mundial. De modo especial no Brasil, em que grande parte da população negra, por exemplo, trabalha na rua, são trabalhadores informais. Me preocupa muito como a gente vai lidar com essa economia depois dessa pandemia.  O pequeno empresário também vai sofrer muito. As pessoas vão recuar na hora de gastar, outros vão demitir.

Você nasceu no Curuzu, que é um bairro pobre de Salvador. Acha que em comunidades mais adensadas, como o Curuzu, a situação do coronavírus vai ser ainda pior?

Eu acho que sim. Não só a gente, mas a mundo inteiro. As periferias do mundo inteiro não estão preparadas para isso. Não devemos romantizar. Acho que as pessoas vão ser acometidas de uma grande e avassaladora letalidade. Grande parte da população que não tem, a priori, educação em relação aos cuidados de higiene. O próprio Estado, que está acima dessas pessoas, não está preparado. Nós teremos aí uma quantidade significativa de pessoas pretas, suburbanas, periféricas, mortas.

Queria falar um pouco agora da sua trajetória. Você começou fazendo teatro em um grupo de igreja, depois foi para o Olodum e atualmente apresenta um programa diário na Globo. Você imaginava isso?

Vou te dizer uma coisa, eu não tenho medo de ser sincero. Eu imaginava sim. Na minha infância, eu comecei fazer teatro aos sete anos e já aí eu sonhava muito, tinha uma cabeça aberta. Esse  grupo primava muito pelo protesto, eles já questionavam determinadas posições na sociedade brasileira, inclusive na arte e exclusivamente na televisão brasileira, que não tinha atores negros protagonizando novelas nem apresentadores negros nos programas.  Com o avanço da luta do povo negro, de um período pra cá, eu comecei a almejar esse lugar.

Qual foi a sensação quando conquistou esse espaço?

Num determinado momento da minha carreira eu comecei a focar nisso. Óbvio que quando chegou eu tomei um susto, porque eu estava preparado, mas quando eu entrei  vi que era algo novo. E o susto vem porque você diz, ‘pô, que bacana, chegou’. É um desafio novo na minha carreira e eu tenho todo dia me preparado um pouco mais pra ocupar esse lugar.

Voltando um pouquinho, como é que foi a sua infância? 

A minha infância foi uma infância de garoto negro da periferia, sem as necessidades básicas, com um pai e uma mãe trabalhadores assalariados, uma escola pública sem professores, sem as matérias que a gente precisava. O que me salvou e me colocou no caminho certo foi o teatro. A arte é salvadora.

Antes da pandemia vivíamos um momento conturbado na área da cultura politicamente. 

Sim, isso me deixa até emocionado… Quando vejo  o modo como o Estado vem tratando a arte no País, é um suicídio, sabe? É um suicídio da sociedade brasileira. Uma sociedade que tem respeito à cultura prima pela educação. É fundamental. Minha infância foi muito parecida com a de vários jovens negros brasileiros que não conseguem ter esse privilégio de encontrar a arte. Aí, simplesmente entram nas estatísticas que a gente sabe muito bem quais são.

Qual que é a importância de se ter apresentadores negros no maior canal de televisão do Brasil?

A gente sabe que existe uma necessidade extrema das referências. Quando você liga a televisão e vê a Maju Coutinho, por exemplo, isso automaticamente entra na cabeça das pessoas. É importante que as pessoas se vejam na televisão, isso forma opinião. A Glória Maria e o Heraldo Pereira cumpriram e continuam cumprindo o papel de estrutura, de base para que a gente pudesse chegar aqui agora e apresentar. Atualmente também temos o Mumuzinho e a Ludmilla apresentando o Só Toca Top, no sábado. Uma pessoa negra que me vê vestindo uma determinada roupa, passa a acreditar que ela também pode vestir aquela roupa.

E grande parte da população do Brasil é negra

É um percentual muito grande, mais de 50% somos nós. Nós precisamos estar vendendo essas coisas, precisamos estar representados, e inclusive, precisamos também estar representados na política brasileira, que tem uma única paleta de cor. Eu estava conversando com amigos uma vez e começou o assunto Lava Jato. Aí disseram ‘o Érico não fala nada’. Vou falar o quê? Tem algum negro preso na lava-jato? Tem negros na política?

A Globo aumentou nos últimos tempos o quadro de apresentadores negros. A que você atribui isso?

Atribuo a um afunilamento do nosso grito. Durante muito tempo cada um falou do seu lugar. Agora, com a internet, gritamos juntos. Os movimentos vem mostrando há muito tempo que é descabido e é cafona o Brasil continuar sendo o último em tudo. Inclusive em aderir a participação de negros em todos os setores. Na Europa e nos Estados Unidos essa representatividade já existe há um tempo.

Acha que a emissora percebeu essa demanda do espectador?

Exatamente. É uma demanda do mercado mundial. A Globo entende agora que precisa sanar isso e está dando  resultado. Eu vejo os números de audiência do Se Joga e ganhamos quase no Brasil inteiro. A emissora entende que realmente precisa atender ao pedido do povo brasileiro, que em sua maioria é negro.

 

 

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