‘Tem gente demais, no País, que não produz sem subsídio ou sem esmola’

‘Tem gente demais, no País, que não produz sem subsídio ou sem esmola’

Sonia Racy

13 de junho de 2016 | 01h30

Fabio Motta/Estadão

Fabio Motta/Estadão

 

Aos 84 anos e 60 de carreira, ator volta aos palcos com O Último Lutador, defende um teatro de qualidade e critica parte da classe que se habituou a depender de ajuda oficial

“Quem quer faz, não pede”. Com essa e outras frases de seu avô, Stênio Garcia, 84 anos, se fez como um dos atores mais respeitados do País — e completa, este ano, 60 de carreira. Para comemorar essas “bodas de diamante”, o capixaba de Mimoso do Sul volta aos palcos após um intervalo de 18 anos, com a peça O Último Lutador, que chega a São Paulo na sexta-feira, 17. Nela, o ator interpreta Caleb, um patriarca que, próximo da morte, vê a família desestruturada e decide realizar um campeonato para tê-la novamente reunida.

Esse longo distanciamento do teatro, diz ele nesta entrevista a Marina Gama Cubas, resultou de vários fatores. Entre eles, a falta de qualidade do teatro do Rio – comparado ao de São Paulo – e o trabalho mais rentável na televisão, que lhe permite ser o provedor de várias famílias, de irmãos e filhas.

Forjado no teatro paulista, Stênio tem uma percepção marcada pelo rigor: a de que falta qualidade aos espetáculos e uma dedicação de corpo e alma dos artistas em busca dessa qualidade. E dá um recado a parte da classe artística que, segundo ele, torna-se dependente dos subsídios do governo sem que, necessariamente, os aplique na qualidade da obra. A seguir, os principais trechos da conversa.

 

O Último Lutador é seu retorno aos palcos após de 18 anos.
Sempre fiz mais teatro em São Paulo. Com a TV aqui no Rio e um trabalho atrás do outro, ficou difícil voltar ao palco. Eu não gosto de fazer teatro no Rio. Gosto em São Paulo, onde comecei e onde ocorreu todo o processo que me tornou ator.

 

Qual a diferença entre fazer no Rio ou em SP?
Acho que em São Paulo é mais sério, mais disciplinado. O público também me parece mais exigente. No Rio a coisa é um pouco “oba-oba”. Talvez ache isso porque trabalhei quatro anos para o Antunes Filho, fazendo preparação de atores. Também trabalhei muito para o Flávio Rangel, o Abujamra, o Ademar Guerra – diretores de uma linha cultural mais paulista. Acho que isso me trouxe um espírito de qualidade e disciplina, que São Paulo tem mais.

 

Esse retorno lhe traz alguma memória em especial?
O fato de eu ter me afastado do teatro se deveu, um pouco, a questões econômicas. Criei família, adquiri responsabilidades que, no teatro, são difíceis de atender. A verdade é que temos um mercado muito reduzido de teatro. Fui casado com a Cleyde Yáconis durante 11 anos e ela é uma atriz fantástica. De uma disciplina incrível, que eu acabei adquirindo. Acho que nesses 18 anos essa questão pesou. O fato de não ter aparecido nada como o Cemitério de Automóveis – com produção de Ruth Escobar e direção de Victor Garcia –, por exemplo, fez com que eu não fizesse teatro. Ou como As Aventuras de Peer Gynt, que eu fiz com Antunes Filho. Trabalhos que dificilmente você encontra no Rio.

 

Como foi essa volta ao palco?
Nós conseguimos criar um espírito de busca no trabalho do espetáculo com toda a equipe. Criamos uma ilha de preocupação em relação a público, em relação à linguagem. A gente fala sobre MMA e UFC, como um novo esporte. O que exigiu muita pesquisa e preparação. Meu personagem é inspirado no Hélio Gracie, da família Gracie. Fala na questão da honra no esporte.

 

O que mais o impressionou no estudo para fazer o personagem?
A questão da união da família. O Hélio criou junto com o Carlos o jiu-jítsu brasileiro que é único no mundo. O elenco procurou estudar a mecânica do movimento do corpo. Como usar o balanço do corpo e o próprio peso para obter o resultado esperado e vencer a luta. Além disso, há todo um preceito seguido pela família, que ia desde a alimentação até conceitos de união e integridade. Tudo isso me deu um entusiasmo muito grande para voltar ao teatro. O aspecto humano do texto foi outro ponto importante. Ele prevalece sobre a questão da luta marcial. O Caleb, meu personagem, é um cara no fim de vida, com doença terminal, preocupado em reunir a família, que está completamente desintegrada. E ele o faz através do UFC, que é a união de todas as artes marciais.

 

Qual a diferença entre fazer teatro e fazer TV?
O teatro exige um estudo maior. A televisão é algo mais industrializado, você tem que trabalhar com a quantidade. A gente grava de seis a sete capítulos por semana, são 50 cenas às vezes. Em dois dias você tem que decorar, agilizar e criar. O teatro lhe permite dois meses de estudo, de pesquisa. Na TV você tem que chegar e fazer na hora. Aí é bom ter o exercício do teatro, onde se trabalham o corpo, a voz, a emoção. Desenvolvem-se os vários aspectos da figura do ator, do que é necessário para se criar uma expressão. E é no teatro que se consegue a qualidade disso.

 

A crise econômica e política interfere no público do teatro?
Muito. A gente está vivendo uma crise geral no Brasil e a cultura é uma dos primeiros pontos afetados. Acho que o País está sofrendo consequências de atrasos em todos os sentidos, principalmente o econômico. A primeira coisa que a população corta é uma ida ao teatro. Entre arroz e feijão e a ida, ele escolhe a primeira.

 

Como vê a política de hoje?
Nós, que trabalhamos em televisão, temos uma imagem pública que influencia muito. Por isso somos chamados para fazer comercial. Você vai influenciar na compra de um produto. E se você se posiciona sobre a política está influenciando politicamente e acho que é uma questão muito individual. Tenho amigos que chegam a brigar por posições políticas. Eu não. Tenho posição, mas não quero influenciar as pessoas através da minha imagem. Acho que política é uma questão de discernimento, o cidadão tem que chegar às suas próprias conclusões, por exemplo, sobre se deve ou não haver impeachment. Eu acompanho, torço, mas não me exponho porque não quero influenciar nessa questão.

 

Com 60 anos de carreira, o que ainda lhe falta fazer?
Muita coisa. Mas eu ambiciono fazer o Fausto, de Goethe, que trata sobre a vida e a morte. Me desperta uma certa curiosidade, com a idade que tenho. O que é a vida? O que é a morte? Fausto é um ser humano que vende a alma para obter recursos. E está cheio disso neste momento brasileiro, pessoas se vendendo totalmente.

 

Como seria, a seu ver, um Fausto à brasileira?
Acho que é só retratar a corrupção que existe atualmente no governo. Na política em geral e até na alma do brasileiro, que ficou sem referências de caráter. Quando você tem todo mundo envolvido, incluindo os que dirigem e os que ditam as leis… O Brasil está desfigurado em termos de caráter.

 

Acha que a corrupção é um dado cultural?
Infelizmente, é. Você lê a literatura brasileira, vê que essa corrupção vem desde o período colonial. Claro que, como em todos as épocas, há pessoas de caráter, mas a história conta que a corrupção já existia, as riquezas eram transitadas através do “quem dá mais”. Mas acho que é pior hoje, porque temos acesso mais fácil a referências – temos a internet que nos informa – e continuam surgindo novos casos de corrupção.

 

Seria possível fazer um Fausto em Brasília?
Ah, sim. Desde 1960, não quero dizer que Juscelino Kubitschek tenha participado disso. A ideia dele era miraculosa. Ele descentralizou a coisa, mas não estabeleceu lá um caráter com o restante do País. Hoje, uma pessoa fica dependente de uma Bolsa Família e isso “desproduz” o Brasil. O Brasil não produz porque tem um monte de gente produzindo esmola. Essa é minha visão.

 

Qual o papel da cultura nisso?
Informação é tudo para o ser humano. A cultura de que eu falo não são apenas as artes. Inclui informar a pessoa sobre o que é importante para ela ser honesta. Aprendi isso na escola, com a minha família e com meus avós. Meu avô dizia: quem quer faz, não pede. Foi uma coisa que determinou a minha vida. Plantar para colher… A natureza também ensina. Eu tive o sentimento do dever muito cedo na minha vida, fui arrimo de família. Trabalhei para trazer meus irmãos para o Rio. Toda essa consciência nos dá diretrizes e deveres.

 

Como vê no momento a política cultural do País?
Alguns produtores pegam o dinheiro do governo e começam a favorecer suas prioridades. Compram casa, compram carro, isso e aquilo. Eu participei de um teatro pobre, no início da minha carreira, no qual, se você não trabalhasse, não tinha resultado. Então era uma gente muito consciente, como Cacilda Becker, Cleyde Yáconis, Walmor Chagas, o pessoal do Teatro de Arena. Eles foram referência para mim. Não ficavam dependentes de subsídios ou leis que favorecessem as artes. Eles iam lá e costuravam as roupas com as quais iam entrar em cena.

 

Diria que parte da classe artística está acomodada?
Às vezes o uso das “Leis Rouanet” da vida chega e começa a impedir a… Por exemplo, eu fui convidado para dirigir um espetáculo e quando a pessoa que tinha organizado a produção me trouxe 20 pessoas, perguntei: “Para que isso?”. E ele foi listando que precisava de assistente disso, assistente daquilo. Quer dizer, a produção era um cabide de emprego. Quem ia pagar aquilo? O teatro vai ter retorno? Era só fazer as contas do valor dos ingressos e de quantas pessoas iriam assistir e se daria para pagar esse povo todo. Aí a pessoa disse que conseguiria um subsídio. Então eu desisti por ver que era um cabide de emprego. Não queria isso. Mas tem muita gente que pensa assim. Se você perguntar ao (Antonio) Fagundes, que já produziu muito teatro de altíssima qualidade, ele vai dizer para você que não é dependente do subsídio. Ele constrói através do trabalho dele e se reúne com pessoas que querem trabalhar.

 

É possível fazer teatro sem subsídio?
Ah, sim, desde que as pessoas não queiram ganhar já de antemão. Trabalhem, produzam qualidade e o pagamento disso vem como resultado. Se olhar em todos os setores da vida brasileira, você vai ver que está todo mundo dependente. Até o pobre diabo que está no último vintém da sua miséria vai depender da Bolsa Família. Sem subsídio ou esmola deixa-se de produzir. Conheço pessoas que pararam… O (Arnaldo) Jabor fala muito bem disso nas crônicas. Ninguém mais quer trabalhar, só querem ficar na sombra dos outros.

 

Como seria uma política cultural saudável?
Não sei formular, não estudei isso. Mas, quando me reúno com meus amigos da classe artística, falamos da necessidade de criar cooperativas. Tenho visto cooperativas em que todos trabalham e que resultam numa qualidade. Esse é meu ponto de vista. O Fagundes montou, junto com o filho, a peça Tribos, toda produzida pela cooperativa. Não quero dizer que tudo tenha que ser feito assim. Se houver subsídio, muito bom, mas vamos colocar no resultado desse subsídio a qualidade do produto. Não particularizar, pegar o dinheiro e comprar um carro novo. O trabalho do artista faz parte de uma consciência nacional.

 

Quais os próximos projetos?
Estou escalado para a próxima novela da Glória Perez, com quem já trabalhei em O Clone, De Corpo e Alma, Caminhos das Índias. Os trabalhos devem começar em novembro. Em cinema estou com uma participação em um filme de terror. Nos próximos meses devo me dedicar muito à obra da Glória. Faz três anos que não faço novela. E o tema é novo para mim: transexualidade. Vai exigir muita pesquisa. Gosto muito disso.

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